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17h00, 8 de agosto: o fim da reação em cadeia

São como peças de dominó onde a primeira só pode ser tombada num certo sítio que, a cada ano que passa, sobe um pouco mais na escala "astronómica" de dinheiro. O mercado inglês deixou de poder comprar jogadores a meio da tarde desta quinta-feira, ou seja, algumas novelas dramáticas, como a de Bruno Fernandes (e Eriksen e Lo Celso e Dybala e...) chegaram ao fim - ou perto disso

Diogo Pombo

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

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Os clubes ingleses fartaram-se e quiseram algum sossego, o possível, quando a Premier League arrancasse. Então decidiram, muito sabiamente, limitar até antes do arranque do campeonato o período em que podem acrescentar jogadores ao saco das compras, para que depois não haja distrações ou, pelo menos, tantas quanto as que há em outros campeonatos - porque, mesmo não podendo comprar, podem continuar a vender para fora e a engordar a carteira.

Eis que o relógio bater nas 17 horas de quinta-feira, 8 de agosto, é o meio da tarde que mais interessa neste verão.

Pelo segundo ano seguido, há SMS, mensagens de Whatsapp, telefonemas, reuniões e aviões a descolarem e a aterrarem para pessoas irem a essas reuniões, que se fazem e acontecem devido a esta data específica. E a outra coisa, que tem mais a ver com os zeros que se consegue ter à direita de um número, fruto de uma reação em cadeia que podemos traçar a 1992, quando se inventou a Premier League, se seduziu ainda mais o interesse, vieram os patrocinadores e o bolo do contrato coletivo de direitos televisivos para os clubes ingleses foi injetando calorias sem parar.

Fechando mais cedo, e sendo lá onde passa mais dinheiro, o mercado mudou. Os valores que entram e saem de Inglaterra tornaram-se ainda mais “astronómicos”, adjetivo escolhido por quem trabalha numa empresa de agenciamento de jogadores e resume, à Tribuna Expresso, o quão impactante isto é: “Quem tem jogadores que podem interessar a clubes ingleses espera milhões, quem não está no mercado inglês não quer entrar no jogo até o ‘papão’ fechar a loja”.

A lógica é simples, por mais deturpante que seja na compra e venda de jogadores, e por mais que tenha prolongado o drama à volta de Bruno Fernandes - quem ouve bater à porta e vê um clube inglês do lado de lá, bate o pé do lado de cá e pede dinheiro, caso tenha o que eles realmente procuram; e quem pretende um jogador que seja fruto apetecido de equipa da Premier League, talvez faça figas e espere pelas tais 17h desta quinta-feira.

É a hora ‘H’ para muitos e, especialmente, para Bruno, o jogador que nos é mais próximo, por tão repetidas e repetitivas já serem as capas, os rumores e as notícias sobre ele. Culpa da lógica de quem, dizem-nos, tem mais dinheiro que toda a gente e acesso a tudo o que possa ser mercado.

No peculiar caso do capitão do Sporting, agora é o Tottenham e já foi, ou ainda será também, o Manchester United. Os dois clubes que atestam o dominó de efeitos que um negócio pode ter em outros, ou o inverso. O Tottenham queria Bruno Fernandes, mas a vontade oscilava ao sabor de Christian Eriksen ficar, ou não, conduzindo-nos ao Manchester United, que estaria a tentar comprar o médio dinamarquês e, tendo sucesso, daria a venda que poderia urgir o clube londrino a dar os milhões que faltam para o Sporting ter os 70 exigidos.

Ou não, porque o Tottenham preferiu pedir Giovani Lo Celso emprestado ao Bétis em vez de roer a corda que o Sporting sempre foi puxando.

Porque Frederico Varandas é o presidente que tem um preço na cabeça, espreitou pelo buraco da porta, viu ingleses, sabia que tinha até às 17h de quinta-feira e confiou que a lógica lhe quereria bem se o Tottenham, ou o United, quisessem mesmo o melhor jogador do Sporting.

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O dinheiro está do lado deles e daí os outros negócios, se dermos largas à suposição, que estão dependentes da direção em que soprem os ventos de promontório ingleses.

O Inter de Milão quis o tanque musculado em forma de avançado que é Romelu Lukaku e, não fosse a espécie de birra que o fez para sair, o Manchester United não precisaria dos 65 milhões de euros que recebeu por ele. Mas, estando agora ainda mais abastado, o dono de muita parra e pouca uva criativa e desequilibradora no meio-campo adversário pode focar-se, a sério, na ideia de ir buscar Paulo Dybala, argentino cuja forma de jogar ajudaria a resolver o problema - que joga na Juventus e também é querido, ao que aparece, pelo Tottenham.

Tem sido dito que o Philippe Coutinho irrequieto, crónico rematador à distância e driblador antes de ser passador, incompatível no Barcelona mais pelo estilo, do que por talento, pode voltar à Inglaterra de onde saiu, há ano e meio, do Liverpool.

Ou talvez seja o clube catalão a espalhar a semente de uma ideia pelo Manchester United, o Arsenal e o Tottenham, porque lá estão as libras que se podem converter nos muitos euros que necessita para tentar trazer de volta Neymar, encalhado no PSG onde, a haver problema, é o de ter dinheiro a mais.

A fazer ricochete entre todos os rumores, notícias e interesses estão milhões de potenciais euros, as quais bastará um negócio desatar-se para que se soltarem, em série, até às horas de vida que restam ao mercado inglês para fazer compras. Onde há várias versões alternativas de possíveis cenários: se Dybala for para o Tottenham porque os londrinos venderam Eriksen, então a Juventus ou o Inter de Milão já poderão levar Lukaku e o United volta a atacar Bruno Fernandes.

Neste confuso e hipotético mundo de possibilidades, onde há outras hipóteses menos mediática, mas igualmente caras, como Wilfried Zaha trocar o Crystal Palace pelo Everton por 100 milhões de libras (que são 108 milhões de euros), o dinheiro é tanto que tudo, um pouco por todo o lado, pode depender de Inglaterra.

Até às 17 horas de quinta-feira, 8 de agosto.