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11-2-90. O dia em que o ferro quebrou

Mike “Iron” Tyson perdeu há 30 anos o combate que ainda hoje é o maior upset da história do boxe. James “Buster” Douglas, o homem que o venceu, vive agora gordo e feliz num hotel. Tyson é o dedicado proprietário de uma plantação de marijuana

Rui Gustavo

Masaharu Hatano

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De gatas, Mike Tyson procurava desesperadamente o protetor bocal enquanto o árbitro ia contando impiedosamente “sete, oito, nove”. O mundo do boxe estava em choque com aquela imagem nunca vista. Menos de uma hora antes, o mais jovem campeão do mundo de pesos pesados – título que ainda hoje mantém – parecia meio entediado quando entrou no ringue para defrontar James “Buster” Douglas, um pugilista de 29 anos, com quatro derrotas no currículo (três por KO) e que tinha sido escolhido à pressa para substituir Evander Hollyfield, um osso bem mais duro de roer que não tinha recuperado a tempo de uma lesão. O combate já estava marcado para Tóquio, capital do Japão, e foi preciso arranjar alguém com quem o campeão pudesse entreter a multidão que já tinha pago pelos bilhetes. Ninguém esperava outra coisa naquela noite de 11 de fevereiro de 1990: Douglas ia ser um saco de boxe.

Tyson, tinha 23 anos e 37 combates disputados. Venceu todos. E grande parte por KO. Era milionário, campeão do mundo incontestado e nunca tinha ido ao chão num combate de boxe. Mais do que vencer os adversários, esmagava-os e espancava-os sem dó, com uma violência quase inédita na história do boxe. Nocauteou Frank Bruno e esmagou Larry Holmes. O campeão Michael Spinks só aguentou um assalto com ele. Mas nem tudo estava bem na vida de “Iron” Mike.

Tinha-se divorciado de Robin Givens há menos de um ano e combatia a tristeza com “raparigas e álcool”, como admitiu anos mais tarde. Kevin Rooney, o treinador que tinha substituído com sucesso Cus D’Amato – o homem que o descobriu num reformatório de Nova Iorque aos 13 anos – separou-se do campeão depois de vários desentendimentos. Mike foi para Tóquio com um treinador de ocasião e fora de forma. Havia rumores de que tinha sido derrubado durante uma sessão de treino. “Nem vi os combates dele. Treinava e dormia com miúdas, era assim a minha vida”, admitiu o campeão.

A vida de “Buster” Douglas, que tinha um cão chamado Shakespeare, também fora atingida pela tragédia: Bertha, a mulher, tinha-o deixado há um mês depois de descobrir que tinha um caso extraconjugal; Doris, a amante, tinha sido internada com um caso grave de leucemia. E Lula, a mãe, morrera três semanas antes do combate de Tóquio.

Na véspera da luta, “Buster” estava com 38 graus e encharcado em antibióticos. Nem o pai, que tinha ido a Tóquio para ver o combate, acreditava no sucesso do filho. “Só quero que não se magoe”, admitiu numa entrevista televisiva a um canal japonês.

Como transformar mil dólares em 42 mil

No dia do combate, as casas de apostas puseram as odds em 42-1 a favor de Tyson. Ou seja, se Buster Douglas ganhasse, cada dólar apostado iria valer 42 vezes mais.

Quando entraram no ringue, os dois pugilistas encararam-se antes de tocar luvas. O locutor americano notou que “não” havia “medo” nos olhos de Douglas, ao contrário que costumava acontecer com os adversários de Tyson. Quando o gongo soou, Douglas mostrou que estava mais bem preparado do que toda a gente supunha.

Foi mantendo Tyson à distância com jabs e conseguia fugir com relativa facilidade aos ganchos ao corpo e à cara do campeão, a arma usada para destruir os adversários. Ao 5.º assalto, deu-se isto: um direto à cara disparado por Douglas acertou bem no alvo provocando um inchaço e um corte no sobrolho de Tyson. O canto estava tão mal preparado que nem tinha gelo e teve de usar uma luva de borracha cheia com água fria para tentar desinchar o ferimento. “Aquele canto nem conseguia treinar um peixe a nadar”, comentou Teddy Atlas, treinador e comentador que esteve mais de vinte anos de relações cortadas com Tyson por se atrever a criticá-lo nos programas desportivos.

Tyson estava agora mais desperto do que aborrecido e ao oitavo assalto acertou um “uppercut” de direita no queixo de Douglas que caiu com estrondo no chão. O árbitro foi contando lentamente até aos nove e, quando “Buster” se levantou, o gongo tocou, salvando-o da derrota mais do que certa. Nos dias e meses seguintes começou uma discussão que dura até hoje: o árbitro contou ou não demasiado devagar. Foram 13 segundos que permitiram ao “challenger” recuperar. E ao décimo assalto, aquilo aconteceu.

O chão

KYODO Kyodo

Apesar de ser o mais “underdog” possível, James Douglas não era um pugilista qualquer. Filho de William “Dynamite” Douglas, pugilista profissional que nos anos 70 conseguiu um interessante score de 41 vitórias e 16 derrotas, cresceu nos ringues e nunca quis ser outra coisa. Apesar da tendência para engordar, tinha muito peso nas mãos e, antes do combate com Tyson, tinha derrotado adversários de valor como Oliver McCall e Trevor Berbick.

Depois de passar o nono assalto a desviar-se dos ataques de Tyson, e a conseguir ligar alguns golpes, “Buster” partiu para o décimo disposto a retomar o controlo do combate. A meio do assalto disparou um “uppercut” que acertou em cheio no queixo de Tyson, desorientando-o momentaneamente. Sem o deixar respirar, disparou um direto, depois outro, mais um e mais outro. Tyson caiu pela primeira vez na carreira vergado por cinco golpes de seguida. Por alguma razão, que nunca explicou muito bem, ao invés de tentar levantar-se, Tyson pôs-se à procura do protetor bocal que tinha caído com a violência dos golpes. Só se levantou aos dez e teve de se agarrar ao árbitro para não cair outra vez. Estava consumado o maior “upset” da história do boxe. Tyson saiu de cena rapidamente. “Douglas” parecia tão surpreendido como os outros e chorou quando o entrevistaram: “Esta vitória é para a minha mãe. Deus, acolhe-a”.

Douglas ganhou 1,3 milhões de dólares pelo combate e Tyson seis. Nunca mais se defrontaram. Oito meses e dez quilos depois, o novo campeão pôs o titulo em jogo contra Evander Hollyfield. Aguentou três assaltos antes de perder por KO. Ainda fez mais oito combates mas nunca voltaria à ribalta. Recusou dez milhões de dólares para um “rematch” contra “Iron” Mike. Hoje, tem 59 anos, pesa quase duzentos quilos e é dono de um hotel com um ringue de boxe na cave.

Tyson voltou aos ringues e esmagou todos os adversários até ser condenado a seis anos de prisão por ter violado Desiree Washington, miss América negra. Cumpriu três anos, reconquistou o título de campeão do mundo até defrontar Evander Hollyfield que o derrotou duas vezes, apesar de ter ficado sem parte de uma orelha. Tyson ganhou mais de 300 milhões ao longo da carreira, mas esteve falido e hoje é dono de uma plantação (legal) de marijuana.