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“Começo com olá, adeus ou as minhas condolências?”. Kimia Alizadeh fartou-se da opressão das mulheres no Irão e fugiu

A primeira mulher a conquistar uma medalha olímpica pelo Irão (bronze dos -57kg do taekwondo) desertou e está a viver na Holanda, onde já se treina. Alizadeh não está mais disposta a conviver com a "hipocrisia, mentira, com a injustiça e bajulação” e renegou um regime que diz ser “corrupto e mentiroso”, que utiliza os desportistas como “ferramentas de política” e “humilha as atletas femininas”

Lídia Paralta Gomes

Amin Mohammad Jamali/Getty

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Em outubro, Kimia Alizadeh aparecia como uma das 13 desportistas da lista da BBC das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras de 2019. Por esses dias, a jovem iraniana de 21 anos treinava-se três vezes por dia para chegar aos Jogos Olímpicos de Tóquio e aí tentar repetir aquilo que fez há quatro anos no Rio de Janeiro: ganhar uma medalha.

Aquela medalha de bronze ganha num combate de taekwondo frente à favorita sueca Nikita Glasnovic não foi apenas uma medalha. Porque foi a primeira medalha olímpica de uma mulher iraniana, num dos poucos desportos que as jovens da república islâmica estão autorizadas a praticar, por ser possível competir de véu.

Kimia era então uma miúda de 18 anos e aquela medalha deu para tudo, até para o presidente Hassan Rouhani usar a sua imagem durante a campanha presidencial de 2017, onde a tratou por “minha filha”, mesmo que depois não tenha apontado qualquer mulher para o seu governo.

E por isso e tanto mais, Kimia Alizadeh fartou-se.

Os rumores de que a jovem de 21 anos havia desertado do país pelo qual fez história intensificaram-se quando Kimia foi vista sem véu com o marido, o voleibolista Hamed Madanchi, numa vigília no aeroporto de Eindhoven, na Holanda, pelas vítimas da queda do avião da Ukraine International Airlines, atingido de forma não-intencional por um míssil iraniano no mesmo dia em que o exército do país atacava bases militares norte-americanas no Iraque, como resposta à morte do general Qassem Soleimani.

Dias depois, chegava a confirmação pela pena da própria Kimia Alizadeh, num longo texto escrito em farsi na sua página oficial de Instagram: de férias na Europa, Kimia decidiu deixar para sempre o seu país natal, farta das injustiças, da opressão, farta de ser usada por um regime que vê a mulher como inferior.

Alizadeh recebida no Aeroporto de Teerão, após conquistar a medalha de bronze nos Jogos do Rio

Alizadeh recebida no Aeroporto de Teerão, após conquistar a medalha de bronze nos Jogos do Rio

AFP

“Começo com olá, adeus ou as minhas condolências?”. É assim que arranca o texto mais difícil da vida da atleta de taekwondo, arte marcial que começou a praticar aos sete anos, não por paixão, mas porque era o único desporto que se fazia no ginásio do seu bairro da cidade de Karaj, nos arredores de Teerão.

“Sou uma de milhões de mulheres oprimidas no Irão”, escreveu ainda, acusando as autoridades do país a usarem e explorarem. “Levaram-me para onde quiseram. Eu vesti aquilo que eles quiseram que eu vestisse. Todas as frases que eles ordenaram que eu dissesse, eu repeti”.

Kimia apontou ainda o dedo a todos os que não reconheceram o seu valor, justificando as suas conquistas com o trabalho dos seus treinadores e responsáveis. “Não me quero sentar à mesa com a hipocrisia, mentira, com a injustiça e bajulação”, falando ainda de um regime “corrupto e mentiroso”, que utiliza os desportistas como “ferramentas de política” e “humilha as atletas femininas”.

Nova vida na Holanda

A fotografia no aeroporto de Eindhoven denunciava que a Holanda havia sido o país escolhido para a fuga. No texto que publicou no Instagram, Kimia não refere em que nação encontrou uma nova casa, mas Mimoun El Boujjoufi, treinador de taekwondo em Eindhoven, revelou ao canal holandês NOS que há cerca de um mês recebeu um pedido por parte da atleta para com ele se treinar. El Boujjoufi sublinhou ainda que Kimia “estava de férias na Europa e decidiu não voltar ao Irão”.

No combate que lhe valeu a medalha olímpica, a primeira para uma mulher iraniana

No combate que lhe valeu a medalha olímpica, a primeira para uma mulher iraniana

Laurence Griffiths/Getty

“Ela é muito bem-vinda, sabemos que tem muita qualidade e é uma grande mais-valia para o taekwondo da Holanda”, frisou ainda o treinador. O “New York Times” tentou contactar os serviços de imigração da Holanda, que dizem não fazer comentários sobre pedidos individuais de asilo.

A atleta nega que na base da sua decisão de deixar o Irão estejam razões económica. “Sair do país foi mais difícil que ganhar uma medalha olímpica”, escreveu, sublinhando que nunca vai deixar de ser “uma menina iraniana”, a mesma que para ser bem-sucedida no taekwondo percorria quatro horas diárias em transportes públicos para continuar a treinar-se e a ter aulas de inglês.

“Não quero nada mais para lá do taekwondo, segurança e uma vida feliz e saudável”, disse ainda Kimia Alizadeh, que dificilmente vai conseguir repetir o êxito do Rio de Janeiro daqui a uns meses, em Tóquio. E daqui a quatro anos, possivelmente só com outra bandeira aos ombros.

Esta é a terceira deserção de alto perfil no Irão nos últimos meses. Em agosto, o judoca Saeid Mollaei fugiu para a Alemanha após o Mundial de judo, por temer represálias depois de ter recusado desistir de um combate que potencialmente o colocaria em rota de colisão com um atleta israelita. Mollaei recebeu entretanto passaporte da Mongólia, país pelo qual vai competir internacionalmente. Em dezembro, o prodígio do xadrez Alireza Firouzja, melhor jogador do país, decidiu deixar de competir pelo Irão também devido à proibição informal de não enfrentar rivais israelitas. Vive agora em França.