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Luís Franco-Bastos

"Estado Puro" #32. Jogo de 3.º/4.º lugar é como um supositório: não agrada a ninguém nem resolve nada

Luís Franco-Bastos nasceu em Lisboa, nomeadamente num hospital privado. Licenciou-se em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa e a média com que concluiu o curso é, no seu entender, um assunto do foro privado. É humorista e proprietário de imóveis, mas sobretudo humorista. Foi contratado só para esta crónica e, se alguém do Expresso tiver dois dedos de testa, não se seguirá mais nenhuma colaboração

Luis Franco-Bastos

OZAN KOSE/Getty

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Sábado, 14 de Julho de 2018: dia do jogo de atribuição de 3.º e 4.º lugar. O que posso eu dizer acerca do jogo de hoje que vocês, leitores, não tenham já pensado? Tudo, já que ninguém pensou no jogo de hoje. O jogo de hoje está para o Mundial como as eleições legislativas, por exemplo, estão para os portugueses: até temos noção que acontecem, só não queremos saber.
A FIFA tem dado uns quantos tiros no pé. Os escândalos de corrupção. O Mundial marcado para 2022 no Qatar em Novembro e Dezembro para evitar temperaturas de 78° à sombra. A proibição absurda de filmar mulheres bonitas na bancada, como se isso fosse a solução para o mundo infelizmente machista e sexista em que ainda vivemos. Mas, a meu ver, a mais grave decisão da FIFA, em toda a sua história, foi criar um jogo que ninguém quer jogar, nem ninguém quer ver. Este jogo, se fosse um medicamento, era um supositório: não agrada a ninguém, não resolve nada e há alternativas bem melhores.
Poderia ser um bom espectáculo de futebol, mas já se sabe que os jogadores têm a cabeça noutro sítio. Depois do Mundial estrondoso que fizeram, metade da equipa da Bélgica vai passar o jogo de olho no telefone à espera duma chamada do seu agente a avisar que vão para o Real Madrid, Barcelona ou Manchester City. Do outro lado, depois das expectativas criadas ao fim de meio jogo, metade da equipa de Inglaterra vai passar o jogo a receber chamadas do seu agente a perguntar “Não tens estado ao pé de objectos cortantes, pois não? Se as vozes na tua cabeça voltarem a falar contigo, larga as lâminas, fica longe de facas e tesouras e liga-me, eu meto-me no primeiro avião, não faças nada até eu chegar”.
E o pior de tudo: é um jogo que nem sequer é novo, porque estas equipas já se defrontaram neste Mundial. Já mediram forças, e já se sabe que ganha a Bélgica. É como rever o Pearl Harbor com o Ben Affleck: já de si não é fascinante e, para piorar, já todos sabem como acaba. Se eventualmente houver por aí alguém com genuíno interesse em ver o jogo e se, por milagre, estiverem ansiosos pelo início, peguem agora no comando e puxem a Sport TV para trás 3 semanas. O jogo já deu, podem ver quando quiserem.