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Ele subiu ao Evereste e faz um pedido: tenham cuidado ao dizer que as filas é que estão a matar gente

Foi uma temporada particularmente trágica, a desta primavera, no Monte Evereste. Morreram onze pessoas, mais do que nos últimos quatro anos. Culpam-se as filas de alpinistas “sem experiência” e preparação e assim se criticam os operadores turísticos, que levam “qualquer um” a subir a montanha, e o Governo nepalês, que concedeu este ano um número dito recorde de licenças. Rui Silva, alpinista português que já subiu a algumas das mais altas montanhas do mundo, esteve lá, esperou nas filas e alcançou o cume - e conta como foi

Helena Bento

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Das fotografias tiradas no Monte Evereste nestes últimos dias de maio por alpinistas e divulgadas pela imprensa internacional quando começaram a surgir as primeiras notícias sobre o número de mortos quase sem precedentes na montanha no Nepal, houve uma que se tornou particularmente conhecida. Nela veem-se dezenas de pessoas alinhadas, umas atrás das outras, percorrendo um caminho aparentemente estreito numa das dobras cobertas de gelo da montanha. “Eu devo aparecer nessa fotografia, se vir um pontinho vermelho devo ser eu”, diz ao Expresso Rui Silva, que pratica alpinismo por hobby mas já subiu a algumas das maiores montanhas do mundo, incluindo Kilimanjaro, Monte Elbrus (Europa) e Aconcágua (América do Sul), e acaba de regressar a Lisboa vindo de Nepal. Depois da conversa, haveríamos de voltar à fotografia para perceber que nos foi sugerida uma tarefa praticamente impossível — é que a maioria das pessoas que ali aparece veste precisamente vermelho.

Foi uma temporada particularmente trágica, a desta primavera, no Monte Evereste, e a BBC apresentou uma comparação que ajuda a perceber a dimensão do que aconteceu — se nas últimas duas décadas morreram, em média, seis alpinistas por ano, na última temporada de escalada da montanha, considerada uma das mais mortais de sempre e já oficialmente encerrada, morreram 11 alpinistas. A imprensa internacional ainda não largou o assunto e continua a tentar perceber estas mortes e a explicá-las com a inexperiência tanto dos alpinistas como dos operadores turísticos e dos seus guias, ávidos, uns e outros, de subir a montanha, uns por gana e deslumbramento e outros por dinheiro. E por falar em dinheiro, o Governo também tem sido criticado por ter concedido mais licenças a alpinistas do que em qualquer outro ano para manter à tona aquela que é uma das principais indústrias do país.

Foram 380, apenas mais dez do que no ano passado, na verdade, diz desde logo Rui Silva, e ao dizê-lo acaba por revelar a sua opinião sobre o assunto, sobre os alegados interesses económicos do governo e das operadoras turísticas que, segundo muitos, acabam por se sobrepor a tudo o resto, incluindo à vida daqueles que sobem a montanha. “É comum, seja onde for, tentar arranjar-se um culpado ao invés de se resolver o problema e acho que isso está a acontecer muito com o Evereste. O Nepal é um país muito pobre, que vive sobretudo do turismo de trekking e de caminhadas. Fala-se há algum tempo da possibilidade de restringir as licenças mas não acho que seja uma solução fácil ou sequer a solução. O país precisa de dinheiro”, diz Rui Silva, lançando números que sabe serem expressivos. “Cada pessoa paga ao Governo 11 mil euros por licença e este ano o negócio gerou cerca de cinco milhões de dólares.”

Vista do chamado Campo Base no Monte Evereste. Cada pessoa dormia numa das tendas vermelhas, explicou Rui Silva

Vista do chamado Campo Base no Monte Evereste. Cada pessoa dormia numa das tendas vermelhas, explicou Rui Silva

Empresas low-cost “não fazem uma triagem e não se preocupam tanto se os clientes têm ou não a experiência necessária”

Mais “interessante” para Rui Silva é a discussão em torno dos operadores turísticos. Entraram recentemente no mercado vários operadores low-cost que supostamente têm negligenciado as questões de segurança e têm-se disponibilizado para ajudar a chegar ao topo de montanha mesmo os que têm menos experiência e preparação. É uma visão com que Rui Silva, que se preparou durante três anos para a subida de há dias e a quem foi exigido o seu currículo de montanha, concorda: “No geral, não acho que se deva restringir o acesso à montanha porque as pessoas têm o direito de tentar subi-la, mas deve-se garantir que as pessoas o fazem em condições de segurança”. As empresas low-cost, continua, “empresas que são sobretudo nepalesas, chinesas e indianas, pedem 20 ou 30 mil dólares, que é o valor mais baixo pelo qual se consegue subir”. “Não fazem uma triagem e não se preocupam tanto se os clientes têm ou não a experiência necessária. E são normalmente os clientes dessas empresas que acabam por morrer.” É “preciso atuar aí” e é preciso porque “são os alpinistas inexperientes que não só colocam a sua vida em risco como a dos outros, e causam filas, e não têm a destreza para se mover neste tipo de condições”.

