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Corre, português, corre. E que rápido corre ele

O estudo “The State of Running 2019” analisou mais de 107,9 milhões de resultados de corridas de atletas recreativos em mais de 70 mil eventos ocorridos entre 1986 e 2018. Foram mais de oito meses de pesquisa que trouxeram resultados surpreendentes: em 2016, 9,1 milhões de atletas terminaram provas, face aos menos de 2 milhões em 2001, as motivações para começar a correr alteraram-se completamente nas últimas décadas, já há mais mulheres do que homens a correr e que Portugal é um dos países com os runners mais rápidos: somos os terceiros na maratona e nas corridas de 10 quilómetros

Lídia Paralta Gomes

CityFiles/Getty

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Em 2012, João Catalão era um despreocupado jovem de 26 anos. Até ao dia em que, depois de jantar, sentou-se no sofá, olhou para a camisa e percebeu que os botões estavam prestes a rebentar. “Essa imagem fez com que se desse um clique. Pesava 83 quilos na altura, era sedentário, comia bastante mal, não tinha cuidados com exercício físico, dormia poucas horas… portanto, fazia tudo aquilo que não se deve fazer, ainda para mais sendo jovem”. No dia seguinte, João tomou medidas: inscreveu-se num ginásio, começou a frequentar aulas de exercícios de alta intensidade em grupo. Em setembro desse mesmo ano, fez a primeira corrida. “Era uma corrida de 10 quilómetros. Foi um desafio lançado por dois amigos: fomos os três, cada um no seu ritmo”, conta.

João acabou a prova em 51 minutos. “Terminei todo rebentado, porque não fiz muitos treinos”, relembra. Mas apesar do cansaço e do esforço, nasceu ali uma paixão: daí para cá, nunca mais parou de correr.

Um ano e meio depois daquele dia em que João se viu obrigado a pensar não com os seus botões, mas por causa dos seus botões, já tinha perdido 23 quilos. “Sou osteopata e na altura trabalhava com alguns atletas que começaram a convidar-me para fazer parte de treinos e posteriormente de algumas corridas. E a verdade é que aquele companheirismo que se criou e o feedback que me foram dando deu resultado: eles perceberam que a corrida, em conjunto com o ginásio, estava a fazer com que eu perdesse peso”.

Depois de chegar ao objetivo dos 60 quilos, João Catalão mudou a sua motivação. “Passou a ter um contexto auto-competitivo, ou seja, ia para as corridas com a esperança de melhorar os meus tempos, superar-me. Comecei a aumentar as distâncias, passei para as meias-maratonas e posteriormente para as maratonas. Fiz a primeira maratona em 2014, no Porto, e com um bom resultado para uma primeira vez, 3 horas e 1 minuto”. Hoje já tem oito no currículo.

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João Catalão, de 33 anos, é um de milhares de portugueses que tem na corrida a sua atividade física principal. E é um que ajuda Portugal a estar no pódio dos runners mais rápidos na distância da maratona.

Em 2016, houve 9,1 milhões de atletas recreativos a acabar corridas em todo o Mundo - em 2001, eram menos de 2 milhões. Estes são números do estudo “The State of Running 2019”, iniciativa da IAAF, a federação internacional de atletismo, com o site RunRepeat.com, dedicado ao running. O estudo, liderado pelo dinamarquês Jens Jakob Andersen, investigador, antigo atleta e fundador do RunRepeat.com, analisou 107,9 milhões de resultados de corridas em mais de 70 mil eventos ocorridos entre 1986 e 2018, naquela que é a mais ampla análise alguma vez feita sobre o running, ou seja, a corrida social, onde não estão incluídos atletas profissionais.

Cada vez mais atletas, cada vez mais lentos

O enorme pulo de popularidade e de participação em corridas sociais faz com que o running seja hoje completamente diferente do que era em 1986, ano que marca o início da análise do estudo “The State of Running 2019”.

“Há 33 anos, só os nerds corriam, aqueles que eram os verdadeiros apaixonados pela corrida”, diz à Tribuna Expresso Jens Jakob Andersen, que liderou uma equipa de cinco elementos que em oito meses conseguiu reunir dados onde cabem runners de 193 países do Mundo. O dinamarquês chegou a ser atleta de competição, destacando-se a nível regional no seu país. Hoje, é mais um a engrossar o grupo dos corredores recreativos. “Agora a corrida é um desporto para todos, o que é fantástico. É muito mais acessível e quanto mais pessoas fizerem desporto, mais saudáveis serão os países”, continua.

Olhando para o caso português, João Catalão sugere que analisemos o número de atletas que terminaram a Maratona do Porto, nos últimos 15 anos. Em 2004, foram pouco mais de 300. Em 2012, o número já estava nos 1671 atletas e na última edição 4534 pessoas cruzaram a linha de meta da prova.

