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McGregor está de regresso e traz a pancadaria à meia-noite com ele

Conor McGregor volta ao octógono para combater com Cowboy Cerrone, em Las Vegas, um adversário que alguns analistas consideram adequado para a narrativa do regresso do herói

Marco Grieco

Jeff Bottari

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Candente, cadente, transcendente, decadente. Ao olharmos para o céu, muitas daquelas estrelas já não existem. Já deixaram de ser estrelas mas, de uma forma algo nostálgica – que a astronomia teima em tentar racionalizar –, o seu brilho ainda nos atinge.

A constelação do Ultimate Fighting Championship (UFC) – indubitavelmente, o escalão máximo das artes marciais mistas ou MMA – já teve em McGregor a sua estrela mais candente. As suas lutas eram aguardadas com grande expectativa, enquanto ele disparava pérolas infames, recheadas de “trash talk” e má educação.

Uma ascensão fulminante, cimentada num estilo agressivo e impiedoso, levou o irlandês ao Olimpo da modalidade. Dana White, o “big boss” da organização, contava com ele para encher estádios, páginas de jornal e sites especializados. Seu nome criava “buzz” e, quase sempre, valia o bilhete. Uma estrela cadente que afirmou e ampliou as fronteiras do desporto.

Transcendeu o octógono e recebeu muitos milhões de dólares para fazer um combate de boxe. Enfrentou o aposentado Floyd Mayweather numa pouco inspirada luta em que acabou por perder por K.O. técnico no décimo round.

Primeiro lutador a alcançar o cinturão em duas categorias distintas – Peso Pena e Peso Leve – já não faz das lutas o seu principal ganha-pão. Lançou entretanto uma marca de whisky e aparece na capa do mais recente videojogo de artes marciais mistas para as plataformas Playstation e Xbox.

A estrela – decadente? – continua rebelde, apesar de milionária.
A estrela continua provocadora, apesar de já não ser imbatível.

Las Vegas volta a receber o circo de feras do UFC esta madrugada de janeiro, na T-Mobile Arena. Cinco lutas no cartaz principal vão culminar com o regresso de Conor McGregor aos ringues.

Mais de 13 meses depois de ter sido submetido pelo invicto Khabib Nurmagomedov – num combate que acabou em pancadaria fora da jaula – o “notório” irlandês vai enfrentar Donald ‘Cowboy’ Cerrone, que os mais céticos tendem a considerar como o adversário ideal para a sua redenção.

Contudo, mesmo não tendo a aura estelar do seu adversário, o veterano norte-americano tem números incríveis no UFC. Vem de duas derrotas por nocaute, contra Tony Ferguson e Justin Gaethje, mas é o lutador com mais combates na história da organização (33), mais vitórias (23) e mais bónus por performance (18), entre outros recordes.

Segundo Luís Barneto, selecionador nacional de mma e comentador SporTV da modalidade, a principal diferença entre os dois lutadores é que McGregor, “se treinar a sério, ainda pode voltar a lutar por títulos”. Já Cerrone, aposta na “luta pela luta. No prazer de subir ao octógono e, claro, ser muito bem pago para isso”.

Depois das sete lutas preliminares, completam o cartaz da noite os seguintes confrontos: Anthony Pettis contra Diego Ferreira, Cláudia Gadelha contra Alexa Grasso, Alexei Oleinik contra Maurice Green e Holly Holm versus Raquel Pennington.

As casas de apostas – ou não estivéssemos em Vegas – apontam para um claro favoritismo do irlandês de 31 anos, por larga margem frente ao norte-americano de 36. Para Barneto, Conor McGregor tem muito mais em jogo do que o seu opositor, mas “se ele utilizar a sua mão e o seu pé esquerdos como já vimos no passado, a luta pode acabar rápido. Se o combate for mais longo, Cerrone pode ganhar confiança e, eventualmente, recorrer ao grappling – luta corpo a corpo – para tentar submeter McGregor”.

Carece de confirmação se é desta feita que os punhos de McGregor voltam a brilhar mais do que a sua verborrágica infâmia.

Ou se será Cerrone a mostrar que ainda não é a hora de pendurar as luvas.

Mesmo com recurso à astronomia, à astrologia, à futurologia ou às mais terrenas estatísticas, é impossível prever. Depois que Bruce Buffer proferir o seu célebre “It’s time!” e as portas do octógono estiverem cerradas é que o futuro se vai escrever.