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E tu, também mudaste de vida aos 42 anos?

Chegou ao fim e de forma pouco romântica o casamento mais bem sucedido da história da NFL. Aos 42 anos, Tom Brady diz adeus aos New England Patriots, a Bill Belichick e à maior dinastia que o futebol americano já viu, com seis títulos. Mas não vai para casa: os Tampa Bay Buccaneers deverão ser a próxima equipa do quarterback mais decisivo de sempre

Lídia Paralta Gomes

Chris Trotman/Getty

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Não ligámos quando, na última renovação de contrato, Tom Brady quis uma cláusula que impediria os New England Patriots de exercer a franchise tag para 2020. Também não ligámos quando Tom Brady colocou a sua mansão de Brookline, nos subúrbios de Boston e a meia-hora do estádio dos Patriots, à venda. Talvez a família precisasse de uma casa maior ou diferente. Não ligámos quando, no último jogo dos Patriots, uma derrota embaraçosa frente aos Tennessee Titans, na primeira ronda dos playoffs, Brady falou dos Patriots no passado.

Não ligámos porque os casamentos bem sucedidos de 20 anos não acabam assim, sem mais nem menos, sem grandes avisos ou alertas.

Mas a grande dinastia da história do futebol americano acabou, sim, sem escândalo nem fanfarra, sem drama ou novela, com dois textos publicados nas redes sociais, no meio de uma das maiores crises que qualquer um de nós já viveu. Quando a próxima temporada da NFL começar, sabemos nós lá quando, Tom Brady não estará de azul, branco e vermelho, as cores dos Patriots, as cores da América. Estará vestido com outros tons, que nos vão parecer esquisitos naquele corpo. Como se o mundo estivesse preparado para mais mudanças do que aquelas que decerto vão acontecer nos próximos meses.

Talvez o que surpreenda mais neste adeus de Tom Brady aos New England Patriots seja o quão pouco romântico é, porque romântica e digna de filme é a história de Tom Brady e dos New England Patriots. Em 2000, Thomas Edward Patrick Brady Jr. era um quarterback pouco atlético, não particularmente rápido e com ar molengão, que tinha subido a pulso na equipa da Universidade do Michigan, onde nas duas primeiras temporadas nem sequer era opção. No draft, teve de ouvir 198 nomes antes que surgisse o seu, no final da 6.ª e penúltima ronda, em que normalmente já só surgem os atletas destinados à irrelevância.

Adam Glanzman/Getty

Depois de uma temporada como suplente nos Patriots, a oportunidade de se fazer titular apareceu pelo infortúnio de Drew Bledsoe, que era então a cara dos Patriots. Não seria mais. Logo nesse ano, o miúdo californiano, a quem todos haviam torcido o nariz um par de anos antes, foi por ali fora sem pedir licença e logo nessa época levou os Patriots ao título. Tinham passado apenas alguns meses do 11 de setembro e a América precisava de um novo herói: ele ali estava. Tom podia não ter músculos, podia ser desengonçado a correr, mas sobrava-lhe em inteligência, capacidade de ler o jogo e ética de trabalho, que faz com que hoje, aos 42 anos, seja mais veloz do que com 20. Repetiria a proeza de conduzir o ataque dos Patriots até ao anel nas temporadas de 2003 e 2004 e voltaria ao Super Bowl nas épocas de 2007 e 2011, perdendo, nas duas vezes, para os New York Giants, a sua kryptonita.

Mas havia uma segunda vida à espera de Tom Brady. De 2014 para cá, já na condição de bem-parecido veterano e estrela global, levou os Patriots a três títulos em quatro finais, sempre ao lado do treinador Bill Belichick. Nunca nenhum duo jogador/treinador ganhou tanto, numa simetria de pensamento que, podíamos jurar, ia durar para sempre, até ao dia em que Tom Brady decidisse que o seu lugar não era mais no centro do pocket, saindo em ombros como herói e campeão do Super Bowl, mais um, com boa parte dos recordes coletivos e individuais na sua mão direita. A saber - e só os mais importantes: jogador com mais vitórias no Super Bowl (6), quarterback com mais vitórias na temporada regular (219), jogador com mais jogos nos playoffs (41), quarterback mais velho a vencer o Super Bowl (41 anos e seis meses), jogador mais velho a ser considerado MVP da temporada (40 anos).

