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Vontae Davis despiu o equipamento, arrumou a trouxa e retirou-se. No intervalo de um jogo

É uma das histórias mais inusitadas da nova temporada da NFL. Cornerback de 30 anos estava a fazer o seu segundo jogo pelos Buffalo Bills quando decidiu que, por ele, chegava. E nem esperou que o jogo frente aos Los Angeles Chargers acabasse: no intervalo, arrumou as suas trouxas e foi para casa

Lídia Paralta Gomes

Tom Szczerbowski/Getty

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Escola secundária, universidade, enquanto profissional. Nunca ouvi falar. Nunca tal vi.

Estas palavras pertencem a Lorenzo Alexander, linebacker dos Buffalo Bills. Alexander falava, ainda no balneário, após mais uma derrota dos Bills, a segunda em dois jogos, desta vez frente aos Chargers.

Mas o defesa não falava da derrota dos Bills, coisa que, aqui entre nós, não é nada estranha nem será no que resta da temporada da NFL, que ainda agora começou. Porque a derrota frente aos Chargers está longe de ser a coisa mais inusitada que aconteceu aos Bills no último domingo.

A tal coisa que Lorenzo Alexander nunca tinha ouvido falar nem havia visto na sua vida até domingo foi olhar para o lado e ver um colega de equipa, ao intervalo, tirar o equipamento, vestir as suas roupas, arrumar o seu cacifo, sair do estádio e anunciar a retirada.

Assim, a meio de um jogo.

“Foi um autêntico desrespeito para os colegas”, disse ainda Lorenzo Alexander sobre Vontae Davis, seu companheiro na linha defensiva nos Buffalo Bills.

O cornerback chegou a Buffalo este ano, depois de passagens pelos Miami Dolphins e Indianapolis Colts. Contrato de um ano, 5 milhões de dólares. Aos 30 anos, já é considerado um veterano.

Aos 41 anos, Tom Brady continua aí para as curvas, mas ser quarterback na NFL é muito diferente de ser defesa: um defesa está muito mais vulnerável ao choque, às lesões, a esforços físicos hercúleos. E a NFL tem tudo menos um registo limpo no que diz respeito à saúde dos seus ex-atletas: a prevalência de doenças degenerativas em antigos jogadores de futebol americano é assustadora.

Em 2017, um estudo da faculdade de medicina da Universidade de Boston estudou 111 cérebros de ex-atletas da NFL e apenas um não apresentava sinais de encefalopatia traumática crónica.

Vontae Davis percebeu naquela 1.ª parte que não estava mais para isso. Para quem criticou a sua aparente deserção, Davis devia ter percebido isso mesmo durante a pré-época, nos primeiros treinos com os Buffalo Bills, equipa que lhe ia pagar pelos seus serviços que consistem em parar wide receivers adversários. Só que a máscara caiu em pleno jogo, de um momento para o outro, quando sentiu que fisicamente não conseguiria ajudar a equipa.

Vontae Davis numa jogada defensiva quando ainda alinhava nos Indianapolis Colts

Vontae Davis numa jogada defensiva quando ainda alinhava nos Indianapolis Colts

Stacy Revere/Getty

“Não foi assim que imaginei a minha retirada da NFL”, confessou mais tarde num texto publicado nas redes sociais, em que explicou as razões para tão insólita retirada.

“Nestes 10 anos na liga fiz tudo aquilo para o qual o meu corpo estava programado: estar preparado para jogar a cada jornada. Fui operado múltiplas vezes e joguei em muitas ocasiões lesionado. Mas hoje [domingo], em campo, a realidade atingiu-me de forma dura e imediata: eu não devia mais estar ali”, continuou, sublinhando que nunca foi sua intenção “desrespeitar colegas e treinadores”.

“Fisicamente, eu percebi que não era mais possível e tive um momento honesto comigo mesmo. Enquanto estava em campo não me senti bem e disse aos treinadores”, continuou, num texto em que confessa que o momento da verdade chegou quando se questionou se valia a pena continuar a sacrificar-se pelo jogo.

Nessa reflexão, Davis percebeu que era mais importante sair de cena saudável do que “abraçar uma mentalidade guerreira e sair a coxear mais tarde”.

“É uma decisão avassaladora, mas estou em paz com ela”, disse ainda.

Não sendo uma estrela - até porque na NFL esse estatuto raramente está destinado a defesas - Vontae Davis fecha uma carreira de 10 anos sem títulos, mas com o carimbo de Pro Bowl (o equivalente ao all star da NBA) em duas temporadas, 2014 e 2015, quando jogava ainda nos Indianapolis Colts.

E provavelmente com a retirada mais incomum de sempre.