Sergei Bobylev/Getty

“Antigamente, os atletas viam na corrida uma forma de subsistência. Eram poucos os que corriam bem e o correr bem em Portugal era bem pago”, diz Catalão. Hoje, as motivações são outras e João é um bom exemplo disso: o processo de se dedicar à corrida começou por ser uma forma de melhorar a saúde e a imagem e só depois passou a ter um cariz mais competitivo, de auto-superação.

Tendo como base um estudo conjunto de investigadores do Wingate Institute de Israel e da Universidade de Florida State, nos Estados Unidos, no “The State of Running 2019” podemos ler que, face aos anos 80 e 90, a questão competitiva passou a ocupar um espaço residual nas motivações para um cidadão comum começar a correr. À frente estão questões de auto-estima, de superação de emoções negativas. Depois, a parte social, a vontade de conhecer novas pessoas, seguido de questões de saúde e de perda de peso. Só então surgem os objetivos pessoais e a competição.

“Quem olha para a corrida hoje em dia olha mais para a questão da saúde, do convívio, da auto-estima, porque há muita gente que procura ver a sua imagem melhorada. Há pessoas que, por exemplo, ficaram desempregadas e ocupam o seu tempo com a corrida. A corrida é muito fácil, basta comprar um par de ténis, uma t-shirt e uns calções e em qualquer lado se faz uma corrida. Acaba por ser mais agregador que outra modalidade”, diz-nos João Catalão.

A mudança nas motivações, de mãos dadas com o facto da corrida ser o mais democrático e acessível dos desportos em termos de material, explica o aumento de participação e, por sua vez, o aumento de participação justifica a razão de os runners nunca terem sido tão lentos, outra das conclusões do “The State of Running”: em 1986, o tempo médio na meta na maratona era de 3:52.35 horas, hoje é de 4:32.49, portanto 40 minutos e 14 segundos a mais.

O estudo aponta também outro dado interessante: em 2018, e pela primeira vez, houve mais mulheres a correr (50,24%) do que homens. A média de idade também está a aumentar, de 35,2 em 1986 para 39,3 em 2018.

Portugueses são dos mais rápidos do Mundo

Mais curioso ainda será perceber que, segundo o estudo, os runners portugueses estão entre os mais rápidos do Mundo - e é preciso relembrar que o estudo contempla atletas de 193 países. Na maratona estão no pódio, em 3.º lugar, com um tempo médio de 3:59.31 horas. Mais rápidos só os espanhóis e os suíços. Se olharmos só para os runners do sexo masculino, os portugueses sobem para segundo, apenas atrás dos atletas de Espanha.

Hannah Peters/Getty

Os bons resultados de Portugal não se ficam apenas pela maratona. Nas corridas de 10 quilómetros, os portugueses voltam a ficar no 3.º lugar entre os mais rápidos do Mundo, com um tempo médio de 53.43 minutos. Nesta distância, os mais velozes são os suíços, seguidos dos atletas do Luxemburgo. Nos 10 quilómetros, as mulheres portuguesas destacam-se: são mesmo as mais rápidas do planeta, à frente das suíças e das luxemburguesas.

Na distância da meia-maratona, o desempenho português está ligeiramente abaixo, mas ainda assim entre os melhores: em média, temos o 15.º melhor tempo.

Questionámos Jens Jakob Andersen sobre esta aparente maestria dos portugueses nas corridas recreativas, mas nem o cérebro por detrás do estudo a consegue explicar: o estudo não foi tão longe. Mas o dinamarquês lembra que “Portugal tradicionalmente sempre teve bons corredores”.

Os resultados também surpreendem João Catalão. “Não sei se é por sermos povos latinos, com grande capacidade de interação e de estar em grupo. Correr em grupo pode levar a que a competitividade seja maior, tal como a vontade de superação. E isso faz com que a tendência seja para termos bons resultados”, explica. “Em Espanha, por exemplo, há atletas que comandam e lideram grupos de treino em que estão atletas não-profissionais, mas que se dedicam ao running”.

Habituado a correr no estrangeiro, João garante que “há muitos portugueses a correr por esse mundo fora”. Em destinos mais ou menos exóticos. “Por exemplo, em Espanha, nas maratonas de Valência ou Sevilha, já vemos qualquer coisa como 800 a 900 portugueses. E quando corri em Boston, que é uma corrida em que entras por tempo de qualificação ou pagando a uma agência de viagens que engloba a prova e, por isso, tem muito mais custos, estavam mesmo assim aproximadamente 50 portugueses. Há uns tempos vi uma reportagem sobre dois portugueses que foram correr a maratona da Antártida. Tiveram de preparar a maratona em câmaras frigoríficas de supermercados. E há uma que um dia gostava de fazer, a maratona da Muralha da China”, sublinha.

