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Ó para ele, como se fosse um menino, cheio de vontade

Diz-se que não há vinganças no futebol, mas o Sporting de Braga vingou a maldade que o Zorya lhe pregou há dois anos, foi ganhar (1-2) à Ucrânia e teve um conhecido argentino a vingar-se (com um grande golo) do tempo que uma lesão lhe roubara até agora

Diogo Pombo

STANYSLAV VEDMID/LUSA

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A intenção seria sempre começar por Osvaldo Fabián Nicolás, confesso-o e não descortino problema nisso, nele há 46 jogos da Liga dos Campeões e 23 nesta Liga Europa onde, por fim, o corpo parou de o maçar e o deixou estrear-se para de números nos deixarmos e na prática nos focarmos porque a teoria, sendo ele quem é, surpreende cerca de ninguém.

Lógica não aplicável ao Zorya, os ucranianos de quem gente não analista de futebol apenas saberia serem da Ucrânia, mas sobre quem Carlos Carvalhal avisara serem donos da bola e apologistas de um jogo de posse e passe curto, alertara “terem uma ideia muito positiva” e nela espetou um rasgo de negatividade logo nas primeiras jogadas tidas pelo Braga.

O guarda-redes Matheus foi à beira da área, viu como médios e atacantes atraíram marcações para fora, os adversários caíram no engodo e com a mão lançou a bola para o peito de Paulinho a ajeitar perto da linha do meio-campo. Lá apareceu Ricardo Horta, a receber o amortecimento de frente para lançar a correria de Ricardo Esgaio e o ala esperou que o avançado entrasse retângulo adentro para lhe fazer a dita bola cair sobre as chuteiras.

Com a subtileza de um toque, o seu pé esquerdo facilitou o 0-1 com classe justificativa de que isto tivesse começado pelo diminutivo de João Paulo Dias Fernandes, que igualou os 11 golos que são o máximo goleador de um jogador do Braga na Europa e sempre deu toques destes por todo o campo para se dar como apoio frontal às saídas da equipa, abusadora da sua qualidade para saltar a pressão do Zorya com passes diretos que encontrassem as receções do português.

Sete minutos se contaram, ainda só havia 11’ e uma bola roubada a meio do campo chegou, ao terceiro passe, à personagem arrancadora desta crónica que estava à entrada da área e tinha o corpo orientada de forma a que não parecia ser capaz de rematar logo dali, de primeira, como o fez - de trivela, a introduzir efeito na bola e a curvá-la com mira no ângulo superior da baliza.

Nico é Gaitán e Gaitán é futebol acrescentado ao Braga de posse, de bola no pé e de jogar em função do espaço e não em função de apenas ter a coisa implicada nestes primeiros dois elementos.

Deserdado das correrias que tinha nos seus vintes, titular de toda a técnica que terá no corpo até morrer, está nos trintas “como se fosse um menino, cheio de vontade de jogar” como disse Alan, o hoje dirigente que contra o argentino jogou e pré-partida falou o quão importante é para a forma como o Braga quer jogar.

Por sempre olhar primeiro para o espaço, sabia o que pretenderia o Zorya, a equipa juntou duas linhas em bloco médio-baixo, foi humilde com "a humildade" reconhecida, no final, por Paulinho, por reconhecer a valia alheia e se armar num 5-4-1 para os centrais ucranianos se regozijarem à vontade com a bola e tapar linhas de passe para a muita gente que sempre havia a pedi-los ao centro, entre linhas e nos ângulos cegos de Fransérgio ou Castro.

STANYSLAV VEDMID/LUSA

O que funcionou durante algum tempo, o Zorya tinha mais tempo com a bola e pouco avançava com ela a não ser pelas alas, mas, no quarto de hora antes do intervalo, já os médios do Braga eram muito empurrados para a última linha da equipa, os ucranianos atraíam atenções de um lado e logravam acabar as jogadas com passes para a entrada da área, onde Kochergin e Yurchenko remataram.

Este tipo de comportamento coletivo continuou na segunda parte, o Braga a parecer encolher-se por vontade própria no abrigo da área, Ricardo Horta e Gaitán a guerrearem, sem bola, junto do par de médios, a energia a escoar-lhes do corpo e eles sem tempo para a recarregarem depois para terem decisões limpas quando a equipa já estava em posse, a querer avançar no campo com calma.

Mas, bendito o seu esforço, porque se gastaram a fechar espaços e a fazer com que o Zorya já só fosse capaz de tentar coisas pelas por fora, nas alas em que ia cruzando para a área embora longe dela, bolas que os três centrais do Braga abordavam com facilidade. E com menos de meia hora disponível foram rendidos, André Horta e Iuri Medeiros entraram e a contrariedade minhota à vontade dos ucranianos continuou estável, à exceção de uma jogada rasteira e acabada entre os centrais, aos 69’. Matheus agarrou esse remate.

O Braga susteve o Zorya assim, e quase sempre assim o conseguiu, e susteve-se si mesmo até aos últimos 10 minutos. Aí engatilhou com constância os passes curtos, o estilo apoiado e os jogadores a darem a bola e a nunca ficarem no mesmo sítio depois, o tipo de jogo que se lhe tem visto e com o qual pretenderá controlar este jogo e todos os outros.

Teve duas oportunidades neste pôr-do-jogo, uma vinda de um pontapé longo de Matheus e terminada em remate com o bico do pé de Schettine, contra o guarda-redes; a outra, originada singularmente por um raide de André Horta, a levar a bola da esquerda para dentro da área com simulações, até também bater a bola na figura de Vasilj, o ucraniano das luvas. Só que, no último minuto dos descontos, a passividade bracarense num lançamento lateral ucraniano, combinada com o encosto dos médios à última linha, deixou a bola rodar até Ivanisenya, que disparou a tardia bomba que fixou o resultado.

Ganhou o Braga e vingou-se, diz-se que vinganças é coisa que não há no futebol e impensável é por quem joga, mas os minhotos vingaram-se dos ucranianos que mais desconhecidos eram há dois anos, quando eliminaram não este Braga, mas o Braga onde muitos destes jogadores já estavam, na 3.ª pré-eliminatória da mesma Liga Europa.

Lá ainda não estava Nico Gaitán, só aqui fez o 24.º encontro nesta competição, mas, estando o argentino, o Braga poderá sempre jogar melhor e as palavras, no fundo, são dele, que no fim o admitiu: "sempre que a ideia de jogo seja jogar e ter bola no pé, é mais fácil para mim".