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A luta invisível da campeã mundial que resistiu a um AVC e a vários cancros

Um dos principais nomes do atletismo paralímpico, Verônica Hipólito, já foi operada à cabeça três vezes (2013, 2017 e 2018) para tratar um cancro e também fez delicada cirurgia para retirar 90% do intestino grosso (2015) após a descoberta de mais de 200 pólipos. Mas Verónica faz do "limão uma mousse"e vive em constante evolução. Depois de dois anos afastada das pistas, a velocista retoma os treinos gradualmente e mira os jogos Parapan-Americanos e o Mundial deste ano: "As coisas podem ser difíceis, mas não impossíveis. Nada resiste ao trabalho"

Carol Fontes

Verônica Hipólito

Roberto Machado Noa/Getty Images

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Uma menina de espírito leve, voz doce e uma infindável capacidade de se reinventar. Os 22 anos de vida de Verônica Hipólito parecem poucos para os capítulos de sua história. Nem mesmo um acidente vascular cerebral (AVC) na infância, as cirurgias para tratar o cancro no cérebro e a retirada de mais de 200 tumores no intestino foram capazes de parar a campeã mundial nos 200 metros na classe T38, para atletas com paralisia cerebral leve.

Nada a impediu também de conquistar a prata nos 100 metros do Mundial de Lyon 2013 e outras duas medalhas nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016: a prata nos 100 metros e o bronze nos 400 m. Um detalhe: amealhou os dois pódios no Brasil com o tumor na cabeça.

Bem-humorada, ela conta que até esqueceu disto durante a competição e só lembrou do abcesso quando recebeu uma mensagem do médico.

O tumor, que já havia sido curado no passado, voltou em 2013, mas foi tratado até 2017 com remédios. O tamanho, no entanto, cresceu consideravelmente e exigiu mais uma cirurgia. Em 2018, Verônica fez a terceira cirurgia e acabou por perder parte da hipófise, glândula localizada na base do cérebro. De atleta, ela passou a ser vista como uma paciente de tratamento neurológico e ficou um longo período afastada das pistas, em 2017 e 2018.

Sempre que pensava em regressar, algo lhe passava. Uma infecção ali e acolá, uma tromboflebite, caracterizada pela formação de coágulos sanguíneos nas veias, ou inflamação no rosto, uma broncopneumonia, uma falta de cortisol... Uma série de percalços.

Neste intervalo de tempo, a atleta apelidada carinhosamente de "Magrela" ganhou 16 kg devido à ingestão de corticóides prescritos pelos médicos. Aos poucos, vai regressando à forma ideal.

"As minhas recuperações foram rápidas, mas bem difíceis. Nesta de 2017 e 2018, eu fiquei quase dois anos sem treinar. Foi difícil física e psicologicamente pelas dores e por não saber o que iria acontecer comigo. Mas elas (as dores) são necessárias. Eu costumo sempre dizer, existe o problema e a solução. Todos nós, às vezes, temos a péssima mania de ficar olhando para o problema. Eu poderia só olhar para o tumor na cabeça, a cirurgia no intestino grosso ou o AVC. Ou poderia simplesmente agradecer por ter a solução, que é fazer a cirurgia, voltar a treinar e ficar boa" disse Verônica, sem nunca perder o bom humor.

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Ao longo dos dois anos em que esteve parada, a velocista admite ter caído em depressão. Graças ao apoio dos pais, ela fez do limão uma limonada e ressurgiu como uma fénix outra vez.

"Eu poderia ficar triste por ter tirado parte da hipófise de tantas cirurgias, mas fico feliz por ter remédios para repor. Eu poderia ficar triste pelo AVC, mas foi ele que me colocou no atleta paralímpico. Eu só tenho a agradecer. Tudo tem um porquê. E a gente pode fazer do limão uma limonada, um mousse de limão ou o que você quiser fazer", completou.

A paulista de São Bernardo do Campo começou cedo no desporto. Aos 10 anos, deu os primeiros passos no judo, mas um tumor no cérebro a impediu de seguir nos tatamis. Aos 13, passou pela primeira cirurgia na cabeça para a retirada do cancro. Ali, aprendeu a ser resiliente. E era só o início de um longo processo, como numa corrida de obstáculos.

