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Carlos had a dream, mas o Braga acordou para a realidade

O Sporting de Braga de Carlos Carvalhal perdeu (4-0) com o Leicester City e para a realidade perante o segundo classificado da Premier League, competição onde o treinador já admitiu querer voltar daqui a um par de anos. Os minhotos nunca conseguirem construir jogo pelo centro do campo, sofreram com erros dos seus três centrais e sofreram a derrota mais pesada da época contra, talvez, o melhor adversário que terão de defrontar

Diogo Pombo

Plumb Images

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Carlos lá chegou e pôs uma equipa a jogar curto, apoiado e com paciência na arruaça do Championship, Carlos assim foi tomar na praia em dois play-offs seguidos, mas Carlos alcançou o cume das divisões e depois Carlos simpatizou a sua figura porque, mantendo a intenção de ter um futebol de posse, distribuiu pastéis de nata em conferências de imprensa, fez analogias com Ferraris encafuados no trânsito de Londres e deixou Inglaterra como o simpático, competente e saudoso Carlos Carvalhal.

E não é segredo, ele fez questão de não o esconder, ainda há meses disse que vai “fazer dois excelentes anos no Braga e depois [volta] para a Premier League”, mas, sem bolas de cristal ou oráculos comentaristas, talvez ir jogar ao estádio do atual 2.º classificado do campeonato onde pretende regressar tenha mexido com quem treina uma das equipas mais em forma de Portugal.

Carlos saberia, deduzo, que pôr o Leicester em sentido em Leicester, mostrando-se de novo bem e recomendável com outra equipa, poderiam ser frutos futuramente recolhíveis para toda a gente e o 3-4-3 do Braga tentou, desde o início, tentar mover o adversário com bola para o rascar com passes verticais por dentro para encontrar os toques em apoio de Paulinho ou Abel Ruiz, com os médios por perto.

Mas, fora os minutos iniciais, o jogo passou e quase nunca o logrou, porque o Leicester fechou-se os espaços no meio-campo, tapou linhas de passe ao centro e obrigou o Braga a depositar esperança nas decisões com bolas dos três centrais. David Carmo, Bruno Tormena e Raúl Silva olharam sempre para fora, uma e outra vez e mais uma, ligando passes aos alas e nunca ao par de médios.

O Leicester estancou qualquer jogo interior do Braga e o contrário não se viu, as câmaras filmavam as caras impávidas de Carlos Carvalhal no banco, em pé, a assistir como os ingleses eram capazes de descobrir receções de James Maddison entre linhas, em qualquer jogada, e lá ia o craque dos que se livre de problemas com poucos toques a tricotar jogadas até à área minhota - onde a questão regressa aos centrais.

O trio de homens falível foi falindo as aspirações da equipa com passividade, apatia, falta de agressividade a atacar o espaço, erros de posicionamento sucessivos e algum azar.

No 1-0, vindo de um lançamento lateral, Bruno Viana virou a cabeça preocupado com o fiscal de linha enquanto Iheanacho entrava área dentro; no 2-0, perante uma condução de bola do mesmo avançado, esperaram estáticos, o nigeriano rematou e um desviou no corpo de Bruno Viana enganou o guarda-redes Matheus; no 3-0, encontrada mais uma receção de Maddison nas costas de Al Murasti e João Novais, deixaram adversários nas suas costas; e, no 4-0, mais uma dose de corpos passivos e um ressalto azarento deram a Maddison a escapadela de um cerco na área.

O Braga não perdeu pelo comportamento da linha defensiva e de cada um dos centrais, perdeu com eles, por eles, mas também pela incapacidade que teve em incluir o par de médios nas saídas de bola ou em deixá-los, uns metros adiante, a receber de frente para a baliza, porque tão pouco teve Paulinho a servir apoios frontais. Só conseguiu avançar jogadas no campo pelos alas. E, sem bola, nunca controlou Maddison e Tielemans a pedirem passes nas costas de alguém, nem apertou o espaço quando o Leicester se aproximou da área.

O português regressou a Inglaterra depois de lá ter treinado, primeiro, em 2015, então os adeptos do Sheffield Wednesday cantaram que Carlos had a dream, to build a football team, ele montou várias lá e regressou com a que está a montar agora, para ser derrotado - sem Gaitán, sem Castro e sem Ricardo Horta, todos titulares e ausentes, ou suplentes neste jogo - ao fim de seis vitórias em série.

Carlos Carvalhal e o Braga perderam, talvez, com o melhor adversário que terão esta temporada. Não é por isto que o sonho do treinador, do clube e de ambos é beliscado. Nunca seria.