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Liga Europa

Na Grécia não há carinho e o Benfica foi lá morrer duas vezes

Jorge Jesus retornou aos três centrais, o Benfica jogou bem durante uma hora, marcou duas vezes ao Arsenal, mas acabaria por perder (3-2) com um golo aos 87' - e com erros cometidos. Foi eliminado da Liga Europa no mesmo país onde fora afastado da Liga dos Campeões e, porque os erros sempre ficam a cargo de alguém, há sempre quem seja responsável

Diogo Pombo

ARIS MESSINIS/Getty

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Ouvida a sacudidela de capote de há um dia, fôssemos nós analisá-la com os óculos da literalidade e o tim-tim por tim-tim como unidade de medida, e o exercício, mais do que simples, era com certeza simplista - fidelizando-nos pelas palavras de Jorge Jesus, as responsabilidades sobre tudo o que de mau aconteceu no campo, em dois meses, não lhe diz respeito “porque não treinava os jogadores do Benfica”; portanto, as coisas boas também não lhe poderiam ser imputadas.

Não seria só simplista, olhar assim seria simplório, como o é dizer num dia que “vamos ter todos de assumir a nossa responsabilidade” para, 14 dias volvidos, esse dito pelo treinador vira não dito quando resolveu dizer “tivemos algumas culpas, mas chega de me responsabilizarem”. A responsabilizar alguém neste Arsenal-Benfica que se seguiu, então, que seja Rafa.

O pequeno e barbudo foi o homem mais procurado pela equipa, montada, novamente, com os três centrais possíveis com Lucas Veríssimo e a usá-los, com calma e critério, nas saídas da área, que mais limpas foram do que na semana anterior por esses três homens serem pacientes a atraírem os adversários e, depois, os alas e Weigl precisarem de poucos toques para encontrarem o homem livre. Saídos de trás, depois havia Rafa.

Deambulando a todo o terreno disponível entre os médios e as costas de Seferovic - preso na frente para prender um central do Arsenal -, o falso avançado irrequetizava-se nesta falsidade, fugia da última linha inglesa e aguardava nos lugares certos para receber passes. Colheu muitos, mas, ao virar-se, via como os meios do Benfica invariavelmente se esgotavam aí, nesses momentos, nessas receções.

As conduções e tentativas de Rafa só tinham Seferovic quieto e marcado à sua frente. Tinha de esperar pelos alas, nunca muito projetados pela participação que lhes era pedida na saída de bola, ou esperar por dois dos três médios que, pela sua natureza, tardavam em dar-lhe soluções de cara para a baliza: Pizzi não rompia para atacar espaços; Taarabt menos ainda, o marroquino é apologista de bola no pé; e o jogo ordeiro de Weigl tem residência uns metros atrás.

Apanhado nestas curvas, Rafa também hesitava ou precipitava-se em decidir como atacar dali o adversário. E todo o tempo que Rafa, o jogador mais desequilibrador, tinha de esperar, deixou o Arsenal recuperar posições e juntar as linhas de todas as vezes em que foi ultrapassado pela construção com bola do Benfica.

E, sem a ter, o 5-3-2 ou 5-4-1 no qual se organizava, dependendo da disponibilidade do mencionado pequeno e barbudo em se juntar à linha de médios, até manteve os ingleses ao largo da área durante várias fases da primeira parte.

Os problemas surgiam quando Ceballos desencantava arranques com a bola quando lhe era permitido virar-se ao primeiro toque, embora, quase sempre, esses laivos no meio-campo inglês. E, já na metade do Benfica, quando o Arsenal concentrava a posse de um lado e o Benfica não impedia que atacasse a ala contrária com um passe longo - por norma, para a esquerda, em Tierney ou Aubameyang.

Ou, também, quando Saka se afastou da área para receber uma bola, teve espaço para se virar, a passividade reincidente do Benfica já em vários jogos se repetiu, Vertonghen saiu tarde ao adversário e Aubameyang, desmarcando-se nas barbas de Lucas e nas costas de Otamendi, correu para o espaço vagado pelo central belga e o passe entrou para picar a bola (21’) por cima do corpo de Helton Leite.

ARIS MESSINIS/Getty

Mas o jogo continuou tal e qual, imutado, o Benfica a ser muito capaz de existir explorar os espaços em 70 metros de campo, uma das muitas jogadas em que se evadiu da pressão do Arsenal acabou em Weigl a sofrer falta e a bola a ser parada. Diogo Gonçalves bateu-a com a curvatura tensa (43’) e ela entrou baliza dentro, por onde Bernd Leno teria de pertencer a outra espécie para a alcançar.

