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Quem é Duplantis, que pula prédios de dois andares?

Armand Duplantis é o adolescente que nasceu e vive nos EUA, compete pela Suécia e ascendeu aos 6,05 metros no salto com vara (mais alto do que o último ouro olímpico), no domingo, para ser campeão Europeu. Dele dizem ser uma enciclopédia da modalidade, que tem nas paredes do quarto pósters da lenda a quem agora ganha. Com 7 anos, ainda saltava descalço enquanto batia as marcas mundiais da sua faixa etária e treinava na pista que os pais lhe montaram no quintal. A Tribuna Expresso republica o perfil de Armand que acabou de bater o recorde mundial de salto com vara, aos 20 anos, fixando-o em 6,17 metros

Diogo Pombo

LUKASZ SZELAG

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A pessoa que caminhava no passeio, apavorada, apressou-se a tirar o telemóvel do bolso. Pegou-lhe, urgida pela imagem de uma criança, de fraldas e de tamanho demasiado diminuto para ser vista sozinha, quanto mais para trepar uma árvore no quintal dos vizinhos, e ligou para a polícia. Armand Duplantis ainda não tinha plena consciência do que fazia com a sua vida e começava a alarmar transeuntes, com a sua natural vertigem pelas alturas.

O instinto fazia-o olhar para cima e seguir o olhar com o corpo, na vertical, saltando com a ajuda de uma vara. E inclinava-o para coisas inusitadas na horizontal. Aos 7 anos, já dono dos melhores registos mundiais na sua idade, ainda corria e saltava descalço, porque isso lhe dava conforto, passando a cobrir os pés apenas quando os regulamentos o obrigaram a atacar o obstáculo como todos os outros atletas, calçado.

Mesmo que nunca tenha sido comum o contexto que sempre rodeou o adolescente recém-tornado, no domingo, campeão europeu do salto com vara, no alto de 6,05 metros.

Armand é produto de pai americano e mãe sueca, que escolheram viver em Lafayette, cidade no Louisiana, um dos estados que a América uniu. Greg, um advogado, também competiu outrora no salto com vara, e Helena, antes de ser uma personal trainer, dedicou-se ao heptatlo e ao voleibol. Vendo as aptidões e a apetência do filho, que as tinha em maior dose do que os dois irmãos mais velhos, igualmente desportistas, os progenitores quiseram aproveitar o quintal de casa.

O pai construiu, primeiro, uma pista com carpete de espuma a um canto do jardim, até o filho crescer e a família comprar, num leilão, uma pista de 38 metros - em competição, as oficiais têm 45 metros de comprimento - feita de madeira, alumínio e amortecimentos de borracha.

Armand podia treinar em casa e perto da ajuda dos pais, como descreveu uma reportagem do "New York Times", escrita o ano passado, mais ou menos na altura em que a elevação a que Duplantis chegava tornou insuficientes, e inseguros, o muro almofadado que ladeia a estrutura e o perímetro dos colchões que lhe amparavam as descidas à terra no quintal. Tinha 16 ou 17 anos e sobre ele já se diziam coisas como as proferidas por Earl Bell, bronze na modalidade nos Jogos Olímpicos de 1984: "Ele é o Tiger Woods do salto com vara. Nunca vimos algo assim".

Matthias Hangst

Um elogio que se quantifica lembrando os imberbes feitos de Duplantis. Depois das histórias e curiosidades que são sintoma transversal a quase todos os humanos que têm um desmesurado jeito para um desporto em particular, ele, aos 16 anos, tornou-se o primeiro freshman (expressão americana para quem estuda no 10º ano de escolaridade) nos EUA a superar os 5,48 metros. Aconteceu em 2016 e também fixou um novo recorde mundial júnior.

O ano passado, num evento de pista coberta realizado em Nova Iorque, melhorou a marca para os 5,75 metros. Contextualizando, um miúdo de 17 anos, dentro de um corpo ainda a desenvolver-se e numa modalidade em que o pico atlético, por norma, se atinge aos 20 e muitos, já saltava para lá do atual recorde nacional português, que Diogo Ferreira definiu nos 5,71 metros, igualmente em 2017.