Sem poder sofrer o impacto das quedas, ela não podia continuar no judo, mas continuou o caminho no atletismo. O desporto sempre fez parte de sua vida. A velocista já praticou de tudo um pouco: natação, ténis de mesa, ténis, futebol, pólo aquático, natação, karaté e capoeira.

Verônica Hipólito

Verônica Hipólito

Roberto Machado Noa/Getty Images

Em 2011, aos 15, um AVC provocou uma paralisia do lado direito de seu corpo. Verónica já se treinava com atletas sem deficiência e continuou nas pistas como atleta paralímpica. Não demorou a ser apontada como um prodígio.

"As coisas podem ser difíceis, muito difíceis, mas não impossíveis. E para quem se esforça tudo pode dar certo. A gente sempre fala isso em casa. Tem que se esforçar, tem que ser honesto, tem que ser humilde. E nada resiste ao trabalho", analisou a medalhada olímpica.

Verônica tinha 17 anos quando sagrou-se campeã mundial dos 200m em Lyon, na França. A intenção era defender o título no Mundial de Doha, em 2015, contudo, ela precisou de se submeter a outra cirurgia após os Parapan-Americanos de Toronto 2015, no Canadá. No Canadá, conquistou três ouros e uma prata.

Às vésperas do Mundial, cansada de se sentir fraca e com anemia, a campeã mundial fez exames e descobriu a existência de de mais de 200 pólipos no intestino grosso, e teve de tirar 90% do órgão para evitar um cancro maligno. Ela ficou somente com 10 cm do reto; contudo, leva uma vida normal. Embora tenha sido uma cirurgia delicada, Verônica recuperou depressa.

No ano seguinte, aos 20, estreou-se nas Olimpíadas. E provou ser tudo o que pensavam de si com a prata nos 100m, o bronze nos 400m e o oitavo lugar no salto em distância. O próximo desafio é estar apta para competir no Parapan de 2019, em Lima, no Peru, em agosto, e no próximo Mundial, no Dubai, em novembro deste ano. A atleta retomou os treinos esta semana na pista. Tudo dependerá da evolução e resposta aos estímulos, mas a ideia da comissão técnica é colocá-la cada vez mais na pista.

"Quero voltar a correr. Correr muito bem. Será dificílimo para alguém que ficou dois anos longe e não conseguiu completar um ciclo por causa das cirurgias e todos os "blábláblás". Mas o primeiro passo é acreditar que você consegue, ter mais confiança e traçar um planejamento. Estou com os pés no chão e vou trabalhar até o último dia para conseguir o índice para o Parapan e o Mundial. Eu acredito. Quem trabalha, em algum lugar chega. E, geralmente, são lugares bons. O calendário está curto, mas confio nos profissionais que estão comigo e estou muito confiante de que dará tudo certo", destacou Verônica.

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Fora de competição

A última pausa nos treinos também a fez expandir as fronteiras do conhecimento. Com olho para negócios e projectos, ela planeia retomar a faculdade de economia, cursar relações internacionais e abrir novas frentes de trabalho. Ajuda na área de comunicação e marketing do Centro de Treinamento Paraolímpico Brasileiro, em São Paulo, e tem auxiliado na organização de cursos de idiomas para os atletas.

Hoje, Verônica carrega sobre os ombros o peso de ser não só uma referência, como um dos principais nomes da nova geração do paradesporto brasileiro. Lida bem com a pressão e, apesar de jovem, amadureceu rápido. É o desporto que move Verônica, mas a sua curiosidade e os seus interesses vão muito além do atletismo. Além dos estudos, o que inclui também o projeto de mestrado e doutorado, Verônica quer aprender a cantar e a dançar. E a sensação é de quem ainda vem muito mais por aí.

"Eu canto no chuveiro maravilhosamente bem. Canto muito bem, tanto que meus pais volta e meia batem na porta a perguntando se alguém está morrendo... Acho legal cantar. Já cheguei a tocar teclado, mas hoje como eu não tenho toda a coordenação dos dedos da mão direita não consigo tocar muito bem. Quero aprender a tocar um violão, pelo menos. E acho muito bonito dança. Sempre quis aprender a dançar um pouco. Eu não consigo, sou muito dura. Mas vou tentar, Tentar o que vier pela frente. Vou entrar numa escola de dança e falar que quero começar a dançar. Por onde eu começo?".

Verônica Hipólito

Verônica Hipólito

Friedemann Vogel/Getty Images