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A força imparável e o objeto inamovível

O combate ‘Canelo’ Álvarez- Golovkin eclipsa o McGregor-Mayweather. O primeiro é boxe, o segundo um festival

Senhoras e senhores: no canto esquerdo, Saúl ‘Canelo’ Álvarez; no canto direito, Gennady Golovkin


FOTO Ethan Miller/Getty Images

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Imagine um relógio de ponteiros, um, dois, três, por aí fora; o pé da frente pisa as 12 e o de trás está nas quatro, se avançar com o esquerdo, ou nas oito, com o direito. 12h20 ou 12h40, uma boa hora para dar um murro e tudo começa no chão. Não quer dizer que o tamanho do ombro, braço, antebraço e da mão sejam irrelevantes para o ato, mas há mais em jogo do que o índice de massa muscular — um peso-pluma demonstrar-lhe-á isto da forma mais dolorosa possível. Ora, a potência é gerada dos tornozelos para os joelhos, dos joelhos para as coxas, das coxas para o abdómen, do abdómen para o peito, do peito para o ombro, do ombro para... Já sabe como acaba: uma luva na cara, idealmente na ponta do queixo. O peso transfere-se de baixo para cima e quanto mais coordenado for o movimento, mais rápido sairá. E é assim que em bruto se dá um soco violento.

Sobre violência, Gennady Golovkin sabe uma ou duas coisas, aliás várias coisas, precisamente 33 coisas, o número de K.O.’s infligidos aos adversários em 37 combates profissionais. Golovkin não perdeu um e a isto chama-se um campeão indisputado, e também faz dele favorito no “Supremacy”, o encontro que o opõe e Saul ‘Canelo’ Álvarez (49 vitórias, 34 delas por KO; um empate e uma derrota) na madrugada de domingo (3h30), em Las Vegas. Em disputa estão os títulos mundiais de pesos-médios das várias federações — caso lhe interesse, WBA, WBC, IBF e The Ring —, mas os cintos acabam por tornar-se irrelevantes face ao perfil dos pugilistas. Comparar o Golovkin-Canelo ao McGregor-Mayweather é um exercício inútil, na medida em que o primeiro é boxe e o segundo um festival mediático.

Como gostar disto?

Gennady Golovkin nasceu no Cazaquistão quando o Cazaquistão era da URSS. O pai era mineiro e a mãe trabalhava como assistente num laboratório químico, e como os pais não o queriam sujo em minas e ele preferia o futebol à escola, foi jogar boxe — e desta forma começa a história do pugilista que não gosta de pugilato. Gennady e o irmão gémeo Maxim foram levados pelas mãos dos manos mais velhos, Vadim e Sergey, para o ringue; queriam enrijecer os putos e não foram poucas as vezes que os desafiaram a lutar com rapazes bem mais velhos na rua. As rixas faziam parte do dia a dia, mas à medida que levaram o pugilismo a sério, Gennady e Maxim deixaram-se de pancadarias sem árbitros. Depois, Vadim e Sergey morreram. Aconteceu ao serviço do exército soviético, as circunstâncias nunca foram explicadas. Gennady e Maxim engoliram em seco e continuaram a construir o seu nome naquelas latitudes; depois, chegou o momento de escolher qual deles iria aos JO de Atenas-2004. Maxim abdicou a favor do irmão, 15 minutos mais velho, e Gennady trouxe uma medalha de prata.

Estava lançado. Profissionalizou-se em 2006, passou a residir na Alemanha, primeiro, até chegar à Califórnia, onde explodiu com o treinador Abel Sanchez, que lhe trouxe a pitada de agressividade mexicana que lhe faltava ao boxe poderoso. “Eu sei que o meu murro magoa muito, e tenho consciência disso. É uma linha ténue que separa sair do ringue vivo ou magoado. Eu não gosto de boxe, quem gosta disto? Mas é dinheiro fácil.” Não façam confusões: quando está a trabalhar, Golovkin é um tipo frio, sem medo, que corta o caminho a direito. São poucos os lutadores da sua categoria de peso que arriscam um treino com ele, e por isso o cazaque praticou sempre com tipos mais corpulentos do que ele. Ainda assim, com a guarda em cima e as proteções postas, todos eles sentiam o peso e a potência dos socos do cazaque, que atingem o corpo e a cara até à inevitável queda. E isto é verdade para os adversários. Kell Brook teve de ser operado quando Golovkin lhe estilhaçou o osso da órbita ocular; David Lemiewx perdeu um combate com um soco no fígado que o deixou ajoelhado durante minutos.

Canela

Em 2013, Saúl ‘Canelo’ Álvarez não pôs o joelho no chão, mas perdeu aos pontos com Floyd Mayweather. O mexicano tinha 23 anos e foi a sua única derrota; uma derrota normal, porque naquele tempo Mayweather era mais rápido e cirúrgico e tático, e Álvarez menos experiente. Hoje, as coisas seriam diferentes. O mais novo de oito irmãos, três deles pugilistas, Álvarez sempre soube ao que ia: aos 15 anos tornou-se profissional e subiu na hierarquia dos pesos médios ligeiros, e também nos médios. A sua intensidade, o corpo esculpido, o cabelo e barba cor de canela (‘canelo’, em hispânico), transformaram-no numa superestrela entre mexicanos, que afluem como loucos aos seus combates — ter uma boa base de apoio importa quase tanto como ter um bom jab neste desporto pay per view. Mais baixo e mais de contragolpe do que Golovkin, Álvarez ganhou massa muscular para tentar igualar a potência do cazaque. Para perceber se isto é suficiente, é uma questão de tempo. Ou de horas.
pmcandeias@expresso.impresa.pt