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Nélson Évora acusa Benfica de "ataque pessoal" no processo de naturalização de Pichardo: "Deram a volta ao mundo para fazer esta borrada"

Numa entrevista ao "Jornal Sporting", campeão olímpico do triplo-salto em Pequim'2008 admite que no início não viu com bons olhos o processo de naturalização de Pedro Pablo Pichardo, atleta nascido em Cuba, mas garante que o seu desconforto está relacionado com aquilo que considera ser um ataque do Benfica. “Foi feito por questões clubísticas e com o objectivo de ataque pessoal quando não houve nenhuma má intenção da minha parte na mudança de um clube para o outro", sublinha

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Nelson Évora a saltar para o bronze esta quinta-feira em Londres.

KIRILL KUDRYAVTSEV

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O processo de naturalização de Pedro Pablo Pichardo continua a ser um tema incómodo para Nélson Évora, que numa longa entrevista ao Jornal do Sporting acusou o Benfica de ter avançado para a naturalização do cubano apenas por “questões clubísticas” e como “um ataque pessoal”, depois do campeão olímpico em 2008 ter trocado os encarnados pelo Sporting, em 2016.

“Admito que, no início, não vi com bons olhos [a naturalização de Pichardo]. Foi – e continua a ser – para mim e para muitos outros algo de muita luta e um processo bastante longo. Todos têm o direito de mudar de nacionalidade. Somos cidadãos do mundo. Acho é que não temos o direito de passar por cima de muitas coisas, de uma história. Por interesses clubísticos fizeram-se coisas inacreditáveis. O Sporting é conhecido por dar a nacionalidade à Naide Gomes, que quase nasceu em Portugal, e ao Francis Obikwelu, que desertou aqui no Campeonato do Mundo de juniores. Até serem portugueses passaram por um processo, perderam competições. Por isso, deixou-me um pouco indignado. Não só pelas madrugadas que perdi, mas também pelas pessoas que estão aqui há muitos anos a lutar pela nacionalidade e não conseguem. Essas são pessoas que trabalham, pagam os impostos e dão algo ao país”.

Évora negou que a sua indignação esteja relacionada com o facto do atleta do Benfica ter entretanto batido o seu recorde nacional: “Foi feito por questões clubísticas e com o objectivo de ataque pessoal quando não houve nenhuma má intenção da minha parte na mudança de um clube para o outro. Foi o próprio clube que foi negligente com a minha pessoa. Não sei porque é que deram a volta ao mundo para fazer esta borrada. As pessoas pensaram que me indignei porque ele bateu o meu recorde nacional, mas o que eu tenho a dizer aos milhares de haters é que os recordes nacionais não me dão nada, não me dão privilégio nenhum. A Federação paga-nos 35 euros por bater o recorde nacional. Não é por uma questão de dinheiro ou nada parecido. Eu, quando bato o recorde nacional, sinto o meu país e a minha pátria”.

Na entrevista ao jornal oficial dos leões, Nélson Évora, que atualmente treina em Espanha e no último ano se sagrou campeão da Europa, falou ainda da sua experiência na hora de conseguir o passaporte português.

“Cheguei a Portugal com seis anos. O meu pai já tinha pedido o processo de naturalização dele bem antes de eu nascer. O meu pai era cabo-verdiano e trabalhou a vida toda na Costa do Marfim, mas tinha todas as poupanças em Portugal. Comprou aqui uma casa, pagava aqui os seus impostos e mesmo assim não tinha o direito de ser português. Com dez anos foi pedido o meu processo de naturalização e só com 18 anos é que consegui. Foram muitas madrugadas a ir para os registos pedir documentos, traduções... foi um processo longo do qual me orgulho porque quando me deram o documento português por vias legais eu já me sentia português há bastante tempo”, rematou.