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McGregor: destemido, lutador, fala-barato, milionário

Bastou um tweet: horas depois de aparecer num programa de televisão norte-americano a falar das negociações para aquele que seria o seu próximo combate, Conor McGregor anunciou a retirada imediata das artes marciais mistas. Em 2016 fez o mesmo, mas quatro meses depois já estava de novo no octógono. Desta vez é para valer?

Lídia Paralta Gomes

Brandon Magnus/Zuffa LLC/Getty

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“Decidi retirar-me cedo. Obrigada pelo guito. Até à vista”.

Esta é a tradução mais ou menos livre de um tweet de Conor McGregor. Escrito não esta terça-feira, mas há três anos, a 19 de abril de 2016. Curiosamente, também foi a uma terça-feira.

O tweet, críptico, deixou os desportos de combate em suspenso, mas a resposta do treinador do irlandês, John Kavanagh, parecia confirmar que McGregor estava de saída. “Foi bom enquanto durou”, escreveu.

Tudo aconteceu um mês depois de McGregor sofrer a primeira derrota no UFC, frente a Nate Diaz, e uma semana após a morte do português João Carvalho num combate de MMA em Dublin. McGregor estava na bancada.

Acontece que nesse dia 19 de abril de 2016, McGregor e Diaz já tinham negociado a desforra, que até já tinha data marcada: 9 de julho desse mesmo ano. O combate não aconteceu a 9 de julho, mas deu-se a 20 de agosto.

A “retirada” de Conor McGregor durou quatro meses e num desporto em que, talvez mais do que qualquer outro, o que hoje é verdade, amanhã é mentira, não faltaram acusações de que tudo não tinha passado de uma manobra para McGregor e Diaz renegociarem o combate e ganharem mais uns milhões.

De 2016 para 2019, a história não é assim tão diferente. Poucas horas após surgir no programa “The Tonight Show”, em que falou com Jimmy Fallon da sua nova marca de whiskey - e de como o negócio o está a absorver - e dos planos próximos para voltar ao octógono, McGregor, de 30 anos, lançou a bomba, de novo nas redes sociais.

“Olá pessoal. Um rápido anúncio: decidi hoje retirar-me do desporto antes conhecido por Artes Marciais Mistas. Desejo o bem a todos os meus antigos colegas que continuam na competição. Agora, junto-me aos meus antigos sócios nesta aventura, já na reforma”, escreveu, poucas horas depois vários tweets e retweets sobre a sua nova empresa, a destilaria de whiskey Proper n.º Twelve, ou não fosse ele um proper irlandês.

Por "sócios" leia-se Lorenzo e Frank Fertitta, que chegaram a ter uma fatia do UFC, a mais importante promotora de combates de MMA, da qual McGregor é uma das principais caras. E ele trata-os por "antigos sócios" porque uma das suas lutas com a organização prende-se com o facto do irlandês não querer ser um mero lutador: em finais de 2016, após juntar os títulos de peso-leve e peso-pluma, exigiu que a organização fizesse dele não apenas um empregado, mas sim alguém com quotas na empresa. Tal não chegou a acontecer e esse é também um dos factores de descontentamento de McGregor.

Bluff ou mais que isso?

Durante a conversa com o talk show host norte-americano Jimmy Fallon, McGregor falou dos treinos que tem realizado, com o objetivo de voltar a combater, ele que está parado desde outubro de 2018, quando perdeu com o russo Khabib Nurmagomedov. Após o combate, McGregor e a equipa de Nurmagomedov envolveram-se em confrontos, com a UFC a suspender McGregor por seis meses e Nurmagomedov por nove.

Os arrufos entre McGregor e a UFC multiplicaram-se nos últimos anos

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Michael Reaves

“O meu próximo combate? Estamos em negociações para julho. Vamos ver o que acontece, há muita política a acontecer. Os desportos de combate são um jogo louco, mas eu estou pronto”, disse no programa.

Nas redes sociais, McGregor tem publicado várias fotos a treinar-se nos Estados Unidos, pelo que o anúncio da retirada apanhou toda a gente de surpresa.

Todos menos, talvez, Dana White, presidente da UFC, com quem tido recorrentes arrufos.

“Ele tem dinheiro para se retirar e o whiskey dele está a rebentar tudo. Faz todo o sentido. Se eu fosse ele também me retirava”, disse White em declarações reproduzidas pela Reuters.

“Ele fez coisas incríveis neste desporto, fico muito feliz por ele e fico à espera de o ver a ser tão bem-sucedido fora do octógono como foi dentro dele”, continuou.

Caso se confirme a retirada, McGregor deixa o MMA com um registo de 21 vitórias e 4 derrotas. Mas depois do que aconteceu em 2016, é ver para crer: a possibilidade de McGregor estar mais uma vez a tentar capitalizar um possível afastamento, obrigando os promotores dos combates a abrir ainda mais a bolsa para o retirar da suposta reforma, não é totalmente descabida.

Floyd Mayweather bateu Conor McGregor em 2017. Desforra à vista?

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Mark J. Rebilas

Numa recente entrevista à Reuters, McGregor, conhecido por ser um provocador e fala-barato, gabou-se de ter ganho 125 milhões de euros no combate de boxe frente a Floyd Mayweather (outro especialista no “retiro-me/vou voltar”) e de querer ser mais rico que Cristiano Ronaldo. E abandonar assim a competição, aos 30 anos, significa deixar de ganhar os milhões que cada combate gera.

A menos que esteja na mira do irlandês passar para outra disciplina, como a WWE. Ou então um novo combate de boxe com Floyd Mayweather, rematch que nenhum dos lutadores colocou de parte nos últimos meses, depois do duelo de agosto de 2017 ter acabado com uma vitória para o norte-americano, vencedor por KO técnico ao 10.º assalto.