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Sem pescoços esticados e olhos atentos, sem suspiros e palmas. O regresso silencioso de Tiger Woods

Cinco meses depois, Tiger Woods está de volta ao PGA Tour, mas estranha o silêncio que nunca acompanhou o Memorial Tournament, agora sem público: "É um mundo diferente"

Mariana Cabral

Tiger Woods e Justin Thomas a treinar no buraco 11 do Memorial Tournament, no Muirfield Village, em Ohio

Sam Greenwood

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Mesmo quem nunca pisou a estimada relva de um campo de golfe saberá que é junto aos buracos, mais propriamente na zona circundante do green, já num relvado bem mais selvagem, que se amontoam mais pescoços esticados e olhos atentos a quem tem habilidade suficiente para pisar, e jogar, naquele pedaço de terreno impecavelmente aparado.

O público, habitualmente quieto e silencioso, só liberta a tensão acumulada quando é hora de julgar as consequências do embate de um taco numa bola. Aí, os suspiros e as palmas dividem-se, consoante o resultado da dita tacada.

Como se (ou)viu, em 1999, no buraco 14 do Muirfield Village, em Ohio, nos EUA, quando Tiger Woods salvou um par, depois de uma tentativa inicial desastrosa, e acabou por vencer o Memorial Tournament pela primeira vez na carreira.

21 anos depois e já com cinco conquistas no Memorial Tournament no palmarés (1999, 2000, 2001, 2009 e 2012), Tiger Woods está de volta, já lá vão cinco meses desde o último torneio em que participou - não competia desde fevereiro, quando terminou o Genesis Invitational em 68º, 11 pancadas acima do par.

Mas, esta semana, o Muirfield Village está muito diferente do que é habitual: resume-se a golfistas e caddies. "Não há ninguém a gritar, não há energia, há distanciamento físico, sem apertos de mão... É um mundo diferente e silencioso", admitiu Woods aos jornalistas, depois dos primeiros treinos, na terça-feira, no torneio que terá os 10 primeiros classificados do ranking mundial, incluindo o número um, Rory McIlroy.

Agora, é o silêncio que domina, não só durante as pancadas, mas também após as mesmas. "Já estive em greens em que as pessoas atiraram bebidas e gritavam, faziam high fives, corriam... Desapareceu tudo isso", acrescentou o golfista de 44 anos, ele próprio habituado a rugir em festejos de pancadas mais certeiras. "É a nossa nova realidade".

O tigre de Tiger

O tigre de Tiger

Sam Greenwood

A nova realidade do golfe é consequência, obviamente, da pandemia de covid-19, que afetou praticamente todas as modalidades do mundo, e a nova realidade de Woods é o regresso ao PGA Tour, depois de uma paragem prolongada que também foi influenciada pelas lesões que o foram afligindo.

"Consegui treinar muito e fazer muitas coisas que não fazia há muito tempo, como passar mais tempo com os meus filhos. Fisicamente, sinto-me agora muito melhor do que antes", explicou, referindo-se ao Genesis Invitational, torneio em que acabou em último entre os golfistas que conseguiram passar o cut.

"Infelizmente, nos últimos anos até estou habituado a fazer longas pausas e a ter de reconstruir o meu jogo para o nível de tour. Esta foi uma paragem forçada para todos, mas estou entusiasmado por voltar a jogar novamente", acrescentou.

Woods só não está mesmo habituado ao tal silêncio. "Em quase toda a minha carreira, até na faculdade, sempre tive muitas pessoas à minha volta, público a gritar e movimentos com câmaras", notou. "Agora é muito diferente".

Tiger Woods a treinar para o Memorial Tournament

Tiger Woods a treinar para o Memorial Tournament

Sam Greenwood

A situação não é exclusiva do Memorial Tournament (que será transmitido pela Eurosport2, quinta e sexta-feira, às 19h30; sábado, às 20h; e domingo, às 20h30), uma vez que a restante época será jogada sem público nos campos (e a Ryder Cup foi adiada para o próximo ano). "Vou ter de baixar a minha cabeça e jogar. É um dos aspetos mais interessantes dos próximos tempos, porque não deve ser algo apenas a curto prazo".

Tiger Woods também aproveitou para explicar por que razão não regressou ao Tour antes. "Considerei voltar, estive a tentar perceber se devia jogar ou não. Mas senti-me melhor ficando em casa, seguro. Estou habituado a jogar com muitas pessoas à volta, a tocarem-me, e não estava confortável com essa ideia", afirmou, evitando assim possíveis contágios aos amigos e à família.

Apesar de longe do foco mediático (que diferença em relação a outros tempos...), Woods também aproveitou as redes sociais para se juntar ao movimento #BlackLivesMatter e, questionado sobre o assunto, em Muirfield Village, lamentou a morte de George Floyd. "Acho que é fantástico conseguir mudanças, sem magoar os inocentes - algo que já aconteceu, infelizmente. Esperemos que não volte a acontecer no futuro. É assim que a sociedade evolui. É assim que nós crescemos."

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