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NFL reconhece erros passados e doa 250 milhões de dólares para ajudar a combater racismo

Quatro anos depois de Colin Kaepernick se ajoelhar durante o hino antes de um jogo da NFL e de ser ostracizado por protestar contra o racismo, a liga que rege o futebol americano faz a sua autocrítica: pede perdão por não ter ouvido os jogadores e doa uma fortuna pelo combate às desigualdades sociais

Lídia Paralta Gomes

Colin Kaepernick (à direita) e Eric Reid ajoelham-se em protesto contra a discriminação racial durante o hino dos Estados Unidos

Thearon W. Henderson/Getty

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Foi ainda durante a pré-época de 2016 que Colin Kaepernick se deixou ficar sentado durante o hino nacional norte-americano que antecede todos os jogos da NFL. O quarterback negro dos San Francisco 49ers diria mais tarde que não se iria levantar "para mostrar orgulho por uma bandeira e um país que oprime os negros e outras pessoas de cor". O conservador e patriota futebol americano não gostou. Os republicanos não gostaram. Os veteranos de guerra muito menos.

Kaepernick mudaria depois a forma de se manifestar. Passou a ajoelhar-se durante o hino, sugestão que partiu precisamente de um ex-militar com quem travou amizade. O comissário da NFL, Roger Goodell, perante as vozes histéricas dos setores mais tradicionalistas dos Estados Unidos, sublinha que também ele não concorda a forma como Kaepernick protesta: "Na NFL acreditamos de maneira muito forte no patriotismo. E, do ponto de vista pessoal, acredito também muito fortemente nisso".

A partir daí é o que se sabe: no final da temporada, Colin Kaepernick, que nos primeiros três anos de carreira levou os 49ers a um Super Bowl e a uma final de conferência, viu-se sem equipa. Até hoje. Já lá vão quase quatro anos desde que Kaepernick se ajoelhou pela igualdade racial nos Estados Unidos. Em 2018, já com Donald Trump no poder, a NFL aprova multas para as equipas dos jogadores que se ajoelhem durante o hino. Goodell diz que quer "que as pessoas respeitem o hino nacional". Trump no seu hiperativo Twitter berra que os jogadores devem ser suspensos caso o façam. Dois meses depois, a medida é deixada em banho-maria após conversações entre a NFL e a associação de jogadores.

E em banho-maria ficou até que George Floyd se tornou em mais uma vítima da brutalidade policial contra os negros nos Estados Unidos e a NFL finalmente terá percebido que errou. Na última semana, já depois do atual quaterback campeão Patrick Mahomes pedir à liga "uma condenação ao racismo e à opressão sistémica das pessoas negras", Roger Goodell fez o ato de contrição.

"Estivemos errados ao não ouvir os jogadores da NFL mais cedo e ao não encorajar todos a fazer ouvir a sua voz e a protestar de forma pacífica. A NFL acredita que as vidas dos negros importam. Pessoalmente quero fazer parte desta mudança tão necessária no nosso país. Sem jogadores negros, a NFL não existiria", disse o comissário da liga num vídeo publicado nas redes sociais da NFL, em que promete ainda diálogo com os jogadores que no passado se manifestaram contra a desigualdade social da qual a NFL nunca se distanciou até à morte de George Floyd e aos protestos que percorreram as mais diversas cidades norte-americanas.

Agora, a NFL vai mais longe. Como que pagando dívidas antigas, a liga anunciou na quinta-feira que vai disponibilizar um fundo de 250 milhões de dólares (cerca de 220 milhões de euros) durante os próximos 10 anos para combater "o racismo sistémico e atuais e anteriores injustiças que os afro-americanos enfrentam".

"A NFL e as suas equipas vão continuar a trabalhar em colaboração com os jogadores no apoio a programas que se foquem na reforma do sistema criminal, do sistema policial e nos avanços económicos e da educação", pode ler-se numa nota publicada nas plataformas oficiais da liga de futebol americano.

A NFL segue assim o exemplo da federação norte-americana de futebol, que esta semana fez também marcha atrás nas regras que impediam os jogadores e staff de se ajoelharem durante o hino, pedindo perdão pelo erro. A mudança tardou, mas está a começar.

A US Soccer deve autorizar que os seus atletas se ajoelhem durante o hino em protesto contra a violência policial - como fez Rapinoe em 2017

A forma de protesto começou na NFL, mas a capitã da seleção americana de futebol, Megan Rapinoe, repetiu o gesto e ajudou a torna-lo famoso pelo mundo fora. Depois de proibir que as jogadoras e os jogadores se ajoelhassem durante a cerimónia do hino, a Federação de Futebol dos EUA pode agora voltar atrás