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Perda de rim, rapto na infância, queimaduras e recorde nos Jogos Olímpicos: as voltas na vida do canoísta que entrou para a história

Da pequena cidade de Ubaitaba para o mundo, Isaquías Queiroz passou por incidentes que quase lhe tiraram a vida antes de se tornar o atleta brasileiro com mais medalhas numa edição dos Jogos Olímpicos. O canoísta teve parte do corpo queimado com água fervente e precisou de retirar um dos rins depois de uma hemorragia decorrente da queda de uma árvore. Ainda na infância, foi "sequestrado" e encontrado horas depois, a chorar, de fraldas, numa plantação de cacau. Começou na canoagem aos 11 anos e nunca mais parou

Carol Fontes

Isaquías Queiroz

Tom Pennington/Getty Images

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Maior medalhista do Brasil numa Olimpíada e um dos melhores do mundo numa modalidade sem tradição no país, o canoísta Isaquías Queiroz é uma agulha num palheiro. No Rio de Janeiro, em 2016, o brasileiro escreveu o seu nome na história do país ao conquistar três medalhas: a prata nas provas individual (C1) e em dupla (C2, com Erlon Souza) dos 1.000m e o bronze nos 200m. O caminho até ao topo da canoagem mundial, contudo, foi tortuoso. Entre as adversidades, o atleta passou pela pobreza, por queimaduras graves, por um rapto quando era criança e ainda teve de lidar com a perda um rim depois de cair de uma árvore.

Isaquías era um miúdo traquinas. Aos três anos, teve o primeiro de muitos percalços quando estava sozinho em casa com os cinco irmãos biológicos e quatro adotados. A mãe, que havia perdido o marido, trabalhava como empregada para sustentar os filhos. Para curar as dores de barriga de Isaquías, uma das irmãs preparava-se para dar-lhe um chá, quando ele esbarrou na panela com a água a ferver. As graves queimaduras deixaram-no internado em estado crítico por um mês.

Aos cinco anos, o rapaz assustou novamente "dona Dilma" ao ser "sequestrado". A mãe foi chamada com urgência ao colégio e, em seguida, informada de que os filhos estavam trancados em casa. Mas faltava um: Isaquías. Ficara horas desaparecido, até ser encontrado numa plantação de cacau, a chorar.

Outro incidente, dos mais graves, ocorreu quando ele tinha 10 anos. Ao ver uma cobra morta, Isaquías trepou por uma mangueira, perdeu o equilíbrio e caiu sobre uma pedra. Após uma hemorragia interna, ficou internado no hospital de uma cidade vizinha e teve de retirar um rim, facto que lhe rendeu a alcunha de "Sem-Rim".

Isaquías Queiroz

Isaquías Queiroz

Buda Mendes/Getty Images

Mas nem tudo foi mau. Em 2005, com 11 anos, foi descoberto por um "olheiro" enquanto remava no rio. Figueiroa Conceição percebeu o potencial do rapaz e convidou-o a fazer parte de um projeto social na sua terra natal. Ele era auxiliar de Jefferson Lacerda, que fez parte da primeira equipa olímpica do Brasil na canoagem, em Barcelona 1992. Lacerda também era monitor do "Segundo Tempo", iniciativa voltada para 200 crianças com poucas possibilidades financeiras.

Isaquías dividia-se entre os treinos e o trabalho numa feira no município de Ubaitaba, no interior da Bahia. Só deixou o comércio ao negociar com Lacerda um patrocínio de R$50, o equivalente a pouco mais de 11 euros. No lugar onde viviam os índios tupiniquins no passado, às margens do Rio das Contas, o baiano fez da água o seu habitat.

Ubaitaba saiu do ostracismo com os feitos de seu "menino de ouro". Uma cidade que carrega a canoa no nome: a sua origem vem da união dos termos indígenas ubá (canoa pequena), y (rio) e taba (aldeia). As remadas flutuaram como passatempo, meio de transporte e mudaram os rumos em 2013, quando Isaquías conquistou o seu primeiro título mundial, aos 19 anos.

Quem ajudou a semear as conquistas foi o treinador espanhol Jesus Morlán, que revolucionou a canoagem de velocidade do Brasil ao longo dos cinco anos em que esteve à frente da seleção, de 2013 a 2018.

Um dos melhores do mundo e responsável por treinar David Cal, o maior medalhista da história da Espanha em Olimpíadas, Morlán morreu em novembro do ano passado, vítima de um cancro no cérebro. Foram dois anos a lutar contra a doença, mas isso não o impediu de comandar a equipa e nem de estar presente nas duas últimas edições do Campeonato Mundial.

O espanhol iniciou o trabalho com os brasileiros numa altura em que o multicampeão era apenas uma esperança. Morlán percebeu a qualidade técnica dos canoístas e topou o desafio de treinar os rapazes em busca de bons resultados nos Jogos Olímpicos do Rio. Ele ensinou os jovens a controlar o ritmo, a poupar energia, a pensar as provas por etapas e a determinar um tempo a cada uma. A tática surtiu efeito. Além dos três pódios em Olimpíadas, conquistou 10 medalhas em Mundiais e deixou um legado para o desporto no país.

Isaquías Queiroz

Isaquías Queiroz

picture alliance/Getty Images

Hoje, Isaquías é tricampeão mundial no C1 500m (2013, 2014 e 2018) e soma cinco medalhas douradas na competição. A última de ouro na prova foi conquistada em Montemor-o-Velho, vila portuguesa no distrito de Coimbra, em agosto de 2018. Lá, ele também levou o ouro no C2 500m, ao lado de Erlon Souza, e o bronze no C1 1000m. Três medalhas em três provas.

O baiano ainda tem na coleção o ouro no C2 1000m, outra vez com Erlon, no Mundial de 2015, e mais quatro bronzes: no C1 1000m (2013 e 2017), no C1 200m (2015) e no C2 200m (2014). Aos 25 anos, o fenómeno da "cidade das canoas" ainda tem muitos capítulos em branco para preencher o seu livro de histórias.