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A mão impossível de Jim Abbott

Fez carreira na Major League Baseball, ganhou os Jogos Olímpicos e assinou o oitavo no-hitter em 90 anos de história dos Yankees. Jim Abbott estreou-se exatamente há 30 anos e a sua história ficou na história

Hugo Tavares da Silva

Jed Jacobsohn/Getty Images

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Abbott: Not a Hit, Not a Run, Not a Doubt

Foi assim que o “New York Times” ressacou na melhor tarde da vida do pitcher Jim Abbott, o pitcher. Foi na residência eterna de Babe Ruth, o Yankee Stadium, que atraía as nuvens naquele 4 de setembro de 1993: Abbott conseguiu um no-hitter contra os Cleveland Indians. Ou seja, não permitiu qualquer pancada nos nove innings que disputou, algo que não se via um Yankee fazer desde julho de 1983 (Dave Righetti). Era apenas a oitava vez que acontecia em 90 anos de história dos Yankees. Abbott tinha 25 anos.

E tinha apenas uma mão.

Esta é uma história sobre paixão. Claro que, pelo meio, há momentos de descoberta, derrota e superação. Afinal, nascer sem a mão direita nunca seria um trunfo. Abbott não foi o que foi por isso, mas sim apesar disso. Desde pequeno que era apaixonado por beisebol; o pai, que jogou basquetebol e futebol americano na secundária, aceitou o desvio e, num certo dia, foi à mercearia comprar ao pequeno James Anthony uma luva de plástico rasca. O sentimento por aquele desporto ganhou forma no jardim da casa dos Abbott.

E a técnica, também.

Uma parede de tijolo começou a explicar-lhe, num singelo ato, algumas coisas sobre a vida. Quanto mais qualidade apresentasse o seu lançamento, mais interessante seria a resposta. O tijolo dizia-lhe assim que, se fosse bom, jogaria com os melhores. Mas o maior desafio, pelo menos naquela altura, passava pelo bailado da luva. Jim lançava e recebia com a mesma mão. A mão esquerda teria de caçar e cozinhar. A luva de couro descansava na mão ausente, a mesma que lhe complicou a vida entre pares nos tempos da miudagem; depois de lançar, juntava a luva ao corpo e, rapidamente, enfiava lá a mão esquerda, pronta para agarrar qualquer eventualidade.

E repetia. E repetia…

David Madison

Jim Abbott nasceu em Flint, Michigan, no dia 19 de setembro de 1967. “Não me lembro mesmo de me aperceber que tinha uma deficiência”, explicava nesta entrevista. “Provavelmente, começou a ser mais aparente para mim quando fui para a escola, ao misturar-me com os outros miúdos nesses ambientes, lidando com as provocações no recreio, com as perguntas e os olhares desconfortáveis.” A paixão pelo jogo foi afastando qualquer fantasma: “Eu queria mesmo jogar beisebol”.

Para além do desporto que o encantava, Abbott revelou-se ainda um quarterback de qualidade durante o liceu. Mas o futuro jogar-se-ia com a bola traiçoeira que não chega aos 150 gramas. Em 1985, foi escolhido no draft pelos Toronto Blue Jays, na 36.ª ronda. Acabou por não assinar contrato e seguiu a vida na Universidade do Michigan.

Apesar de manter o amadorismo no rótulo, Jim Abbott começou a ganhar a atenção dos holofotes e, em 1987, foi o porta-estandarte dos Estados Unidos nos Jogos Pan-Americanos. Um ano depois, subiu ao lugar mais alto do pódio nos Jogos Olímpicos de Seul: a canhota de Jim derrubou os japoneses e mudou o fado do jogo que imitou a final olímpica de 1984, em Los Angeles.

Seul 88

Seul 88

Bettmann

Nesse mesmo ano, em 2988, o pitcher de ouro foi escolhido novamente no draft, desta vez na primeira ronda, pelos California Angels. A Major League Baseball seria, finalmente, uma realidade. O menino que outrora desafiou o muro de tijolo ia lançar para os maiores - e tornar-se-ia grande.

Aquele tique de girar a bola na canhota, nos segundos prévios ao movimento urgente e explosivo, teria de esperar cerca de um ano. A estreia de Jim Abbott aconteceu há exatamente 30 anos, a 8 de abril de 1989, contra os Seattle Mariners. “Abbott is shaky in Angels’ debut”, escrevia no dia seguinte o “New York Times”, revelando alguma instabilidade por parte do pitcher estreante - “Abbott transformou-se no 10.º pitcher a fazer uma estreia profissional nas big leagues desde 1965”. O diário norte-americano dava conta de 9 strikes em 15 pitches para o jovem de Michigan, revelando ainda que este estava a trabalhar numa qualquer bola rápida. “A sua habilidade com uma mão não foi testada no inning.”

“A carreira de Abbott na MLB tinha uma limitação”, explica este artigo do É Desporto. “A competição está dividida em duas ligas: a Americana e a Nacional. Se na primeira, os lançadores só têm de se preocupar em lançar, na segunda passam também pela rotação de batedores. Por isso, e apesar de haver testemunhos que garantem que se safava muito bem com um taco, [Abbott] fez toda a carreira na Liga Americana, à exceção da temporada em que representou os Milwaukee Brewers em 1999. Nessa temporada foi 24 vezes à base para bater e conseguiu dois hits.”

David Madison

Em 1992, mudou-se para os New York Yankees, numa troca com J. T. Snow, Jerry Nielsen e Russ Springer. Seguiram-se no currículo Chicago White Sox, um regresso aos California Angels, mais uma passagem pelos White Sox e um ponto final nos Milwaukee Brewers, em 99.

No total, foram 10 anos com quatro camisolas (87 vitórias em 263 jogos, com uma média de 4,25 pontos permitidos por nove innings disputados), sendo que o ponto alto talvez tenha sido a temporada de 91, em que venceu 18 jogos e registou um ERA (pontos permitidos por nove innings jogados) de 2,89.

Quando pendurou a luva pela última vez e descansou aquele poderoso braço esquerdo, Jim Abbott começou a participar em várias iniciativas governamentais para sensibilizar empresas e empresários a contratarem funcionários com deficiência. Para além disso, transformou-se numa inspiração para outros, em palestras motivacionais.

Ron Vesely

As caixas de correio de Abbott acumulavam cartas com narrativas épicas e mensagens de gratidão. Talvez por isso, o homem que hoje em dia vive na Califórnia com a mulher, dois filhos e um cão, tenha escrito uma autobiografia (“Imperfeito: Uma Vida Improvável”), em 2012.

“A [questão da] minha mão estava lá, estava sempre lá”, pode ouvir-se no trailer do livro. “Reconhecendo-o ou não, era uma parte do que eu era. Acho que nunca percebi a influência disso em mim, principalmente quando era mais novo, mas acho que simplesmente amava desporto. A atração pelo desporto, apercebi-me à medida que ia ficando mais velho, talvez tenha tido a ver com a ideia de me integrar, de querer estar numa equipa. (...) Depois, tens os colegas à tua volta; lanças o primeiro pitch, o árbitro declara o strike e apercebes-te que é possível, que pode acontecer…”

Basta recuperar a divisa que norteou a sua caminhada: “Encontra algo que ames e vai atrás disso com todo o teu coração.”

Jim Abbott não ganhou nenhum troféu. Ganhou um lugar na história.