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O hino de Inês Henriques: pela igualdade marchar, marchar

Tem os títulos mundial e europeu, já teve o recorde do mundo, agora Inês Henriques quer que as mulheres tenham os 50 quilómetros de marcha nos Jogos Olímpicos. A portuguesa, de 38 anos, conta à Tribuna Expresso como conseguiu que a prova também fosse feminina nos Europeus de atletismo, em Berlim, e como espera que as suas marcas e resultados contribuam para que o Comité Olímpico Internacional deixa as mulheres marcharem em Tóquio, em 2020

Inês Henriques (depoimento redigido por Diogo Pombo)

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Considero-me uma pioneira.

De alguma forma, fui a primeira a destacar-me em termos de marca, uma marca de qualidade. Alterei pensamentos. Muitas pessoas diziam que os 50 quilómetros de marcha não eram para mulheres, que não o conseguiriam fazer, e eu demonstrei que as mulheres podiam fazê-lo, com grande qualidade. Estou muito feliz porque fiz algo e, agora, há muitas mulheres a aderirem aos 50 quilómetros. Sinto-me uma referência e tenho muito orgulho nisso.

A marcha, com esta distância, é a prova mais dura do atletismo mundial. Implica muito esforço físico, muito trabalho no momento da prova e requer muitas horas de treino. Ainda está patente, muitas vezes, que a mulher é frágil - o que não é argumento. Se a maratona tem as provas masculina e feminina, porque não existia, também, os 50 quilómetros no setor feminino, em 2017?

Não fazia sentido. Essa distância, na marcha masculina, já existe desde 1932 [estreou-se nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos EUA]. Não fazia sentido as mulheres continuarem com uma prova e os homens terem direito a duas. Não era correto.

Sinto que, de alguma forma, fui uma das responsáveis por esta mudança. Mais o meu treinador, o Jorge Miguel, teve essa visão, foi quem me lançou o desafio, o Paul Demeester, advogado norte-americano e, de certa forma, as atletas americanas, que foram quem começou com isto. Eu só dei continuidade com as marcas que fui alcançando, mas tive sempre pessoas atrás de mim a ajudarem.

Depois, houve sempre a parte do treino. Obviamente que há treinos muito longos e difíceis, mas, como amo o que faço, torna-se mais fácil. Foi um desafio demonstrar ao mundo e isso deu-me uma grande energia. Lidei bem com a pressão ter conseguir, ou não, fazer os 50 quilómetros, havia algo dentro de mim que me dizia ser possível. Procurei sempre que as dificuldades me tornassem mais forte.

Na prova dos Europeus, em particular, até exagerei. Coloquei-me no meio dos homens. De alguma forma, eles sentiram-se incomodados com a presença de uma mulher e aumentavam o ritmo. Como ia muito à vontade, fazia ritmos de volta à volta muito diferentes, sem me dar conta. Isso acabou por me prejudicar na parte final da prova e nos últimos 15 quilómetros tive de fazer uma gestão muito boa. Tive que baixar o mundo, percebi que já não ia bater o recorde do mundo e desisti desse objetivo. Apeguei-me ao principal, que era ser campeã da Europa.

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A certa altura, apercebi-me que tinha de aguentar. Até pensei para mim mesma: “Aguenta e não chora, vai até ao fim”. Só pensava no momento de cortar a meta, já estava muito calor, cerca de 30º, tentava pegar no maior número possível de garrafas de água, para me refrescar e conseguir terminar em condições razoáveis. Quando estava a chegar à meta, nem me lembrei de ir buscar uma bandeira, o pensamento já só estava em ir até ao fim.

Nunca me senti inferior aos homens, até achava piada. Aproximava-me e eles olhavam de lado para mim, como que pensando: “Mas esta vai aqui ao nosso lado porquê?”. Mas ia-me divertindo. Às tantas, pus-me ao lado de dois homens e disse “olá” quando olharam para mim. “Tem calma”, responderam. Foi giro, porque no final até acabei por ganhar a quatro homens.

É por coisas destas que o Jorge Miguel estava no abastecimento, em pânico.