Running: uma moda?

João Catalão diz que já perdeu a conta às corridas de 10 km e meias-maratonas que fez. Em relação às maratonas, tem oito terminadas, sendo que três delas fazem parte do circuito de seis maratonas que são consideradas as World Marathon Majors. “Fiz Boston, Berlim e Londres. Tenho o objetivo de fazer as seis”. E é isso o que ocupa a mente do runner João Catalão neste momento, nas melhores maratonas do Mundo - falta-lhe Nova Iorque, Chicago e Tóquio para completar o grupo.

Horacio Villalobos/Getty

Apesar do aumento a pique que o running teve até 2016, a verdade é que nos últimos dois anos a participação tem diminuído. De 9,1 milhões de atletas a cortar a linha da meta, para 7,9 milhões em 2018, ou seja, menos 13% - o crescimento que continua a existir nos países asiáticos não compensa a quebra que se verifica no resto do Mundo.

Isto não significa necessariamente que as pessoas estejam a deixar de correr. Apenas que a maratona deixou de ser algo somente ao alcance de um grupo restrito de escolhidos para passar a ser um objetivo de muitos runners, que já têm o conhecimento e a capacidade para preparar e correr a distância. E, quando esse objetivo é cumprido, diz o “The State of Running 2019”, muitos mudam o foco para outras modalidades mais extremas.

“Penso que o running está numa ligeira tendência negativa neste momento. O que está a acontecer agora é que muitos entusiastas estão a começar a fazer outros desportos, como o triatlo, o ultra running, trail running, Ironman, entre outros. Mas acredito que ainda há margem para a corrida crescer, definitivamente”, diz-nos Andersen.

Quando falamos com João Catalão, ele revela-nos que está precisamente a chegar de uma loja dedicada ao ciclismo, onde havia comprado uma bicicleta de estrada. “Triatlo? Calma, calma. Primeiro quero implementar a bicicleta nos meus treinos porque sei que isso potencia o rendimento na corrida, além que é uma excelente forma de poupar o corpo em relação ao impacto que a estrada provoca. É uma forma de permitir um alívio das articulações, nos músculos, trabalhando a parte cardiovascular ao mesmo tempo. Esse é o objetivo, ambientar-me à bicicleta, para mais tarde pensar em outras áreas, como o duatlo ou mesmo o triatlo”.

Mas sem nunca deixar de correr.

João Catalão teme que estes números que mostram um declínio nos praticantes signifiquem que a corrida é, para muitos, uma moda. O osteopata garante que nunca vai deixar de lado o seu primeiro amor. “Às vezes faço essa reflexão, até que ponto o running é uma moda e não uma paixão. Porque eu sei que vou correr o resto da minha vida, para mim não é uma moda. Se fosse uma moda, eu fazia uma ou duas maratonas e dizia ‘ok, já conheci, vou partir para outra’. Mas eu sinto que a minha base é a corrida e que isso vai manter-se”.

Donald Miralle/Getty

Jens Jakob Andersen acredita que o futuro do running e forma deste continuar a ser interessante para o cidadão comum será tornar cada vez mais uma corrida numa experiência. “Acredito que os organizadores das corridas estão a falhar, porque não estão a criar eventos únicos. Se olharmos para as 100 mais importantes corridas em Portugal, elas são muito parecidas entre elas. Hoje em dia as pessoas também correm pela experiência e por isso porque não, por exemplo, combinar uma corrida com um dos fantásticos festivais que vocês têm em Portugal? Ou com outro qualquer evento que faz as pessoas viajarem até certo país”, explica.

João Catalão revela-nos que o factor experiência já é importante na hora de viajar para correr uma maratona: “Tentamos ficar mais uns dias antes ou depois da prova, de maneira a fazermos aquilo que nós chamamos de ‘maraturismo’. Que é aproveitar o contexto em que estamos para conhecer uma nova cidade, os costumes, a gastronomia local, a cultura. Nessas situações, às vezes até levamos mais pessoas no grupo que nem sequer vão fazer a maratona”.

Nunca houve tantos runners a correr num país que não é o seu e Andersen acredita que está aí o potencial de crescimento da modalidade. “Numa década ou duas, acredito que o running será muito mais focado nas experiências. Vais viajar para o Rio para correr quando estiver a decorrer um qualquer evento ao mesmo tempo na cidade e as corridas vão ser muito mais únicas. As corridas tradicionais, como as conhecemos hoje, vão diminuir significamente o seu tamanho”.