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“Se tenho medo? Sou humano, tenho sempre medo”: Yorgan, a história de um lutador

Há um homem que carrega a bandeira portuguesa de cada vez que entra num octógono do UFC para lutar. Yorgan de Castro é o lutador que nasceu duas vezes. E que quer chegar ao título de campeão em pesos pesados. Começou nas obras e está no mundo milionário dos desportos de combate. “Eu nasci para isto”

Rui Gustavo

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Da primeira vez que uma bandeira portuguesa entrou num octógono do UFC – a principal organização de MMA do mundo com um valor de mercado de 7 mil milhões de dólares - ia nas costas de um cabo-verdiano do Mindelo. Yorgan de Castro nasceu na Ilha de São Vicente há 33 anos e é filho de um português. “São os meus dois países. Tenho dupla nacionalidade e sou e sinto-me cabo-verdiano e português. Mas no UFC temos de combater só com uma bandeira e eu fui obrigado a optar pelo sítio onde nasci”, conta ao telefone a partir de Fall River, no Estado de Massachusetts, no Estados Unidos, para onde emigrou há sete anos e conseguiu concretizar o sonho que chegou a parecer impossível: ser lutador profissional no desporto de combate mais popular do mundo.

“Eu nasci duas vezes. Para a vida em Cabo Verde e para os combates em Portugal. Não me esqueço disso.”

Yorgan “The Mad Titan” Castro estreou-se no UFC com uma vitória por KO aos dois minutos e dez segundos do primeiro assalto contra Justin “Bad Man” Tafa. Tem seis vitórias em seis combates profissionais. E em março vai voltar a combater, desta vez contra uma estrela da modalidade: Greg Hardy, um ex-jogador de futebol americano com 120 quilos distribuídos por 1,96 metros, famoso pelas piores razões – foi condenado a um ano e meio de prisão por agredir a namorada. Como é que alguém se prepara para enfrentar um gigante, possivelmente mau, e com vontade de nos bater? “Se tenho medo? Sou humano, tenho sempre medo. Mas treino-me e sei que estou preparado. Assim que a porta do octógono se fecha, o medo desaparece”.

Cabo Verde e Lisboa

O jovem Yorgan Castro

O jovem Yorgan Castro

Yorgan viveu em Cabo Verde até aos 18 anos. Primeiro em São Vicente, depois em Santiago, na capital Praia. “Os meus pais separaram-se muito cedo e eu fui criado com duas irmãs. Uma mais velha e outra mais nova. Estudei até ao 12º ano mas percebi que não ia dar para ter uma boa vida. E vim para Portugal”.

Yorgan chegou a Lisboa com 18 anos. Nunca tinha calçado umas luvas de boxe na vida. “Em Cabo Verde jogava futebol. E nem me metia em lutas, nunca fui agressivo”. Trabalhava nas obras “por causa do cabedal, foi fácil arranjar trabalho”, vivia nos arredores de Lisboa com a namorada que trouxe de Cabo Verde e que é agora sua mulher. E dois anos depois o destino acertou-lhe em cheio um direto na cara.

A treinar, já nos Estados Unidos

A treinar, já nos Estados Unidos

“Eu trabalhava para a Media Market, tinha de ir lá muitas vezes retirar e colocar produtos e tinha de me identificar com os seguranças. Foi assim que conheci o Yorgan”, conta José “Bogas” Oliveira, praticante e treinador de kickboxing e dono de um ginásio na zona da Amadora. “Foi ele quem me desafiou a aparecer la no ginásio para treinar. Disse-me que tinha o físico ideal”, confirma Yorgan. “Assim que lhe ensinámos duas ou três técnicas percebemos logo que tinha uma aptidão incrível e muito potencial para evoluir. Basta ver dois ou três socos e um pontapé para perceber quem é que nasceu para isto e quem é quem tem de se esforçar”. Mas bater qualquer um bate. Só se vê a qualidade de um lutador quando leva o primeiro golpe. “Foi quando levei o primeiro soco a sério que percebi que não queria outra coisa. Voltei logo para o ringue. Eu nasci para isto”.

