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Um neozelandês na Ilha de Mann e o Inglaterra-All Blacks: “É difícil respirar quando se perde. Vão voar coisas pela sala”

Carl Murray viveu e jogou râguebi, durante muitos anos, em Portugal. Foi internacional pela seleção portuguesa de 15 e de sevens, mas é neozelandês. Hoje vive e é treinador na Ilha de Mann, entre ingleses. E explica-nos o que significa o jogo deste sábado (15h, Sport TV2), em que a Inglaterra defronta os All Blacks em Twickenham

Carl Murray (depoimento traduzido por Diogo Pombo)

Hannah Peters

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Depois de ganhar o Rugby Championship e a Blesdisloe Cup de forma convincente, esta temporada, todos os olhos vão estar em Twickenham, este sábado. Mais de um ano volvido da digressão dos British and Irish Lions pela Nova Zelândia, isto será o maior test match desde a final do Mundial, em 2015. Da perspetiva de um kiwi, esta rivalidade é importante - se não ainda mais importante que a rivalidade com a Austrália.

Fala-se sobre este jogo desde o momento em que começou o reinado de Eddie Jones. A Inglaterra esperou quatro anos para competir contra a melhor equipa do mundo. A última vez que os All Blacks perderam com os ingleses foi a 1 de dezembro de 2012, o que serve para constatarem que, por estes jogos só aparecem uma vez a cada quatro anos, os nervos estão em alta.

Especialmente nos kiwis, para quem o râguebi é vida.

Compararia isto à final do Euro 2016 que Portugal jogou. Os ingleses têm estado cheios de confiança desde 2016-17, quando venceram dois torneios do Seis Nações consecutivos (títulos sobre os quais ainda continuam a falar).

Estando eu a viver e a treinar no Reino Unido, sei que as brincadeiras são um ritual diário no râguebi inglês. Muitos dos jogadores escolheram falhar o jogo do nosso clube, este fim de semana, para se deslocarem a Twickenham e verem o que será o encontro decisivo da época. Recebi mensagens durante a semana inteira, confiantes de que sábado o dia será inglês, mas, mesmo assim, nota-se alguma incerteza entre os adeptos.

Muitos irão a Twickenham como foram à Nova Zelândia o ano passado: só para fazerem a festa, com a sua confiança (arrogância) inglesa.

David Rogers - RFU

Os All Blacks são a equipa neozelandesa na qual qualquer kiwi tem sempre confiança. Este jogo não é diferente. Pessoalmente, vou estar a ver em casa, com nenhum inglês na sala. E não tenho dúvidas de que, se ganharmos, não irei receber mensagens ou chamadas de ninguém até segunda-feira. Fingers crossed.

A vitória da África do Sul em Wellington, em setembro, foi um choque. Mas, ao longo dos anos, tem havido um respeito mútuo entre as duas nações e é um jogo que sabemos encaixar. Mas, tal como a Austrália, os ingleses não são humildes vencedores.

Eles ganham o Seis Nações e classificam-se como campeões mundiais. Se ganharem este jogo, este sábado, vão considerar-se a melhor seleção do planeta. A reviravolta que conseguiram para vencerem a África do Sul, no último fim de semana, mexeu com todas as emoções que há no catálogo.

Cresci na Nova Zelândia, numa família de râguebi. Já vi de tudo: desde o meu pai uma mesa de vidro, onde servíamos café, até virar a televisão do avesso em 1995, durante a final do Mundial.

Nós somos apaixonados por râguebi e não há dúvidas de que, algures no sábado, haverá coisas a voar pela sala. Fica difícil respirar quando, e se, os All Blacks estão a perder.

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    Râguebi

    Carl Murray viveu e jogou râguebi, durante muitos anos, em Portugal. Foi internacional pela seleção portuguesa de 15 e de sevens, mas é neozelandês. Por isso, pedimos-lhe para explicar, escrevendo, o que significa a digressão dos British and Irish Lions para um kiwi. O último jogo contra os All Blacks é no sábado (8h35) e “esperar 12 anos por uma desforra é muito tempo”