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O sexo determina o sucesso? Transgéneros: a polémica da inclusão de atletas e a quebra de tabus no desporto

COI tem regras específicas para tratar do assunto, mas dá liberdade às federações para criarem suas próprias directrizes quanto aos atletas transgéneros. Conheça algumas histórias de pessoas que fizeram a transição de sexo e como o processo tem evoluído por esse mundo

Carol Fontes

Renee Richards e Martina Navratilova

ullstein bild/Getty Images

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Há muito que se comenta a respeito da inclusão dos transgéneros no desporto. A presença de atletas que realizaram a transição de género tem crescido progressivamente. Registos comprovam a ocorrência de tais casos desde a década de 1970, mas, se no passado apenas alguns ganhavam a permissão para competir, atualmente há novas regras estipuladas em prol da inclusão e a quebra de tabus. Muita polémica gira em torno do assunto, que ganha destaque com uma série de exemplos ao redor do mundo.

A estrela do ténis Martina Navratilova, por exemplo, causou alvoroço ao afirmar que atletas nascidos com o sexo masculino não deveriam competir entre mulheres. A tenista, considerada a maior de todos os tempos, vencedora de 17 Grand Slams, foi logo chamada de "transfóbica", mas não deixou de expressar a sua opinião pelas redes sociais.

“Claramente, isto não pode ser certo. Tu não te podes proclamar uma mulher e estar apta a competir contra mulheres. É preciso haver padrões, e ter um pénis e competir como mulher não se encaixa neste padrão”, disse a ex-tenista de 84 anos em seu perfil no Twitter, que conviveu com a transgénera Renée Richards na altura em que era profissional.

Na mesma rede social, uma atleta transgénera respondeu à Navratilova. Rachel McKinnon, que nasceu com o sexo masculino e fez a transição para o feminino, não concordou com a afirmativa da americana: “Genitais não disputam desportos. Qual parte do pénis que está relacionada com o ténis?”, questionou a atleta, que venceu uma disputa de ciclismo de estrada organizada pela UCI (Federação Internacional de Ciclismo).

O que dizem as leis

A IAAF (Associação Internacional de Federações do Atletismo) tem uma postura mais rígida no que diz respeito à inclusão de atletas transgéneros em provas femininas da modalidade. A cartilha nas pistas exige que os atletas informem a IAAF sobre a identidade de género com três meses de antecedência e pede que se incluam os detalhes do processo, qual o tratamento foi feito e a situação atual de cada competidor.

Os exames avaliam os hormonas através do sangue e da urina, se houve intervenção cirúrgica, qual o processo escolhido para a transição, os medicamentos e as atividades ao longo do tratamento. Há também o cuidado de observar se a resignação sexual foi feita antes ou depois da puberdade, a idade e há quanto tempo decorreu o procedimento. As pesquisas são estudadas pelo chefe da equipa médica da IAAF e, caso uma atleta não seja aprovada, pode recorrer ao tribunal do CAS (Corte Arbitral do Esporte).

De 33 entidades que regulam as modalidades presentes nas Olimpíadas de Tóquio 2020, 13 seguem o planeamento do Comitê Olímpico Internacional (COI) dirigido aos atletas que mudaram de género. A cirurgia, neste caso, não está em questão.

De acordo com o órgão que regula o desporto olímpico, atletas que realizaram o processo de transição do sexo masculino para o feminino devem apresentar um limite de 10 nanomol de testosterona por litro de sangue pelo menos um ano antes de disputarem um campeonato. Os que passaram do feminino para o masculino, por sua vez, podem competir sem restrições.

O COI afirma ainda que as federações são livres para desempenharem as suas próprias regras para os transgéneros nas competições organizadas pelas diversas entidades.

Além do atletismo, outras federações em modalidades como râguebi, basquetebol, natação e o voleibol têm o seu próprio código de conduta para tratar do assunto, enquanto na ginástica e no badminton cada caso é examinado separadamente.

No futebol, por não haver ocorrências do tipo, não há uma directriz para os transgéneros; portanto, cada caso é um caso.

No hipismo, homens e mulheres competem juntos, o que não influencia na questão.

Recordemos, agora os casos de atletas transgénero:

Renée Richards

Renée Richards talvez tenha sido o primeiro caso de atleta transgénero no desporto, pelo menos oficialmente. A história da tenista americana remonta aos anos 70. Ela nasceu Richard Raskind e competiu entre os homens até decidir mudar de sexo. A estreia entre as mulheres ocorreu em 1977, no US Open, em Nova Yorque, após uma decisão do Tribunal Supremo da cidade. Renée sagrou-se campeã nas duplas e reformou-se em 1981, aos 47 anos.

Jaiyah

A seleção de futebol de Samoa já contou com a presença de uma mulher transgénero. Jaiyah Saelua - nasceu John Saelua - chamou atenção em 2011 ao atuar pela equipa nas eliminatórias para o Campeonato Mundial. Ela nunca realizou a cirurgia para mudança de sexo e ainda tem o órgão genital masculino.

Tiffany

Depois de uma temporada em Itália, onde tinha a permissão de jogar, Tiffany Abreu gerou muita polémica quando foi contratada pelo Bauru no ano passado. Ela foi a primeira jogadora transsexual a disputar a Superliga feminina, uma das ligas mais fortes do mundo. Batizada de Rodrigo, Tiffanny se transformou e ganhou a aprovação da Federação Internacional de Voleibol (FIVB) para competir profissionalmente entre as mulheres. As boas exibições impulsionaram um movimento de clubes e atletas rivais na tentativa de proibi-la de jogar.

Laurel

Lauren Hubbard quebrou paradigmas no levantamento de peso. A neozelandesa foi a primeira transgénero a conquistar uma medalha numa disputa oficial da modalidade: a prata no Campeonato Mundial de 2017, em Anaheim, nos Estados Unidos, na categoria até 90 kg.

Chris

O americano Chris Mosier foi o primeiro transgénero a fazer parte da equipa olímpica dos Estados Unidos. Atualmente um embaixador entre os atletas que mudaram de sexo, ele se classificou para o Mundial de duatlo em 2015 e tentou a qualificação para os Jogos do Rio 2016, no entanto, não assegurou a vaga.