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Estados Unidos de Biles, a primeira ginasta a aterrar um triplo-duplo

Simone Biles é, provavelmente, a melhor ginasta de sempre. Já o era antes de aterrar um duplo salto mortal com três rotações no ar pelo meio, este fim de semana, nos Campeonatos Nacionais dos EUA, onde foi a primeira ginasta na história a concretizar a manobra em competição

Diogo Pombo

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Simone Biles auto-impôs-se a 12 meses longe do pó de giz, fora de ginásios, afastada da ginástica que lhe deu quatro medalhas de ouro e uma de bronze, no Rio de Janeiro, e fez cair queixos incontáveis com a facilidade graciosa com que se multiplicava em saltos e aterragens, fosse no solo ou na trave.

Ela exilou-se, procurou refúgio depois de deitar cá para fora que fora uma entre mais de 160 ginastas vítimas de assédio sexual de Larry Nassar, antigo médico da Federação Americana de Ginástica, que viverá os dias que lhe restam na prisão, punido por aquilo que causou a tantas mulheres.

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O metro e 52 centímetros de grandiosidade atlética no feminino voltariam, em 2018, depois de participações em programas de televisão, viagens pelo mundo, um livro escrito e uma casa comprada ao pai e à mãe (que, na realidade, são os avós maternos), a condecorar mais ainda um corpo nascido para estar no ar.

Biles voltou à competição nos Mundiais de ginástica, revestiu-se quatro vezes a ouro, uma a prata e outra a bronze em outubro do ano passado. Outra vez formidável, a tentar e a aterrar acrobacias, por diversão, que o medo bloqueia no cérebro de quase todos os ginastas. Tudo fez com dores de uma pedra nos rins, que descortinou numa ida ao hospital, a meio da competição. Mesmo assim, ganhou a prova individual com a maior margem de sempre.

Reforçou-se como a mais condecorada ginasta da história (22 medalhas de ouro), sorrindo e exuberando-se para o mundo, alegria simples na cara num desporto que força as crianças a esconderem tudo quanto é sentimentos, em que os cânones e treinadores impõem a sobriedade e ainda querem formar ginastas robóticas, sem emoções.

A americana contraria tudo isso, cada vez mais. Com o talento e a capacidade incríveis, que atribui a uma “muito boa consciência aérea”, no jeito simplista com que os desportistas geniais parecem troçar do resto do mundo, passou a libertar tudo quanto é emoção do corpo, a verbalizar-se contra a federação americana e agarrar-se ao que a faz ser como é. “Apercebi-me que atuava melhor sempre que me estava a divertir, portanto, porquê ficar ali com cara feia?”, disse, há tempos, ao “The Guardian”.

Divertindo-se, continuou a não ter qualquer tipo de respeito pela gravidade. Para fugir à monotonia nos treinos, foi tentando coisas que são inacessíveis para a maioria dos ginastas, até homens. O ano passado, o treinador propôs-lhe que tentasse o triplo salto mortal com duas piruetas no ar, Simone torceu o nariz ao início, lá aceitou, foi praticando, até que chegaram os Campeonatos Nacionais dos EUA, este fim de semana.

E Biles tentou-o e aterrou-o.

Tornou-se a primeira ginasta a consegui-lo, proeza de quem se confunde com a forma de desporto que pratica, nem que seja pelo facto de haver um salto batizado em seu nome, o ‘The Biles’. Sorriu a bom sorrir, ganhou os Nacionais americanos pela sexta vez e, caso aterre outro triplo-duplo, em outubro, nos Mundiais, esta acrobacia com tiques de impossibilidade pode bem deixar de ser conhecida como o triplo-duplo.

Pode passar a chamar-se ‘The Biles II’, sugestão do "The New York Times".

Depois virá Tóquio e os seus Jogos Olímpicos de 2020 que, por admissão da própria, serão os últimos de Simone Biles, a americana que tem talento entre todas as letras do nome, tem aquela mística sabática de ganhar, parar e voltar a ganhar das lendas (como Michael Jordan, Roger Federer ou Serena Williams) e que já tem a audácia de ir treinar com um bode (G.O.A.T., de Greatest Of All Time) desenhado no equipamento.

Ou será realismo?