Esses recordes ninguém lhe tira tão cedo, mas Tom Brady não se despede dos New England Patriots, equipa que moldou e tornou na mais bem sucedida da NFL nos tempos modernos, após uma chuva de confetis e com mais uma taça na mão. Despede-se e a sua última jogada pela equipa dos arredores de Boston será sempre uma interceção, num jogo de playoff, um passe mal medido que acabou com a equipa adversária a correr para um touchdown. Não é um final romântico.

As razões do fim

Numa organização tão meticulosa quanto os New England Patriots - espírito que, aliás, o próprio Tom Brady ajudou a alicerçar - dificilmente teremos um livro aberto quanto às razões reais que levam o quarterback a decidir mudar de vida aos 42 anos. Um pouco como aqueles divórcios famosos, em que o casal desavindo cita "diferenças irreconciliáveis" para se separar.

Para já, tudo são suposições. Robert Kraft, histórico proprietário dos Patriots, só tem louvores para Brady, mesmo admitindo que a saída foi uma surpresa. Em declarações ao "The New York Times", Kraft revelou que Brady se dirigiu a sua casa para lhe comunicar a decisão. "Qualquer pessoa que tenha passado 20 anos connosco e tenha ganho seis Super Bowls tem direito à sua liberdade", disse, frisando que considera Brady "como um filho" e que a conversa entre ambos foi "positiva mas muito emocional".

Kevin C. Cox

Bill Belichick, treinador com quem Brady fez uma parceria diabólica nas últimas duas décadas, é um homem pragmático, duro, exigente, para quem a equipa está acima de tudo. É também conhecido por ter um dedinho que adivinha o declínio de alguns jogadores. A "Sports Illustrated" deixa por isso a hipótese de ter sido o próprio Belichick a não ver com bons olhos que a equipa avançasse com um novo contrato milionário para um jogador prestes a fazer 43 anos, mesmo que esse jogador se chame Tom Brady. Mas, para o seu antigo pupilo, só elogios: "O Tom não foi só mais um jogador que veio para o nosso programa - ele foi um dos seus criadores originais. Vamos sempre ter uma grande relação, construída pelos amor, respeito e admiração".

Já a ESPN lembra que durante muitos anos Tom Brady aceitou receber abaixo do seu preço de mercado para que os Patriots conseguissem trazer mais jogadores de qualidade. E que, talvez, na fase final da carreira quisesse ser recompensado por isso. A teoria cai quando o próprio Robert Kraft diz que os Patriots estariam na disposição de fazer um esforço adicional para ficar com o jogador mais importante da história do franchise e, porque não, o melhor jogador da história do jogo - está, pelo menos, na linha da frente da discussão.

Ao que tudo indica, Tom Brady e a família irão para terras mais a sul. A ESPN garante que os Tampa Bay Buccaneers colocaram 30 milhões de dólares em cima da mesa para que na próxima época Brady comece a jogar de vermelho, branco e preto, e que o quarterback deverá aceitar.

E aqui chega a surpresa dois: é que os Buccaneers estão longe de ser uma equipa com pedigree na NFL. Apesar de se ter sagrado campeã em 2003, a equipa da Florida não chega aos playoffs desde 2007. Na sua história, desde a fundação em 1976 até hoje, os Bucs ganharam um total de 273 jogos. Para se ter uma perspectiva, Tom Brady, que chegou à NFL em 2000, ganhou até hoje 249 jogos.

Brady tem a história na mão, mas há sempre história a fazer. Caso vá mesmo para a Flórida, Brady poderá levar os Buccaneers a algo inédito na NFL: é que até hoje nenhuma equipa jogou o Super Bowl em casa. E este ano, a grande final da temporada da NFL joga-se precisamente em Tampa Bay.