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“Batiam-me mais de 10 vezes seguidas. Todos os atletas acabavam a chorar”: os abusos nos treinos de patinagem artística na China

Jessica Shuran Yu nasceu na China mas optou por competir pela seleção nacional de patinagem artística de Singapura. Depois de ver o documentário "Athlete A", que retrata os abusos sexuais sofridos por ginastas norte-americanas, revelou ao "The Guardian" a violência que é uma regra nos maiores centros de treinos da China

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Jessica Shuran Yu, em 2016, nos Mundiais junior de patinagem artística

Gonzalo Arroyo/Getty

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Jessica Shuran Yu nasceu, treinou e tornou-se patinadora na China, apesar de ter competido por Singapura, país de nascimento do pai. Agora, já retirada, apesar dos jovens 19 anos, Jessica falou ao "The Guardian" sobre os abusos que sofreu durante a sua formação dentro do sistema chinês e de como as praticas violentas continuam a ser regra.

"Os abusos começaram quando tinha 11 anos. Era punida sempre que fazia um erro. Em dias particularmente maus, batiam-me mais de 10 vezes seguidas, até a minha pele ficar marcada", disse a antiga patinadora, que decidiu falar depois de ver o documentário "Athlete A", que retrata os abusos sexuais sofridos por ginastas norte-americanas. Nos últimos dias, notícias sobre abusos dentro da federação britânica de ginástica e do sistema desportivo japonês vieram também a público.

Yu fala de práticas dolorosas aplicadas em crianças para, por exemplo, aumentar a flexibilidade: "Na ginástica e na patinagem artística, os miúdos têm de colocar as pernas em dois bancos e depois os treinadores aplicam pressão para as esticar ao máximo. Nos meus treinos, todos os atletas acabavam a chorar. Tinha um treinador que se chorássemos muito, ia aumentando mais 10 segundos o exercício".

Depois de abandonar a competição - chegou a participar nos Mundiais de patinagem artística em 2017 - Jessica Shuran Yu dedicou-se ao treino de crianças e recentemente trabalhou num dos mais importantes centros de treino de Pequim, onde voltou a ver abusos. "Vi uma jovem a ser agredida e arrastada pelo gelo e outra foi pressionada a competir apesar de ter os ligamentos lesionados. Teve de ser operada depois disso", revela, lamentando que os "abusos continuem" e que muitos atletas e treinadores considerem que tal "é necessário e normal na China".

Pequim vai organizar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 e Yu espera que as suas palavras façam eco no Comité Olímpico Internacional, perante a necessidade de proteger jovens atletas, nomeadamente na patinagem artística e ginástica, disciplinas em que estão mais vulneráveis, na opinião de Yu: "São desportos em que somos julgadas pela nossa aparência. Os fatos, a maquilhagem, a imagem.

"Houve uma altura na minha vida em que os abusos me fizeram odiar o desporto. Odiava ir para os treinos, desejei que houvesse acidentes de carro e chorei durante sessões de treino inteiras. Mas agora sei que o que eu odiava não era a patinagem artística mas sim a crueldade", rematou a antiga atleta.