Em Londres [nos Mundiais], por acaso, não aconteceu porque fui muito cumpridora no ritmo. Em Berlim, tenho a consciência que exagerei. É uma aprendizagem para o próximo ano, no Qatar, onde o Campeonato do Mundo será em condições extremas de calor. E, de alguma forma, serve para aprender a não cometer este erro, manter-me no meu ritmo e os homens no ritmo deles, para fazer uma melhor gestão da prova e deixar os outros puxarem - e, claro, fixar os objetivos nas medalhas.

Os recordes não são para se baterem ali. As medalhas é que contam. Os títulos ficam na história para sempre, os recordes é que vão sendo batidos por uns, e por outros.

Gostava de ter feito as duas coisas, não o nego, era um grande objetivo. O Campeonato do Mundo de Nações, na China, foi muito complicado para mim [perdeu o recorde mundial para Riu Liang]. Foi a primeira vez que desisti a representar Portugal, o que deixou marcas em termos psicológicos. Queria volta a ter o recorde para dizer à chinesa que ainda aqui estou.

Mas, se continuasse aquele ritmo, arriscava-me a não terminar a prova. Portanto, há que desistir de um objetivo para ficar com outro - e o de ser campeã da Europa era o principal. Como já tinha uma vantagem a rondar os 1.600 metros, tive apenas que gerir tudo até ao final para terminar a prova.

Há pessoas que estão dentro da história, que sabem o que estou a fazer e valorizam-no, têm noção que estou a escrever uma página do desporto europeu, e mundial. Outras pessoas não fazem ideia. Acham que é só uma medalha, dão-me os parabéns e talvez pensam que são “só” 50 quilómetros. Mas, depois, talvez tenham pensado que, epá, realmente, fazer essa distância, de carro, ainda é algum tempo. E, às vezes, só quando digo a média de ritmo que faço é que as pessoas percebem verdadeiramente.

Alexander Hassenstein

Infelizmente, a cultura desportiva em Portugal não é muito grande e os meus registos passam despercebidos. É óbvio que as pessoas valorizam muito mais o futebol, mas isso faz parte e nós não conseguimos alterar isso.

Os 50 quilómetros de marca não era para existir nos Europeus. Existiu porque eu, o advogado americano e uma atleta espanhola [Maria Dolores Marcos Valero] colocámos a Associação Europeia de Atletismo em Tribunal e pediram-nos para estarmos quietos e tirarmos tudo, que iriam introduzir a prova feminina. Era muito importante estarmos no Campeonato da Europa para termos ainda mais força na luta para a introdução nos Jogos Olímpicos.

O que não está garantido.

O Comité Olímpico Internacional diz que vão existir três provas de marcha, mas não está definido se a prova de 50 quilómetros é só para homens, ou se será masculina e feminina. No Mundial éramos sete, no Campeonato do Mundo de Nações éramos 30, ou 31, nos Europeus éramos 19. Já é um lote muito grande de mulheres a fazerem 50 quilómetros com qualidade. Agora já não é só a Inês Henriques e o advogado a quererem, são todos os outros países que têm atletas envolvidas.

Isto não pode ser um reverso, o caminho tem de ser para a frente. O próximo Campeonato do Mundo já será por quotas, em que teremos de fazer provas e ter pontuação, porque apenas um dado número de atletas se poderão qualificar. A organização está a querer fazer a prova com 60 atletas, não se sabe é se ficarão divididos por 30 homens e 30 mulheres. O que o advogado está a tentar é que assim seja. Mas porque não haver 80 atletas, por exemplo?

O Comité é sensível a estas causas de igualdade de oportunidade entre homens e mulheres. O que dizem é que existem modalidades que existem, separadamente, no masculino e no feminino. Acontece em todas as outras provas de atletismo e não acredito que a Federação Internacional de Associações de Atletismo [IAAF] deixe as mulheres de fora só nos 50 quilómetros de marcha.

Nunca fará sentido. E, como temos ganhado todas essas lutas, e por ser um direito nosso, as mulheres estejam, em Tóquio, a marchar essa distância. Eu e o Jorge Miguel estamos a tentar trabalhar cada vez melhor.