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Para Roma, com amor farpado

O Braga foi incapaz de construir uma oportunidade para ameaçar a baliza dos italianos, que acabaram com mais um jogador em campo (Ricardo Esgaio foi expulso), ganharam (0-2) e assim levam uma vantagem confortável para Itália, onde a equipa de Carlos Carvalhal continuará a caminhar sobre arame farpado

Diogo Pombo

Quality Sport Images

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Pondo as lunetas geracionais, e sem tencionar qualquer desprimor, vir de Roma e ser da Roma já não é o que era. Em quase toda a duração das últimas quatro décadas, olhava-se para a equipa de grená e havia sempre pelo menos um carregador do amor, um jogador nascido, germinado e decidido em jogar até mais não na Roma. Nos Gianninis, nos Tottis e nos De Rossis parecia estar o reduto dos românticos que nasciam e morriam para o futebol num só clube.

Agora há um deserto em Roma, referências tais sumiram e o referencial é o futebol paciente, de posse, de fazer a bola circular por todos os corredores e tentar atrair adversários para arranjar espaços mais à frente que Paulo Fonseca prega, há dois anos, na equipa que chega a Braga e nem é isso que mostra. O jogo começa e os romanos, como os minhotos, querem sobrevoar os obstáculos.

Os três centrais que, com o guarda-redes, a Roma costuma usar para provocar a pressão adversária, apontam à referência de Edin Dzeko, na frente, e procuram diretamente uma receção do bósnio mal fixam um jogador do Braga. Os minhotos, não sendo tão importunados pela primeira linha italiana, cortam muitas bolas pelo ar em busca de corridas de Sporar e Galeno no espaço atrás dos defesas contrários. São pouco mais de 20 minutos assim, duas equipas a fugirem com os traseiros à seringa do meio-campo.

Nenhuma equipa lucra algo de palpável com a insistência nestas abordagens. O golo, logo aos 5’, surge de uma bola recuperada pela Roma no seu terço defensivo, ao livrar-se rápido da tímida pressão e aproveitando a transição desordenada do Braga para esticar a jogada em Spinazzola na esquerda e o cruzamento do ala ser desviado na área, com classe, por Dzeko.

O momento da perda de bola era problemático para a equipa de Carlos Carvalhal. Por mais três vezes reagiu lenta e desordeiramente, com os jogadores longe das coberturas ofensivas, e a Roma conseguiu arrancar em velocidade para ligar contra-ataques que entraram na área minhota. Os movimentos de Pedro Rodríguez e Henrikh Mkhitaryan, ambos com toques simples na órbita de Dzeko, davam à Roma as oportunidades que o Braga não teve.

Raras foram as vezes que um dos centrais arriscou um passe rasteiro para encontrar Gaitán, o deambulante atrás dos médios italianos. Nessas vezes, o argentino atraiu atenções para depois tocar em Fransérgio (à entrada da área, rematou a bola por cima da barra) e picar em Sporar (uma dobra de Spinazzola evitou o pontapé do esloveno, já na área).

HUGO DELGADO/LUSA

O bom do Braga, com bola, viria quanto mais encontrasse a fineza no pé esquerdo do argentino e da sua aptidão para inventar coisas em espaços curtos, conseguisse a equipa encontrá-lo nos espartilhos ao centro do campo. Mas, vindos do intervalo, Sporar continuava a atacar o quintal dos defesas e os centrais do Braga mantiveram as bolas diretas na profundidade.

Uma deu-lhe para arranjar espaço e cruzar, outra fê-lo ser derrubado na área por Ibañez, que saiu lesionado desse choque e Gonzalo Villar, que o substituiu, provocou a expulsão de Ricardo Esgaio (segundo cartão amarelo) à primeira bola em que tocou. Saiu Gaitán para entrar a compensação de Zé Carlos na ala direita e a existência do Braga murchou.

Perdeu tempo com a bola, perdeu também a capacidade para pressionar a Roma quanto não a tinha - mantendo a linha de cinco atrás, os restantes jogadores perseguiam sombras no meio da circulação mais paciente, curta e demorada dos italianos. Poderia ser uma meia hora dantesca para a equipa vergastada por 10 jogos em 30 dias ganhou mais metros para cobrir com menos um jogador em campo. No mesmo período, a Roma fez seis.

Logo nos cinco minutos seguintes, Matheus negou um remate em esforço de Dzeko, na área, já depois de um golo de Mkhitaryan ser anulado. Depois, contudo, pouco se sentiu o arame farpado da análoga antevisão de Carlos Carvalhal, quando o treinador falou sobre a torrente de jogos nas últimas semanas. Porque o Braga reagiu.

Já com André Horta e Lucas Piazón, a equipa injetou-se de critério para compensar o corpo a menos, dirigia a bola mais para o pé dos seus do que os espaços e teve a paciência a que renegara com 11 em campo. A defender, até arriscava condicionar logo a saída de bola da Roma nos centrais, apertando nas costas do talentoso Villar para não lhe permitir viragens nas receções.

A Roma teria apenas uma posse como gosta e replica, à semana, em Itália, com a bola a ir de pé em pé e espreitar na esquerda, ao centro e à direita, onde um triângulo de jogadores se associou para o homem livre romper no espaço e cruzar para a área. O arménio Mkhitaryan passou e Borja Mayoral fixou em dois golos a desvantagem com o Braga terá de ir à capital italiana.

Para Roma, com amor, não o proclamado por Paulo Fonseca e Carlos Carvalhal à equipa de um e outro na antevisão, mas um farpado por este jogo que o Braga nunca esteve perto de conseguir ameaçar a baliza.