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Em Atenas, o Sp. Braga foi como Spiridon Louis

No estádio que leva o nome do vencedor da primeira maratona olímpica, o Sp. Braga controlou os momentos mais importantes do jogo para bater o AEK por 4-2 e garantir assim um lugar nos 16 avos de final da Liga Europa

Lídia Paralta Gomes

ANGELOS TZORTZINIS/Getty

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A história, pelos vistos, é mais uma lenda que outra coisa qualquer, mas eu continuo a gostar muito dela: reza, portanto, a lenda que em 1896, durante a primeira maratona olímpica, um dos participantes parou algures a meio da prova, bateu à porta de uma estalagem e pediu um copo de vinho. Depois, calmamente, indagou qual era o atraso para os restantes concorrentes e lá seguiu caminho, dizendo para quem quisesse ouvir que os ia ultrapassar a todos.

E ultrapassou. Por mim, mesmo sem a coroa de louros na cabeça e a medalha de ouro, só a desfaçatez de ir parar para beber um copo já valia um nome de estádio mas, para efeitos históricos, o Estádio Olímpico de Atenas chama-se também Estádio Spiridon Louis em honra do primeiro vencedor da maratona nos Jogos Olímpicos da era moderna.

Talvez para homenagear uma das figuras mais emblemáticas do olimpismo, o Sp.Braga foi um bocadinho Spiridon Louis no jogo contra o AEK: arrancou bem, depois deu uma freada que deixou o adversário sonhar, bebeu o seu vinhinho, para no final pousar o copo e voltar a correr o necessário para ganhar, chegando assim à medalha de ouro, que neste caso é a passagem já garantida aos 16 avos de final da Liga Europa.

Frente a um AEK sem algumas das figuras mais importantes no onze - uma opção válida de quem já não tinha grandes hipóteses de continuar na prova europeia e tem uma liga dentro de portas para disputar -, o Sp. Braga jogou com praticamente a sua melhor equipa e no início do jogo viu-se a diferença de talento individual: logo aos 7’, Tormena respondeu com um toque subtil a um canto, com a bola caprichosamente a fugir do alcance do guarda-redes Tsintotas; nem dois minutos depois, chegava o 2-0, numa jogada que começou com uma excelente abertura de Castro para Galeno na esquerda, com o brasileiro a começar o tormento de Bakakis, que sairia mesmo ao intervalo - deu a volta ao lateral grego e depois cruzou para a área, Tsintotas deixou a bola escapar por entre as pernas e estava lá Esgaio para encostar.

A vantagem não fez bem ao Sp. Braga, que relaxou em demasia ao ver-se a ganhar por 2-0. Como Spiridon Louis, consciente ou inconscientemente abrandou o ritmo e o AEK cresceu. O português Nelson Oliveira falhou comicamente um daqueles golos que em linguagem técnica costumamos tratar por “até eu, com a minha barriguinha” depois de uma perda de bola insolente dos minhotos à saída da área. Minutos depois, Livaja quase marcava de cabeça num canto e aos 31’ apareceria mesmo o golo que já se adivinhava, porque o Sp. Braga não conseguia controlar o jogo. Nélson Oliveira, como que a redimir-se do falhanço anterior, aproveitou o desentendimento entre Tormena, Viana e Matheus para roubar a bola e, com revienga pelo meio, reduzir.

ANGELOS TZORTZINIS/Getty

O Sp. Braga estava então no seu pior momento, a empilhar maus passes e piores decisões e nestas alturas dá jeito ter um talento que possa num lance individual afastar o mau-olhado. Galeno, em noite estelar, fez novamente miséria na cara de Bakakis, bailou pelo lado esquerdo e deu atrasado para Ricardo Horta, que voltou a colocar a equipa de Carlos Carvalhal com dois golos de vantagem.

Mas ainda não totalmente descansada, já que no arranque da 2.ª parte o AEK rondou muito a área bracarense. Mais lentos e desinteressantes, os segundos 45 minutos só viraram definitivamente para o Sp. Braga com a entrada de Fransérgio e André Horta, que deram mais bola à equipa que, finalmente, nos últimos 10 minutos pousou o copo de vinho na mesa e entendeu de uma vez por todas fechar a questão. Aos 82’, Tsintotas defendeu um remate de Ricardo Horta que tinha golo escrito na testa e, no canto, apareceu de novo Galeno: desta vez, em vez de oferecer, o brasileiro rematou de fora da área para fazer o quarto golo do Sp. Braga, um golaço que lhe assentou bem ao melhor em campo.

O AEK ainda reduziria aos 90’ pelo jogador com nome mais comprido em jogo (Vasilantonopoulos), mas por esta altura já o encontro estava mais que decidido e a passagem à fase a eliminar da Liga Europa selada.

(Um neto de Spiridon Louis terá dito, muitos anos depois da morte do avô, que na verdade ele tinha apenas parado para comer uma laranja dada pela sua companheira e tragar de uma só vez um copo de conhaque para arrebitar. Continuo a preferir a lenda, mas também não é uma má história.)