O empate empatava-se de novo e os primeiros 10 minutos do Arsenal após o intervalo encostaram o Benfica à área. David Luz e Gabriel corriam mais com a bola desde trás, seduziam Seferovic ou Rafa a pressioná-los e, depois, a equipa manipulava as jogadas só com três médios pela frente da última linha.

Ao fim dessa dezena de minutos, Jorge Jesus responsabilizou-se para garantir que, daí em diante, seriam quatro médios à frente da defesa, substituiu Seferovic, Pizzi e Taarabt por Darwin, Gabriel e Everton e, entre as mexidas, Rafa era para se estacionar à esquerda nos momentos defensivos. Não por isso, pelo acerto de posicionamentos, nem pelas trocas, mas, logo a seguir, Helton Leite agarrou a bola num canto e bateu-a rápido para a frente.

O singular tipo que lá estava era Rafa, partido ao sprint atrás do meteorito em queda ao qual Ceballos chegou primeiro. Só que julgou, sem olhar, que o acerto era cabeceá-lo para trás, onde a junção do seu erro com a corrida do português deram ao nascido em 1993 a oportunidade de fintar o guarda-redes e marcar (61’). O bom que o Benfica jogava no pé de quem mais se responsabiliza em tentar fazer mal ao Arsenal.

Era adquirido que os ingleses iam carregar, forçar e arriscar, quem corre atrás correrá para sempre na urgência e, para o lado esquerdo da investida, Mikel Arteta fez entrar Willian. A simplicidade técnica do brasileiro incomodou à bruta Diogo Gonçalves, fixava-o a cada bola que recebia e arrastava-o para a linha, provocando o espaço onde Tierney recebeu um passe, na área. Everton julgou que o escocês iria sair para o pé que pouco usa, foi driblado e o lateral empatou (67’) outra vez o jogo.

Empatando assim o Benfica passaria, havia que segurar o resultado, a bola e o ímpeto do Arsenal, que se projetou ainda mais para a frente e encostou jogadores à linha defensiva, empurrando-a contra a área. Parecia querer explorar a lentidão de reação de Lucas Veríssimo quando ao brasileiro competia compensar as costas do ala, mas, até ao fim, os ingleses apenas veriam a baliza uma vez.

ARIS MESSINIS/Getty

Antes, ainda Darwin recebeu e segurou uma bola com gentileza pedestre pouco vista, rodou sobre ele próprio e rematou à entrada da área. A bola pouco se afastou do poste. Gabriel, igualmente rodopiando sobre o seu eixo, rematou a meia altura uma bola bloqueada por um corpo que estava entre ele e a baliza. Essa bola foi cruzada já por Nuno Tavares.

O lateral posto em campo na vez de Grimaldo, ainda a tempo de dar mais de um metro a Bukayo Saka, o canhoto com bola à beira da área, quase convidando-o a sair da finta para o pé que mais usa, o que usou para curvar um cruzamento com mira nas costas de Lucas, por onde o brasileiro tinha o braço a vigiar Aubameyang mas deixou-o esgueirar-se, e com ele a cabeça do gabonês, que desviou o 3-2. Faltavam três minutos para os 90’, o pouco tempo que havia era quase nada.

O Benfica perdeu, foi eliminado da Liga Europa (1-1 e 3-2) e destes jogos lembrar-se-á Rafa um dia, saberá o que se passou e recordará a não-glória da eliminatória, ao contrário da parelha de jogos de 1991. Agora, os mesmos jogadores e o mesmo treinador foram eliminados de uma competição europeia pela segunda vez na mesma época, e no mesmo país.

Em outro estádio vazio da Grécia, onde nem uma apitadela de carinho se ouviu. Ali nunca haveria um buzinão do que fosse.

Quanto a responsabilidades, é simples, se o futebol fosse imune a erros não haveria tanta gente a gostar de o ver e praticar no mesmo planeta redondo. É natural e inevitável, todo o humano erra e o reação tardia de Vertonghen no 1-0, o julgamento precipitado de Everton no 2-2 e a letargia de Nuno Tavares e Lucas no 3-2 foram três erros entre os incontáveis que os jogadores do Benfica e do Arsenal foram cometendo.

E quem comete erros será sempre responsável por os cometer. Sejam quem for.