As filas, as filas, por isso morreram tantos alpinistas na montanha, disseram vários alpinistas entrevistados pela imprensa internacional. Mas para Rui Silva não é assim tão claro. “Esperei mais para subir do que o que se espera normalmente, normalmente espera-se meia hora à subida e meia à descida, eu esperei uma para subir e duas para descer, mas dizer que morreram por causa das filas acho que é especulativo”. E é especulativo “porque há muitas razões para as pessoas morrerem no Evereste, sendo a principal a exaustão”. “As pessoas ganham a chamada ‘febre do cume’ e dão o que têm e não têm para subir. Testemunhei um bocadinho isso, vi pessoas a chegarem ao cume como se tivessem acabado de correr uma maratona e caíssem prostrados no chão sem forças.” É à descida, diz Rui Silva, que muitas acabam por morrer. “Dão tudo na subida e depois não têm forças para descer. Acontece muitas vezes descerem e sentarem-se no chão e já não se levantarem. Morrem ali, simplesmente.”

Rui Silva pratica alpinismo por hobby mas já subiu a algumas das mais altas montanhas do mundo, como Kilimanjaro.

Rui Silva pratica alpinismo por hobby mas já subiu a algumas das mais altas montanhas do mundo, como Kilimanjaro.

Associada à exaustão está muitas vezes a hipotermia e a falta de oxigénio e, bom, tudo o resto. “Acima dos oito mil metros, quase tudo mata. O corpo está sempre em défice acima dessa altitude, está sempre a morrer. É preciso estar ativo, porque aí aquele dito popular do ‘parar é morrer’ é literalmente verdade.” As filas, claro, não ajudam (“não dá para ultrapassar, o caminho que eu apareço a percorrer nessa tal fotografia tem uns 50 cm de largura e ao lado um abismo de dois mil metros), e não ajudam também por causa do oxigénio que houve quem dissesse ter escasseado nas garrafas de alpinistas que viriam a morrer. “Daquilo que sei, algumas mortes aconteceram por causa disso, sim. Em vez de três garrafas de oxigénio, que é o normal, essas empresas possivelmente fornecem menos, duas, e se duas até podem ser suficientes numa situação normal, deixam de o ser nestas situações de longas esperas.”

As declarações enviadas ao Expresso pela Associação dos Operadores e Expedições do Nepal, e assinado pelo seu presidente, Damber Parajuli, nada referem sobre esta questão, apenas se afirmando aí que as notícias sobre o número de mortos no Evereste “são um retrato ambíguo do que realmente aconteceu” na última temporada. Os alpinistas, diz Damber Parajuli, estão perfeitamente a par dos riscos que correm ao subir a montanha, “riscos que incluem a doença de altitude, exaustão e desastres naturais”, embora admita que há alpinistas sem experiência a arriscar a subida e responsáveis por causar congestionamentos. Haver “apenas um caminho para chegar ao topo” também não ajuda. Mas a principal razão para as filas, aliás, a “razão lógica”, tem que ver com as condições climáticas, diz o diretor, referindo-se à janela temporal durante a qual é possível trilhar a montanha e que este ano se revelou, de facto, muito curta.

Muitos dos artigos sobre as mortes no Monte Evereste têm títulos que sugerem momentos pânico e confusão (“Parecia um jardim zoológico”, titulava o “New York Times”, citando um alpinista atarantado com o que se passou à sua volta) e de alguma guerrilha entre alpinistas temendo quedas ou falta de oxigénio, mas a experiência de Rui Silva foi diferente. “Não vi ninguém aos atropelos ou aos empurrões. Houve momentos da descida mais congestionados mas as pessoas estavam bem e à espera, de forma ordeira e calma, da sua vez.” Mas que o ambiente lá em cima às vezes se pode tornar “hostil”, pode. “Não vou dizer que é a lei da selva, do salve-se quem puder, mas é verdade que acima dos oito mil metros também não existe muita solidariedade”. Nem pode existir — “tentar ajudar pode comprometer ambas as partes”. A esse propósito, Damber Parajuli refere que hoje em dia o alpinismo enquanto desporto encontra-se “fragmentado”, havendo “numerosos praticamente que estão excessivamente centrados em chegar ao topo”, ambição que, com o tempo, se tornou cada vez mais “individualista”.