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Liga Europa

Lá se fazem, cá quase se pagam

O Braga muito jogou (e desperdiçou) na primeira parte, pouco conseguiu opor-se quando o Leicester tirou os melhores jogadores do banco na segunda parte, mas, aos 90', marcou um golo que parecia garantir o câmbio da pesada derrota que sofrera em Inglaterra, na jornada anterior da Liga Europa. Só que os ingleses empataram (3-3) na última jogada do encontro e deram cabo dessa tentativa de vingança

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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Que se faça um abaixo-assinado em protesto contra este problema, não é de agora, e de há muito e tem sentido nulo, porque se morre alguém e se anuncia um minuto de silêncio em sua memória, cumpram-se esses 60 segundos e não apenas 36. Desta vez contei-os por o sepulcro de som ser em memória de Diego Armando Maradona e nem por ele, ou por Ele, um deus terreno para muitos, o árbitro fez o gigante obséquio de respeitar o que se diz que se fará.

Quem tem um apito para sobrar não concedeu vinte e quatro segundos ao caos mais genial e genuíno já observado no futebol, o árbitro tê-lo-á visto também, mas nada, que se lixe respeitar o silêncio em honra dos agudos, graves e sustenidos que o argentino provocou durante a sua vida barulhenta em campo, sobre a relva em que o Braga cedo atua para, de certa forma, o honrar.

O primeiro golo que marca não é incrível, nem sequer excelso, o remate rasteiro de Al Musrati a entrada da área foi apenas bom ou muito bom, mas o passe a rasgar (do próprio líbio) que o antecede e de uns níveis acima, bem como os pés de lã e técnica com que Iuri Medeiros, sem espaço livre aparente, se livra de dois adversários até esbarrar no terceiro cujo corte da a sobra para o 1-0 aparecer.

O segundo golo, esse sim, terá feito Maradona olhar cá para baixo e sorrir, abrandando o passo ascendente na escadaria para o céu ou onde quer que se acredite estar o destino das almas sem artifícios: uma bola vertical em Paulinho fê-lo desencadear uma sequência de cinco passes em toca-e-vai a envolver quatro jogadores e a terminar no mesmo avançado.

Quando ele se tornou o melhor marcador do Braga nas competições europeias, com 12 golos, já o Leicester fizera o seu, aproveitando um passe errado de Al Musrati após um lançamento lateral para Iheanacho captar e tocar em Barnes que, na área, disparou um remate a rede que dá teto a baliza.

Mas, até ao intervalo, a relativa pacatez na pressão dos ingleses, desta feita mais recolhidos num bloco médio, só voltaria a ameaçar quando Iheanacho, perante a lentidão e toques a mais de Bruno Viana na bola, apertou o central, roubou-lhe a bola, lançou o turco Cengiz Ünder e apenas Matheus evitou a tentativa de castigo do turco. O resto do tempo teve Braga e mais Braga em quase todos os segundos.

A procura de Paulinho para fomentar apoios frontais e deixar com bola quem dele se aproximasse - ouviam-se os gritos de Carlos Carvalhal a avisar quando o avançado estava sozinho, sem alguém perto para se associar - era uma constante, com Iuri Medeiros e Ricardo Horta a fixarem-se entre linhas e confiando a equipa na capacidade de passe de Sequeira, habitual lateral ali posto como terceiro central a esquerda.

O avançado de diminutivo no nome teve dois remates de primeira, na área, parados pelo tentacular Schmeichel, salvador do Leicester quase à queima-roupa, tal era a capacidade do Braga em acelerar jogadas por dentro e por fora, sendo uma por vezes uma máquina fluida de movimentos coordenados e reativos entre os jogadores. Sinal de trabalho e de labor bem feito.

A entrada de Tielemans para a segunda parte, médio mandão e relojoeiro de ritmos, deu o sinal de um Leicester a avançar vários metros na montagem da pressão e a tentar cortar segundos as experiências de vida com bola do Braga, fazendo por condicionar muito as ações dos centrais minhotos na construção de coisas.

Octavio Passos/Getty

Essa intenção resultou num remate arqueado de Ünder, pouco antes de Vardy e Maddison também entrarem para reforçar o peso dos ingleses na criação e definição de ideias. A estaleca do Braga teria que se ver na meia hora que restava jogar a partir daí. Era um milhar e muitas centenas de segundos de bitola mais subida e a primeira oportunidade a sério viria pouco depois, quando Iuri curvou um cruzamento para a cabeça de Paulinho e uma mão de Schmeichel se unirem por um remate.

Seria laivo único, um esgar inventivo do Braga ou um desleixo momentâneo do Leicester, talvez uma junção de ambas, porque o resto do jogo seria inglês, eles com rédea curta e bem domada da bola na metade do campo adversária pelos passes de Tielemans e as receções de Maddison para quem a equipa portuguesa reservava, quase sempre, apenas um homem sem cobertura nas redondezas.

Entre o belga e o inglês, os mais talentosos em campo, o Leicester cresceu porque sim e porque já podia, o jeito por célula do corpo e mais denso naqueles dois e a forma como Maddison amainou um passe longo a esquerda, dançou perante Esgaio, simulou e travou o corte para dentro e fugiu por fora para sim cruzar a bola foi a prova mais notória dessa superioridade: a bola entrou rasteira na pequena área e Luke Thomas desviou o 2-2.

O controlo do Leicester parecia inabalável, Castro e Al Musrati já sem idas e vindas constantes e a equipa minhota demasiado encolhida na forma como defendia para lhe ser fácil estender os jogadores depois, nas transições que já fazia com menos homens.

Mas houve uma, só uma, em que a velocidade sempre a clamar por libertação no corpo de Galeno esticou um contra-ataque, o brasileiro esperou pela chegada de outro e tocou a bola para Fransérgio, que já na área desviou o 3-2 improvável ao s 90’, quando o árbitro desrespeitador do silêncio já anunciara 240 segundos de descontos. Era o que o Braga teria de aguentar.

E fizeram por isso, encheram a bola de calma e paciência em posse, tentaram abrandar a respiração com ela para os ingleses caírem na tentação de correr atrás no desespero e pareciam tê-los no papo.

Mas, nisto parece haver sempre um mas, na derradeira jogada da partida, o Leicester acelerou uma transição no sprint de Vardy, que segurou a bola e esperou por Maddison, que fingiu um remate para esconder uma receção à beira da área que empurrou todos os socorristas do Braga para dentro do retângulo; o 10 fez a bola ir à direita, Albrighton cruzou-a e o desbalanço da defesa do Braga não evitou que Vardy empatasse mesmo nas últimas. Com meros segundos para o apito silenciar o jogo de vez.

Faltou respeito pelos devidos segundos de silêncio ao início e faltaram poucos segundos no final para o Braga poder silenciar os ecos da goleada (4-0) de há semanas em Inglaterra. Durante muito tempo não permitiu qualquer barulho útil ao Leicester, mas faltou-lhe calá-los por completo quando os mandou calar pela terceira vez.