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Brady vs. Goff, Belichick vs. McVay: porque é que o maior embate geracional da história do Super Bowl vai ser um jogo equilibrado

Os Patriots são veteranos e experientes, os Rams são jovens e de pêlo na venta. Esta noite, em Atlanta, na 53.ª edição do Super Bowl, Tom Brady poderá tornar-se no mais velho quarterback a vencer o título da NFL frente a uns Rams que têm como xerife em campo um rapaz 17 anos mais novo. E no banco um treinador com metade da idade do treinador da equipa de New England

Lídia Paralta Gomes

Adam Glanzman/Getty

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Fevereiro de 2002. Em Portugal, euros e escudos ainda coabitavam nas nossas carteiras. Luís Figo era o melhor jogador do Mundo para a FIFA e Roger Federer era um rapaz de 20 anos ainda à procura do seu primeiro grande troféu. Na cidadezinha de Novato, na Califórnia, um miúdo chamado Jared Goff ia a meio do 2.º ano de escolaridade. E em Nova Orleães outro californiano levava a sua equipa à primeira vitória no Super Bowl.

Esse jovem californiano tinha 24 anos, chama-se Tom Brady e este domingo, exatamente 17 anos após aquela vitória frente aos então St. Louis Rams, está de volta a um Super Bowl. Pela 9.ª vez. Do outro lado estarão de novo os Rams, agora de Los Angeles, e o tal garoto que ainda andava na escola primária em 2002, quando os portugueses ainda se debatiam com as taxas de conversão para a moeda única europeia.

É difícil encontrar maior embate de gerações que aquele que vamos assistir esta noite em Atlanta, no Mercedes Benz Stadium, palco da 53.ª edição do Super Bowl, a final da NFL, a maior liga de futebol americano do planeta. De um lado estarão os Patriots, os omnipresentes New England Patriots, a mais bem-sucedida equipa da NFL das duas últimas duas décadas, graças à dupla Tom Brady e Bill Belichick, o técnico que está na origem do virar de página da história do franceies. Do outro, uns Rams que após a final perdida para os Patriots em 2002 entraram em crise, para apenas recuperarem com o regresso a Los Angeles, em 2016, cidade que haviam deixado em 1994 para se transferirem para St. Louis.

No período em que os Rams se tentavam reerguer, os Patriots chegaram por nove vezes ao Super Bowl, das quais cinco acabaram em título. Tom Brady tornou-se numa estrela planetária, um misto de talento sobrenatural, frieza e looks que nem sempre agrada aos seus conterrâneos, mas que o colocou na linha da frente para o estatuto de melhor de sempre do futebol americano, talvez algo mais, porque não há muitos 41-year-olds em qualquer que seja a modalidade a lutar por campeonatos com o mesmo descaramento de um garoto à procura dos primeiros sucessos.

Como Goff, por exemplo. Aos 24 anos, exatamente a mesma idade que tinha Brady quando jogou (e ganhou) o seu primeiro Super Bowl, o quarterback titular dos Los Angeles Rams tornou-se no n.º 1 de draft na sua posição a chegar mais rapidamente à final da NFL - foi o primeiro a ser chamado em 2016 - e é uma espécie de espelho de uma equipa jovem e irreverente, à procura de um segundo titulo nesta era do Super Bowl, depois do conquistado há 20 anos.

Um abismo de diferenças

Entre Brady e Goff há 17 anos de diferença, a maior diferença de sempre entre dois quarterbacks titulares num Super Bowl. Em caso de vitória, a lenda de Brady tornar-se-á ainda mais surreal. Ele que já é o quarterback com mais títulos na NFL (5, em 2002, 2004, 2005, 2015 e 2017), será o jogador da história com mais anéis de campeão, ultrapassando definitivamente Charles Haley e o quarterback mais velho de sempre a ganhar um título. E com estes números, tudo é incomparável quando do outro lado está um miúdo que ainda há três anos jogava na universidade.

Brady-Belichick, uma parceria que já valeu cinco títulos

Brady-Belichick, uma parceria que já valeu cinco títulos

Jim Rogash/Getty

Mas maiores ainda são as diferenças entre os homens que os comandam. Aos 66 anos, Bill Belichick pode tornar-se no treinador mais velho a vencer o Super Bowl. Juntos nos Patriots, Brady e Belichick criaram uma parceria dominadora, num desporto em que as dinastias são raríssimas porque a competitividade é imensa. As nove presenças no jogo decisivo da temporada ultrapassam largamente as presenças dos jogadores dos Rams no Super Bowl. Todos juntos.

A comandar o banco dos Rams estará Sean McVay. Em 2002, quando Brady e Belichick levantavam a primeira taça de campeões da NFL, McVay era um rapaz de 16 anos que não sabia ainda se haveria de ser quarterback ou wide receiver - escolheu ser quarterback, mas a sua carreira não duraria muito: ele era bom era a dirigir equipas e em 2017, com apenas 30 anos, tornou-se no mais jovem treinador principal da NFL. Agora, poucos dias depois de completar 33 anos, já é o mais jovem a liderar uma equipa no Super Bowl.