Três meses depois de começar os treinos de kickboxing, Yorgan estava num ringue, a competir. “Levei uma coça de um matacão que já tinha uns catorze combates. Nem me lembro o nome dele.”. “Perdeu, mas esteve bem”, corrige “Bogas”, que se tornou o seu primeiro mestre e treinador. “Ainda hoje me telefona antes dos combates”.

Durante três anos, Yorgan foi conciliando o trabalho com os treinos e a competição. Ganhava combates mas não via um tostão. “É impossível ser um lutador profissional em Portugal”, lamenta “Bogas”. “Eu fui campeão do mundo e tinha de dar aulas”.

Os EUA

Em 2012, com um lugar no quadro da Prosegur, um apartamento de duas assoalhas na Damaia e uma vida familiar estável, Yorgan decide que estava na hora do 2.º assalto. “Tenho um tio que mora nos Estados Unidos e treina jiu jitsu só para manter a forma. Disse-me que se queria singrar nos desportos de combate profissionais tinha de ir para os Estados Unidos. E eu fui”.

Vendeu o carro, passou o apartamento a um primo, convenceu a mulher a acompanha-lo e emigrou outra vez, desta feita para o norte dos Estados Unidos. “Trabalhei como jardineiro e em entrega de móveis. Foi sempre o cabedal a safar-me”. O tio levou-o a um ginásio de MMA, modalidade que mistura todos os géneros de luta e é, talvez, o desporto de combate mais violento e exigente de todos. Começou a treinar com Joe Lauzon, uma das estrelas da modalidade. “Estive lá quatro anos, fiz os primeiros combates profissionais e tive algumas derrotas porque tive de me reinventar como lutador, aprender e treinar mais ainda.”

Foi com este direto que Yorgan deiu o adversário KO e venceu o primeiro combate no UFCo

Foi com este direto que Yorgan deiu o adversário KO e venceu o primeiro combate no UFCo

Ganhou seiscentos dólares com a primeira vitória, nunca deixou de trabalhar e em 2016 muda de ginásio e de cidade. “Fui trabalhar para o liceu de River Fall, como segurança e encontrei um ginásio excelente com treinadores muito focados e obcecados que me tornaram um obcecado também e fizeram de mim um profissional”.

Depois de uma passagem por várias organizações mais ou menos anónimas, a grande oportunidade surgiu já este ano quando entrou no “Contender Series”, um programa de televisão do UFC em que os vencedores dos combates têm uma oportunidade de um contrato profissional no UFC. “Mas não basta vencer, tem de se impressionar Dana White, o presidente do UFC”. Yorgan venceu a luta final com um KO pouco usual: um pontapé na perna do adversário que o deixou incapaz de prosseguir o combate. “Eu sou gordinho mas tenho poder nas mãos e nas pernas”, ri-se Yorgan de Castro que chegou aos 120 quilos e mede 1,80 metros.

Estreou-se aos 33 anos, já ganhou 50 mil dólares coma primeira luta que ganhou e acredita que ainda vai a tempo de conquistar um titulo mundial do UFC (a organização é americana mas tem cerca de 600 lutadores de 60 países). “Vou ter uma grande oportunidade em março na luta contra o Hardy e acredito que posso chegar lá”. Lá? “Ao título de pesos-pesados. Senão é para ser o melhor não tinha saído de Portugal. Tinha uma vida confortável e não arrisquei tudo por nada. Quero o título. Os melhores tem todos mais de 30 anos”.

Entretanto, a vida continuou e a filha do lutador que faz questão de levar uma bandeira de Portugal cosida à de Cabo Verde para todas as lutas já fez cinco anos e vai percebendo como é que o pai ganha a vida. Em Portugal, o MMA tornou-se conhecido quando João “Rafeiro” Carvalho morreu depois de um combate no Reino Unido em que foi atingido com 41 golpes na cabeça. “Foi um acidente. Já morreram atletas no futebol e ninguém põe em causa o desporto” Mas gostava que a sua filha seguisse uma carreira profissional em MMA? “Não”. “Não só pela violência mas acima de tudo porque é mesmo muito difícil conseguir singrar”