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No tatami, na neve, na água: a extraordinária odisseia de Pita ainda não terminou

Lutador de taekwondo e esquiador nasceu na Austrália, foi criado em Tonga e é uma estrela nas ilhas polinésias. Com duas participações olímpicas, Pita superou a infância pobre - a família vivia com 20 cêntimos por semana -, teve de lidar com as repetidas lesões e muitos anos de espera para competir em Jogos Olímpicos pela primeira vez. Fénix do desporto, o atleta de origem maori projeta competir em Tóquio 2020 numa outra modalidade

Carol Fontes

Pita Taufatofua

Dan Istitene/Getty Images

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Quando Pita Taufatofua deu os primeiros passos no taekwondo, aos cinco anos, jamais imaginaria que seria protagonista de um conto épico, uma Odisseia “maori” que desbrava o mundo através de aventuras e uma dose de heroísmo. Foram anos de dores, batalhas e deceções até a consagração, 20 anos depois, nos Jogos Olímpicos de Rio de Janeiro. Mas Pita, não se ficou pelos tatamis e deixou-se seduzir pela neve e competiu no esqui cross-country nos Jogos de Inverno de PyeongChang 2018. Nesses dois momentos, Pita chamou a atenção e transformou-se num fenómeno de redes sociais: apresentou-se de tronco nu, cheio de óleo no corpo, e com o traje tribal típico dos maori em ambos os JO.

Só que Pita é mais do que isso e ainda não acabou: hoje, projeta a terceira participação olímpica em Tóquio 2020 num desporto aquático. O céu é o limite para o tonganês de 35 anos, uma metamorfose de carne e osso, capaz de se reinventar como uma fénix para tirar um coelho da cartola e viver algo novo.

Quem é Pita Taufatofua

Filho de mãe australiana-britânica e pai tonganês das ilhas de Ha'apai e Vava'u, Pita é o terceiro numa família de sete irmãos, e perdeu uma irmã ainda criança, vítima de cancro. A família teve uma vida pobre, mas também nunca teve grande apego às coisas materiais.

Ganhavam 20 cêntimos de dólar por semana para uma refeição especial ou faziam uma economia de duas semanas para conseguirem comprar um hambúrguer de ovos, por 50 cêntimos. O almoço era pão com manteiga. Tudo era partilhado e, às vezes, restava apenas um naco de sandes. Nada era um drama, pois essa era a vida normal. Era tudo o que eles conheciam.

Viviam numa casa de apenas um quarto, mas os pais sempre valorizaram a educação dos filhos: formaram-se todos em universidades. Ao todo, somam 10 cursos, dois doutorados e três mestrados; Pita tirou o curso em engenharia. Mas até lá chegar, o percurso foi complicado, por ter sofrido de bullying dos seus colegas de escola pelo tom de pele mais claro. Era visto como um estrangeiro por causa disso.

O escape era o râguebi, que praticou com um único objetivo, o de poder jogar pelos All Blacks, coisa que que sempre lhe escapou. Virou-se para o taekwondo e isso levou-o ao estrelato em Tonga. Em 2003, convidou os pais para assistirem-no pela primeira vez, nos Jogos do Pacífico Sul, nas ilhas Fiji. Antes de entrar no tatami, no entanto, um homem apareceu e disse que o filho americano iria lutar em seu lugar entre os pesos pesados. Pita ficou devastado. Um ano depois, não conseguiu o dinheiro para viajar para a Tailândia, onde decorreriam as qualificações para os JO de Atenas, e não conseguiu lutar por uma vaga.

Mas Taufatofua nunca deixou de acreditar. E prometeu aos pais que iria participar do maior evento desportivo do mundo. E lá foi ele, anos depois, nos torneios de qualificação para Pequim’2008, disputadas na Nova Caledónia, um outro percalço. Quando já estava na final contra a Nova Zelândia, fraturou um osso do pé e torceu o tornozelo. Ainda tentou se manter de pé, mas não resistiu depois de dois rounds e sucumbiu à dor.

Não foi aos Jogos e precisou ficar em uma cadeira rodas por um longo período. Foram seis meses sem andar, e mais quatro anos de espera até ganhar mais uma chance de lutar pela vaga olímpica. Porém, aconteceu-lhe o mesmo que antes. uma lesão num combate que o deixou fora dos JO de Londres

Aconteceu assim: Taufatofua teve um estiramento no ligamento do joelho, tentou continuar e piorou a sua condição. Ainda havia uma última chance para se qualificar, oito semanas depois, na Coreia. O tempo ideal para a recuperação deste tipo de lesão é de seis meses, mas não havia tempo e ele viajou directamente para a Austrália para iniciar o tratamento.

Quando chegou a altura de disputar uma das vagas da Oceânia, enfrentou um amigo de Samoa na decisão. Só conseguia lutar com uma das pernas, resistiu e foi ao limite até ser derrubado com um pontapé na cabeça no terceiro round. Foram quase três meses "de molho". Seriam precisos muito mais até ao próximo ciclo olímpico.

O final feliz

Quatro anos depois, Pita teve, finalmente, um final feliz. Com a carreira consolidada no taekwondo, o lutador contou com uma estrutura melhor para se preparar para os Jogos do Rio 2016. Na Papua Nova Guiné, garantiu um lugar fina e venceu, no último round, numa Foi uma luta difícil, até o último round, decidida apenas no "golden point".

Taufatofua sabia que era a sua oportunidade de ouro. Bastava um ponto para o sonho de uma vida. Com um pontapé frontal, carimbou o passaporte para o Brasil e alcançou a redenção 20 anos depois. E também fez história: foi o primeiro atleta do seu país a entrar para a competição no taekwondo.

Além de ter levado a bandeira de Tonga na cerimónia de abertura das Olimpíadas do Rio, coberto de óleo pelo corpo e sem camisola, Pita também carregou o símbolo solenidade dos Jogos de Inverno da Coreia, em fevereiro deste ano, quando competiu no esqui cross-country. A vaga veio, obviamente, e como tudo na sua vida, nos descontos de tempo, numa outra reviravolta impressionante.

Porque Taufatofua passou uma temporada na Europa, disputando sete corridas, sem êxito algum. As esperanças eram remotas. Na Islândia, no último dia do período de classificação, em 20 de janeiro, carimbou o passaporte a menos de um mês para os JO de inverno.

Agora, que venha o desporto de água que ele não dirá qual é até fevereiro. É provável que o vejamos em Tóquio 2020

Pita Taufatofua

Pita Taufatofua

Clive Mason/Getty Images