Só que o atleta do Benfica está com 28 anos e acabou os Europeus de atletismo com o 14º lugar, incapaz de superar os 5,51 metros em três tentativas.

Durante a final do salto com vara, Armand Duplantis descolou da pista para tentar chegar aos 6,05 metros (quase um prédio com dois andares), guiado pela sua cara concentrada, compenetrada e de aparente indiferença à pressão do momento. Saltou essa marca, caiu no colchão e até dispensou o último ensaio a que tinha direito. Antes de a competição terminar, porque ainda restavam ensaios a vários atletas, muitos adversários já o congratulavam pela vitória.

O ouro, mesmo que antecipado e ainda não garantido, era palpável.

Em Berlim, um miúdo que é, simplesmente, o miúdo que há três meses partilhava, no Instagram e com a cara mais adolescente, uma fotografia na qual surge vestido com o traje habitual de quem termina o ensino secundário, recebia os parabéns de adultos com uma vida feita no salto com vara - e de um tipo em particular.

Recebeu o abraço sorridente de Renaud Lavillenie, que lhe significou mais do que os outros. É possível que o francês, de 31 anos, seja o melhor saltador com vara de sempre, certamente um dos mais capazes da história. A altura mais elevada a que um homem subiu está nos 6,16 metros e ele fixou-a em 2014, quando já constava, há muito, nos pósteres que cobrem as paredes do quarto de Armand Duplantis.

O meio americano, meio sueco, cresceu a admirar e idolatrar o gaulês que, à sua semelhança, não tem um corpo medido para lá dos 1,81m. Portanto, são mais baixos do que é comum ver-se nos atletas da modalidade. Como se o incomum não fosse já parte da vida de Duplantis, que recentemente ganhou um contacto próximo com Lavillenie. Treinaram juntos, este ano, durante 10 dias, na mansão do francês, em Clermont-Ferrand, além das muitas chamadas telefónicas e mensagens, como a que dele recebeu antes dos Europeus: “Espero que tu e eu acabemos no pódio”.

ANDREJ ISAKOVIC

Foi na bancada do estádio olímpico de Berlim, já com a medalha de ouro, que Armand desvendou ter recebido esss tal sms. “Penso que não existem palavras, em qualquer idioma, que possam descrever o que estou a sentir. É um sonho tornado realidade, estou no topo do mundo”, disse, também, não equipado e de mochila às costas, embalado pelo som do hino nacional português que ecoava pelo recinto, por coincidir com o momento em que o pódio elevou Nélson Évora ao ouro, no triplo salto.

Armand Duplantis expressou-se num inglês calmo e eloquente q.b., entre um discurso que esperou uns segundos antes de arrancar, sinal de que na cabeça do jovem atleta havia ponderação e cuidado. Com sotaque americano, porque ele nasceu e cresceu nos EUA, mas vestido com o amarelo sueco.

Duplantis escolheu representar a Suécia porque tinha essa opção - e, provavelmente, para ‘fugir’ ao mais competitivo, concorrido e difícil sistema de qualificação americano para Mundiais ou Jogos Olímpicos, em que os atletas têm de almejar ficar entre os três melhores do país na sua modalidade, como resumiu o “New York Times”. Tendo o nível e a perícia que tem, competir pelo país da mãe, quem foi abraçar à bancada, seria quase um garante de estar presente nas principais competições de atletismo.

E, por arrasto, talvez uma assegurada luta constante por medalhas, seguindo o conselho que as palavras de Renaud Lavillenie, na zona mista de Berlim, parecem deixar. “Tudo mudou nas pistas com ele. Acho que nunca fiquei tão contente com a vitória de outra pessoa. Nunca um bronze me fez tão feliz”, exultou sobre ‘Mondo’, como Duplantis é alcunhado.

No tempo que ainda é o tempo em que o atletismo está órfão e à procura de uma figura mediática, popular e icónica, como o era Usain Bolt (também) pela personalidade que tinha, uma das respostas poderá estar no salto com vara. E no fenómeno precoce que Armand Duplantis já é.