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Liga Europa

Boa noite, Prof. Liga Europa. Hoje a aula é com o Manchester United

A decisão da segunda maior competição europeia de clubes (20h, SIC) é um caso peculiar de amor para Unai Emery, treinador que está na quinta final e levou o Villarreal à sua primeira. Jogará contra o Manchester United baseado no improviso e inspiração dos habilidosos jogadores que tem e no gestor de recursos humanos que é Ole Gunnar Solskjaer. Os ingleses tentarão acabar uma seca de títulos que já vai em quatro anos

Diogo Pombo

JACK GUEZ/Getty

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Unai Emery é humano, dúvidas não as há, ei-lo bípede e com dois braços e o cabelo puxado atrás e uma cara de desconfiança crónica, as veias também lhe são azuladas na pele e corre-lhes sangue por dentro, mas algo mais terá. Não poderá ser apenas isso quando não há pessoa que tenha cortejado mais do que ele com uma certa competição uefeira.

Foram três anos seguidos a ganhá-la com o Sevilha e virou costumeiro esperar que o clube chegasse, pelo menos, à final. Entre 2014 e 2016 criou uma hegemonia andaluz na Liga Europa e, se é verdade que nenhum feito desta dimensão futebolística tem morada apenas numa aldeia, poder-se-ia pensar que o mérito do treinador beneficiou do amor nutrido pelo clube por esta competição, além de todos os vices e os versas que cabem nesta lógica.

Afinal, também em 2006 e 2007 se vira o Sevilha comemorar em série na predecessora Taça UEFA. Conquistou a prova, de novo, em 2020 e são ao todo seis finais jogadas e vencidas e esta última já sem Emery, que seguiu com a sua vida rumo a Paris e a Londres. Mas, com o tempo, algo de especial também se notou entre o treinador e a Liga Europa.

Porque, em 2019, ele voltou a ser finalista com o Arsenal, onde troçaram do seu inglês - o "good ebening" dito no seu espanholado sotaque nunca o largou - e duvidaram dos seus métodos, reaparecendo as supostas queixas de jogadores face às longas palestras e sessões de vídeo que lhes punha à frente, na preparação dos jogos. Perdeu essa final inglesa contra o Chelsea e, meia época depois, seguiu para o Villarreal.

DeFodi Images

Agora está de novo na final, a sua quinta, com o mais pequeno dos clubes que logrou levar até à decisão da Liga Europa. As horas a olhar para um ecrã continuam lá e "pff, outro vídeo", dizem os jogadores pela voz de Alberto Moreno, o lateral esquerdo da equipa que falou ao "The Guardian" e que admitiu que "é melhor assim", pois "Emery sabe tudo" e depois a equipa "jogam bem porque sabe tudo em relação ao adversário".

O lastro da minúcia na preparação dos jogos, a obsessão em ter processos mecanizados na cabeça dos jogadores e os laivos frenéticos desde o banco de Emery fizeram-no retornar à final da Liga Europa, da sua Liga Europa, a prova que lhe engrandeceu o nome e volta a fazê-lo agora, com a equipa humilde e com estádio onde cabe quase metade (23.500) dos habitantes da terra que lhe dá nome (51.293).

Jogará contra o incomparável Manchester United, pertencente ao clube dos ricos que ainda há pouco tentou enriquecer mais ainda com uma Superliga própria, porque desde a rica história que construiu durante os 27 anos com Alex Ferguson que não mais conseguiu elevar-se aos mesmos patamares, a semelhante pujança nas provas europeias onde os melhores se afirmam como tal.

Nos oito anos contados desde a reforma do escocês, o clube conquistou quatro títulos, um deles a Liga Europa, em 2017 e com José Mourinho. Visto com olhos de ouro para muitos e, provavelmente, com olhar de segunda categoria pelo Manchester United, os ingleses estão de novo na decisão da prova que chega no aniversário de algo especial para quem agora os treina.

Peter Powell/Pool via Getty Images

Há 22 exatos anos lá estava Ole Gunnar Solskjaer, a marcar um dos golos nos descontos da final da Liga dos Campeões, ganha epicamente pelo United que agora o tem como treinador. À terceira época com a equipa, o norueguês ficou em 2.º na Premier League e vai brigar pela conquista do primeiro troféu, ao qual gabam o peso literal quando é erguido, mas nem por isso se livrou de críticas.

Porque este United tem talento de sobra por metro quadrado de relva.

Há a verticalidade técnica de Bruno Fernandes, a distribuir assistências e golos por todo o lado; Rashford e Martial são setas que permitem à equipa confortar-se no ataque à profundidade; só um deles tem jogado porque, finalmente, Edison Cavani é o matador que há anos o clube não tinha; e encostar Pogba à esquerda, no início das jogadas, parece ter sido o truque que faltava para o atinar na equipa.

Mas tudo ainda parece estar demasiado dependente da inspiração e improviso dos habilidosos convivas, que em muitos jogos têm de correr atrás do prejuízo dos erros de uma linha defensiva (e de comportamentos coletivos sem bola) que, por vezes, traem a equipa. E do outro lado vão estar jogadores com horas de vídeo e sapiência em cima de como podem explorar isso.

Em Gdansk, na Polónia, veremos se os cordelinhos da bola manietados por Dani Parejo e uma equipa que ataca para Gerard Moreno, o mais em forma avançado espanhol do momento, vão prolongar o caso sério de enamoramento que quem os treina tem, há muito, com a Liga Europa.