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“As medalhas não compensam tudo. Há alturas em que fazemos quatro treinos por dia”

O corpo do mais destacado canoísta português é como uma máquina. Treinado e alinhado para ganhar, para ir batendo os seus próprios recordes. E este ano já foram vários: a medalha de ouro em K1 1000 metros e a de bronze em K1 500 no Campeonato da Europa, a que se juntou a de ouro em K1 5000 metros e a de prata em K1 500 na primeira Taça do Mundo. Nada mau para um miúdo que foi para a natação porque era hiperativo e, sem planos, se foi tornando campeão. “Os resultados foram aparecendo.” E que desde os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro — de onde toda a gente esperava que voltasse com uma medalha mas onde foi travado pelas folhas das árvores na sua pista — tem transformado a desilusão em vitórias. Fernando Pimenta explica como enfrentou os momentos mais dificeis. Esta semana regressa às competições. Portugal recebe o Campeonato do Mundo de velocidade de canoagem, onde Pimenta é, mais uma vez, o principal candidato às medalhas

Carolina Reis e Rui Duarte Silva

Rui Duarte Silva

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Tem estado no pódio de todas as competições mais recentes em que participou. Como é que se reergueu depois do azar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro?
Tudo levava a crer que ia fazer do Rio de Janeiro um marco histórico para mim e para a canoagem portuguesa. Infelizmente, tivemos um contratempo e não foi possível. Isso deitou-me muito abaixo, tive alguns meses em que não queria ouvir falar nos Jogos Olímpicos, não queria ouvir falar em competições internacionais, nem queria saber que provas ia haver. Mas tinha de dar a volta por cima, a vida não acabava ali, havia mais competições. E 2017 foi um ano fantástico em que consegui voltar aos títulos, vencer logo em casa a primeira Taça do Mundo, a primeira competição do ciclo olímpico, e passado um mês voltei a sagrar-me campeão da Europa em K1 1000 metros. Como cereja no topo do bolo, fui campeão do mundo em K1 5000 metros.

Conseguiu apagar a desilusão do Rio?
Claro que 2016 ficará sempre na minha memória pelos piores motivos, não era o resultado que esperávamos, não era o resultado pelo qual trabalhámos. Até os treinadores das outras equipas nos disseram isso. No dia a seguir à prova, as pessoas ainda não acreditavam no que tinha sucedido, mesmo as equipas estrangeiras.

O que é que lhe veio à cabeça no momento da derrota?
Todo aquele sacrifício, os mais de 220 dias de estágio, em que abdiquei de tudo. Fiz o maior sacrifício que podia fazer: abdicar da família. Fiz uma dieta que melhor não podia ter sido, não podíamos ter feito melhor preparação. Fiz — aliás, fizemos — tudo o que tinha ao meu alcance, e ver o nosso trabalho ir por água abaixo por causa de um resultado que não dependeu de nós... Deitou-me muito abaixo, estive muito tempo sem querer falar com ninguém. Precisava daquele momento para pensar, refletir.

Fala sempre no plural, em nós. Está a referir-se a quem?
Ao Hélio Lucas, que é mais do que o meu treinador. No ano passado estivemos o ano todo juntos. E juntos tentámos ultrapassar esta fase, confiando um no outro para continuarmos a acreditar em resultados.

Foi a ele que foi buscar força?
A ele, à família, à namorada, aos pais, aos avós, aos amigos... E depois também aos nossos patrocinadores, porque mantiveram os apoios, o que significou que acreditam em mim, que posso trazer bons resultados.

E como é que responderam os portugueses?
A maioria dos portugueses apoiou-me. Mas houve também quem arranjasse formas de gozar com o trabalho que eu tinha feito.

Isso dói.
Dói. Mas no ano a seguir só trouxe medalhas, e essas pessoas não tinham por onde pegar. Voltámos outra vez às medalhas.

Foi precisa uma grande força de vontade mental para regressar à competição? Até que ponto é que a vitória começa na cabeça?
Nós, atletas de alta competição, quando chegamos a certas provas, como as finais, em termos físicos estamos no nosso melhor. Todos os que estão na final já estão na sua melhor forma. Vai tudo depender da cabeça, é o que faz a maior diferença. É tentar estar descontraído, não estar muito nervoso, é isso que nos pode beneficiar ou prejudicar. Por exemplo, nas últimas competições deixei de ouvir música antes das provas, para estar mesmo descontraído. Ouvir uma música muito agitada pode colocar-nos uma maior pressão ou deixar-nos mais agitados.

Leia a entrevista na íntegra AQUI.