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Floyd Mayweather e a estupidificação do boxe

O extraordinário pugilista norte-americano deixou a reforma outra vez para um combate que ninguém percebe muito bem o que é diante de um prodígio japonês do kickboxing. É provável que o dinheiro esteja novamente a falar mais alto e assim se destrói uma reputação e uma carreira de cinco títulos mundiais

Pedro Candeias

Jeff Bottari/Zuffa LLC

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Ninguém sabe muito bem o que é ou o que representa, mas será potencialmente um dos combates estranhos mais vistos da vasta história dos combates estranhos: o boxeur Floyd Mayweather encontrará o kickboxeur/lutador de MMA Tenshin Nasukawa no Japão no próximo réveillon - e infelizmente é tudo o que sabemos.

Além do nome dos atletas, do local e do organizador, não ficou clara a categoria de peso nem o número de rounds ou tipo de luvas; mais interessante ainda, ninguém foi particularmente específico com as regras, isto é, se será uma sessão de pugilato, de muay thay ou um espectáculo de pancadaria à moda antiga.

“Isso é o menos, estou preparado para tudo, quero entreter as pessoas e tenho algumas ideias que vamos definir”, disse Mayweather. “Quando me contactaram, nem pensei duas vezes. Também posso dar murros”.

Mais vago, impossível, e isso é estranhíssimo mesmo para os padrões de Floyd Mayweather.

Floyd tem vivido os seus últimos anos a reinventar formas de ganhar dinheiro, escolhendo a dedo os seus adversários. O seu último combate já fora caricato – trocou exclusivamente murros com Conor McGregor, ícone do MMA – e foi amplamente criticado por isso.

Mas nem ele nem Conor se importaram com isso, pois a paga pelo espetáculo de desfecho previsível foi simpática: segundo as melhores estimativas, €293 milhões para Mayweather e €100 milhões para McGregor. “Foi o meu último combate”, garantiu o vencedor, que arredondou o seu score para 50 triunfos e zero derrotas.

Não foi o seu último combate.

Desde agosto de 2017, Floyd já desafiou Khabib Nurmagomedov (despachou McGregor recentemente), Manny Pacquiao (este embate deverá acontecer) e novamente McGregor – e, agora, fechou um negócio com Tenshin Nasukawa, embora os valores tenham ficado por dizer.

Se valesse tudo, o Mayweather-Nasukawa seria profundamente desequilibrado, pois além de ter metade da idade (20 anos) do norte-americano (41 anos), o prodígio japonês é poderossísimo, rápido, potente e perigoso com as pernas (27-0 em kikcboxing; 4-0 em MMA). E como Mayweather não tem idade para aprender truques novos, o mais normal será ver um combate de boxe com algumas nuances – talvez o tipo de luvas a usar –do que outra coisa qualquer. E mesmo que vença, Mayweather perde a sua dignidade, reputação e destrói mais um pouco o legado que construiu com cinco títulos mundiais em cinco categorias de peso diferentes.

Porque quando Muhammad Ali lutou com o wrestler Antonio Inoki - flácido, sem massa muscular, uma figura trágica - fê-lo por necessidade e não por gosto, e num momento em que a demência tomava conta do seu outrora rapidíssimo cérebro. Mayweather, multimilionário certificado pela Forbes, está apenas a querer insuflar o ego, prolongando uma carreira além do recomendável simplesmente por dinheiro.

Obviamente, isto não é desporto. E, obviamente, toda a gente vai ver.