Sean McVay, a mais recente mastermind dos bancos do futebol americano, tem precisamente metade da idade de Belichick - aliás, quando McVay nasceu já Belichick treinava na NFL. A guerra entre a experiência dos Patriots e o atrevimento dos jovens Rams será imprevisível. É o que dizem as casas de apostas, que dão uma ligeira vantagem aos Patriots. E os os especialistas que estarão a comentar noite fora o espetáculo desportivo com mais audiência do planeta.

Decisão nos pormenores

"Todos os anos há uma data de gente, eu incluído, que em setembro e outubro duvida dos Patriots, ali em novembro começa a mudar de opinião e em dezembro já está de boca aberta a dizer 'OK, isto é a sério, eles vão voltar'". Duarte Carreira é um dos comentadores da NFL na Eleven Sports, que este domingo, a partir das 23 horas vai transmitir o Super Bowl (com a curiosidade do canal 2 da Eleven Sports transmitir a versão original norte-americana, da CBS). O antigo presidente da Associação Portuguesa de Futebol Americano é um dos muitos que já percebeu que não se pode nunca descartar os New England Patriots para a discussão do título, mesmo em anos em que parecem mais fragilizados.

Aos 24 anos, Jared Goff será o quarterback titular dos Rams no Super Bowl - tem menos 17 que Brady

Aos 24 anos, Jared Goff será o quarterback titular dos Rams no Super Bowl - tem menos 17 que Brady

Adam Glanzman/Getty

A temporada de 2018 foi uma dessas épocas em que os Patriots arrancaram mal, com muitas saídas e rumores de que a relação entre Brady e Belichick já não era o que era. Mas foram crescendo e nos playoffs estiveram intratáveis. "Olhamos para a época e tiveram mais derrotas do que o habitual, cinco, mas a experiência de Tom Brady e de Bill Belichick é o toque de caixa daquela organização"

"Os Patriots tinham uma equipa muito boa em várias posições no ano passado, há dois anos também. Este ano não foi nada disso, tiveram imensas lesões, houve muitos jogadores a sair, na defesa há um ou dois elementos muito bons, mas não são estrelas", explica-nos Duarte Carreira, que desmistifica também a ideia de que os Patriots sempre beneficiaram por estarem numa divisão e conferência sem rivais à altura. "Mentira: este ano apareceram os Chargers, os Chiefs, os próprios Colts. E antes disso tinham o Peyton Manning nos Broncos. Este ano a conferência foi super competitiva e estão no Super Bowl porque são a equipa mais profissional da NFL".

Ao que Duarte Carreira chama de profissionalismo, o seu colega de cabine apelida de resiliência. "Eles têm uma capacidade impar de se manterem focados no seu trabalho e não se deixarem influenciar por questões externas. É uma capacidade criada pelo treinador, que consegue blindar a equipa", explica-nos André Amorim, atual selecionador nacional e também comentador na Eleven Sports, referindo-se à animosidade que boa parte dos americanos sente pelos Patriots. "Ninguém gosta de quem ganha sempre", comenta.

A experiência de Brady e dos próprios Patriots é um plus num palco tão exigente como é o Super Bowl, mas tanto Duarte Carreira como André Amorim acreditam que a final deste domingo será muito equilibrada e decidida nos pormenores.

"No Super Bowl é 50-50. Eu acho que os Rams têm melhores jogadores face aos Patriots em determinadas posições, quer na defesa, quer no ataque. Ainda assim, a experiência dos Patriots e o caminho que eles fazem em dezembro e janeiro faz-me dizer que o melhor é não apostar um cêntimo em quem é que vai ganhar", diz Carreira, explicando que a irreverência que Sean McVay levou para os Rams também traz alguns dissabores. "E eu acho que o Bill Belichick é a pessoa perfeita para colocar à prova essas falhas que o McVay pode ter - que são normais num treinador de 33 anos".

Sean McVay: nunca um treinador havia chegado tão novo ao Super Bowl

Sean McVay: nunca um treinador havia chegado tão novo ao Super Bowl

MediaNews Group/Pasadena Star-Ne

Nas contas entre a experiência dos veteranos e a vivacidade de uma equipa mais jovem, André Amorim lembra que há 17 anos "Tom Brady estava exatamente do outro lado" da barricada. Ou seja, era o quarterback a estrear-se nos grandes palcos, face a uma equipa dos Rams liderada pelo muito tarimbado QB Kurt Warner. E saiu por cima. "A inexperiência do Goff poderá fazer sentir-se em algum momento, mas estou muito curioso em perceber como é que o Sean McVay, que é muito hábil a tirar o melhor partido dos seus jogadores, vai tentar contornar esse momento do jogo em que a inexperiência se vai fazer sentir".

Quanto a prognósticos, Duarte Carreira prefere não arriscar. Já André Amorim acredita que este é um daqueles jogos equilibrados, decididos "nos detalhes" e em que "aparece um herói improvável, um jogador que não é uma referência na equipa e que de um momento para o outro faz um jogo extraordinário".

E quem poderão ser esses desconhecidos heróis de armadura e capacete? "Do lado dos Rams, o tight end Gerald Everett. E nos Patriots o receiver Chris Hogan", arrisca o selecionador nacional, que aposta ainda num "24-21 para os Rams".