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Hoje também parece estar na moda isso da transição defensiva do Benfica

A equipa de Jorge Jesus fabricou quase dez oportunidades para marcar golo, só fez dois, empatou (2-2) em casa do Standard Liège que fica na Bélgica, país que justificou a braçadeira de capitão em Vertonghen, mas não explica alguns problemas que se voltaram a repetir esta época no Benfica, que já estava apurado para a fase seguinte da Liga Europa, mas assim terminou no segundo lugar do grupo

Diogo Pombo

Sylvain Lefevre/Getty

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Uma determinada coisa, reação, produto, maneira de vestir ou forma de pensar virar moda não é de agora, tão pouco de ontem, nem de há uma semana, sempre foi algo passageiro e do momento, as modas vêm presas a uma etiqueta de validade que tem lá as datas, mesmo que não apareçam escritas. Cedo ou tarde, o prazo finda em quase tudo e ainda haverá de chegar o dia, sabemos lá nós, em que o capitão de uma equipa de futebol e decidido por aspetos não convencionais.

Ser o jogador com mais anos de clube, ou o mais velho, ou o unânime futebolista com mais qualidade, ou o com mais estatuto sempre foram os fatores a considerar. Poderemos tê-los como moda: sempre foi assim, e normal que assim continue. Até que veio Jorge Jesus, rodou meia equipa, nessa rodagem incluiu a titularidade de defesa que há anos é co-capitão do Benfica e não lhe deu a braçadeira.

A responsabilidade de a passar para o corpo de Jan Vertonghen - por o adversário ser o Standard e o jogo ser em Liège, na Bélgica, terra do jogador chegado há poucos meses a Portugal - e dedutível ao treinador, que também reclamou para si a decisão de ver a equipa como apta a ser capitaneada por Nico Otamendi, outro defesa central chegado no verão ao Benfica. A moda dos requisitos tradicionais para se ser capitão não pegou aqui.

A moda que não é bem moda, mas obrigação, de no futebol ter de se formar uma equipa organizada e coesa no momento defensivo, com todos a se posicionarem no lugar certo e a reagirem padronizados ao que o adversário tenta fazer, também voltou a não pegar a 100% na equipa.

Aos 12’, o Standard reciclou rapidamente a bola da esquerda para a direita, meio Benfica reagiu lentamente e, na outra metade, deixou-se que os belgas ficassem em igualdade numérica na área (Weigl foi dar cobertura a Nuno Tavares, que abordou o adversário com bola, e Taarabt não compensou o alemão) e um cruzamento chegou a Nicolas Raskin e ao seu cabelo descolorado, moda que parece atravessar gerações.

Até aí, é verdade, o Benfica rematou por Waldschmidt, Taarabt e Everton em três jogadas nas quais gerou oportunidades em transição, movendo-se rápido e atacando com intensidade nos passes e nos movimentos dos jogadores. As diagonais de Darwin arrastavam gente para longe das relvas onde Pedrinho e Everton tinham receções mais ao centro do campo, para depois tocarem no médio marroquino que foi feito para tabelar e se associar com passes curtos.

O Benfica entrava de rompante no jogo, transitava-se bem, chegava muitas vezes à área belga e a rapidez com que queria atacar, ousando e saindo-se bem nas progressões com muitos passes verticais também porque o Standard pressionava alto, logo nos centrais. A intenção era mútua, só que os belgas, além de apertarem com uma manta cheia de rasgões, erravam bem ao construírem coisas de forma curta, a começar na própria área.

Erros lá atrás, perdas de bola na primeira pressão tentada ou passes falhados sem um homem perto, a dar cobertura, eram quase moda quando os belgas tentavam atacar com mais calma. E o Benfica teve quase uma dezena de bolas para contra-atacar e até era muito amigo do critério no primeiro passe feito após recuperar a bola, mas, perto da área, falhava quase sempre - quase sempre, alguém decidia mal e executava pior quando, em contra-ataque, só restava um passe para se poder rematar apenas com o guarda-redes a fazer figura.

O empate do Benfica aos 16’ surge em ataque pausado, com quase toda a equipa na metade belga do campo, quando Pedrinho se ligou com Taarabt e o marroquino acelerou área dentro para cruzar e Everton cabecear. O resto que produziu até ao intervalo fez-se em modo velocista, para a frente ia-se rápido e a acelerar, mas só houve produto final nos remates de Waldschmidt e Darwin que as mãos de Arnaud Bodart pararam.

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Essa moda durou 45 minutos. A loucura de uma conversa de jogo falada em vaivéns constantes foi acabando, em grande parte, por mudanças no Standard Liège, que já não montava a sua pressão alta e diminuía o número de vezes em que escolhia chatear os centrais do Benfica. Recuou um pouco as linhas, os médios tornaram-se mais guardiões das entrelinhas e obrigaram a uma mudança.

O Benfica teve de atacar mais vezes com mais adversários atrás da linha da bola. Teve menos aberturas para rasgar passes verticais e embalar jogadores na profundidade. Tinha de usar a bola em circunstâncias que lhe pediam outras coisas - paciência, criatividade, rapidez no passe para fazer mexer a organização alheia, movimentações que arrastassem atenções.

E os problemas recentes de falta de ideias e de letargia em atacar desta tal forma ressurgiram, mesclados com erros individuais, como o passe lateral e manso de Taarabt e a passividade de João Ferreira ao esperar que lhe chegasse, destaparam outro berbicacho, este mais reincidente: a transição defensiva da equipa.

Essa bola foi cortada por um adversário que, depois, correu 50 metros de campo até o Standard chegar à área com quatro jogadores frente a quatro do Benfica. Os restantes estavam foram do plano, a recuar a passo (só Nuno Tavares sprintou para trás), cada um mal colocado como estava toda uma equipa nos segundos em que Taarabt arriscou esse passe e não se via um jogador como opção no meio do campo, atrás da linha da bola. Depois, também ninguém saiu a Abdoul Tapsoba, que rematou o 2-1 à entrada da área.

Tem sido moda no Benfica esta época.

Jorge Jesus, comentador não comentando do alegado episódio de racismo no PSG-Basaksehir, mas que insistiu em comentar que “hoje está muito na moda isso do racismo”, colocou Rafa e Pizzi, logo na primeira jogada em que participaram forçaram uma jogada com toques rápidos que gerou um penálti para o habitual batedor saltitar antes de rematar o 2-2.

Outra verdade fica escrita no remate de Darwin que encontrou o poste, no que Everton se individualizou para disparar a 25 metros da baliza e no de Rafa, mesmo acabar, contra a barra, após domesticar um passe de Gabriel na área. Foram três oportunidades das grandes para o Benfica terminar com mais golos, mas foi pouco, muito pouco para a bola que a equipa teve. E para o quão leviano foi o comportamento defensivo pós-perda.

O Benfica fabricou quase 10 chances flagrantes para marcar golo, é bastante, é sintoma de capacidade de produzir coisas a atacar rapidamente e com espaço. Mas, mudado o contexto, o jogo mostrou coisas que hoje parecem ser moda porque, factualmente, se vão repetindo na equipa de Jorge Jesus.