Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

“Recebemos zero e pagamos o mesmo”: campeã nacional de skimboard não recebeu prize money, mas os homens sim. Queixa-se de discriminação

Há duas semanas, Sofia Lopes foi a melhor de quatro mulheres em prova e conquistou, pela sexta vez, o título no Campeonato Nacional de Skimboard, em São Pedro do Estoril, mas não recebeu qualquer prémio monetário, porque a organização o destinou à categoria Open, na qual apenas homens competiram. As atletas femininas também se podem inscrever e a única forma de receberem um prize money é essa: competindo contra homens. "Isto não é igualdade. Estou sempre em desvantagem fisiologicamente. É inadmissível. Não venham com a desculpa de que não somos suficientes", queixa-se a campeã nacional

Diogo Pombo

Sofia Lopes tem 32 anos, está a tirar um doutoramento em Engenharia do Ambiente e foi campeã nacional de skimboard pela sexta vez na carreira

Ana Filipa Sobral

Partilhar

Há ondas longínquas, desfazem-se longe e exigem remadas para as alcançar; para estas, inventaram-se pranchas que carregassem pessoas deitadas ou em pé para irem ter com elas e depois com elas virem até mais perto da costa. Há, também, ondas mais próximas, que quebram apenas à beira-mar e para essas inventaram-se pranchas sem quilhas, deslizantes sobre uma fina camada de água e com o peso de alguém em cima, para essa pessoa ir até à onda e regressar com a sua boleia.

É o skimboard.

É também usual chamar-lhe skimming e Sofia Lopes é a mais recente campeã nacional, recém-sagrada há quase duas semanas, pela sexta vez, ao ser a melhor na prova única que se realizou na praia de São Pedro do Estoril para entregar os títulos em tempos de contenção pandémica. Na emoção da voz não lhe cabem muitas palavras para descrever, ainda " aos saltos" na areia, o quão feliz ficou quando garantiu a conquista, porque o tempo rola igual para todos, mas para ela passou muito.

Foi como "um fecho de ciclo um bocado negro" na vida de Sofia. Há cinco anos que não competia. A meia década de ausência, por motivos de saúde mental, fê-la crer que as coisas teriam mudado e, mesmo não tendo confirmação oficial, quando pagou os 20 euros de inscrição na prova do Estoril pensou que, talvez, além do título, do prestígio, da satisfação pessoal e de toda a alegria, um bom desempenho desportivo também lhe daria um prémio monetário.

Mas Sofia Lopes ganhou e não recebeu um prize money.

No mesmo dia, em casa, fez um vídeo que não chegou aos três minutos. Publicou-o no Instagram e queixou-se de ter pagado "o mesmo preço de inscrição que o setor masculino" e recebido "a módica quantia de 0 euros, enquanto que quem participou na prova masculina recebeu prize money". Teve mais de quatro mil visualizações, mil vezes mais do que o número de mulheres que se inscreveram no evento onde conquistou o título.

Essas quatro mulheres - também participaram Kika Freire, Carolina Ruivo e Raquel Almeida - não eram abrangidas pelos 250 euros de prémio monetário do Campeonato Nacional de Skimboard, porque a quantia destinou-se apenas à categoria Open do evento, no qual competiram sete homens.

Ao todo, inscreveram-se 10 atletas masculinos, confirmou à Tribuna Expresso o Surfing Clube de Portugal, entidade responsável por organizar a prova.

Ana Filipa Sobral

As regras para as competições de skimboard são ditadas pela Federação Portuguesa de Surf (FPS), que pode delegar a sua organização a promotores, como foi o caso. No documento mais recente disponível no site da entidade, datado de 2018, lê-se que a premiação monetária é "para a prova Open".

Ou seja: a única forma de uma mulher ter acesso a prize money é inscrever-se nessa categoria mista e competir contra homens que também se inscrevam.

Segundo o que consta no mesmo regulamento, o prize money deverá ser distribuído por quem chegue à final, caso seja um evento com heats disputados por quatro atletas; ou dividido pelo pódio, se a prova adotar o formato de man on man.

A FPS não quis comentar as queixas de Sofia Lopes, mas, ao que apurou a Tribuna Expresso, a razão para não haver um prize money para o quadro feminino estará relacionado com o reduzido número de praticantes federadas no país (no total, entre homens e mulheres, o número ronda os 30).

Por isso Sofia Lopes publicou o primeiro vídeo, depois outro, e questiona agora o que garante já ter ouvido de várias pessoas. "Há quem use esse argumento: 'a igualdade existe, se quiseres ganhar dinheiro entras no Open'. E isso é igualdade? Estou sempre em desvantagem fisiologicamente. Por mais que queira, o meu corpo nunca me vai permitir chegar a um pódio. Isso, para mim, não é igualdade", critica a seis vezes campeã nacional, acrescentando que "por alguma razão, em todas as modalidades" que conhece "existe uma categoria para homens e outra para mulheres".

Poderia ter-se inscrito no Open, seriam outros 20 euros a pagar, uma inconveniência no "mês que teve agora". Sofia está a frequentar uma bolsa de doutoramento, em Engenharia do Ambiente, na Universidade de Lisboa. Teria sempre, em simultâneo, que se inscrever na prova feminina para ser campeã nacional.

Experimentou-o uma vez, diz que pela brincadeira, do mesmo modo como brinca que ainda fez "abanar" alguns atletas masculinos. Foi eliminada na primeira ronda. "Uma coisa é skimmar com amigos, outra é competir contra homens. Decidi experimentar para ver onde conseguia chegar. Nem tive hipótese", recorda.

Não teve, para já, qualquer contacto com a federação. Nem tentou sequer fazê-lo, como o fez há cinco anos.

Lembra a reunião em que esteve presente, em 2015, com os clubes e Artur Ferreira, vice-presidente da FPS, com atletas na sala, onde se discutiu o skimboard e se debateu o que fazer para o evoluir.

Havia "uma grande maioria" de praticantes, defende, que achava não haver sentido em, na altura, incluir prémios monetários nas competições, devido "ao momento" no qual estava a modalidade - "mas houve alguém a decidir que sim". Sofia Lopes disse que não concordava e pediu que o dinheiro fosse "canalizado para a divulgação" do skimboard.

Perguntou se era possível reunir com "os restantes membros da federação e os atletas" para "tentarem arranjar uma solução". A resposta, garante, foi um não.

Ana Filipa Sobral

Hoje, existem 30 atletas federados de skimboard em Portugal. Por comparação, esse é o número só de atletas com o estatuto de Alto Rendimento no surf, que tem 2.084 federados, de acordo com dados do Instituto Português do Desporto e da Juventude.

Nesta última prova emergida do que foi possível organizar-se em ano pandémico, houve 10 homens e quatro mulheres inscritas. "Até podíamos ser duas, mas merecíamos prize money por uma questão de igualdade. Não venham com a desculpa de que não somos suficientes. Mas recebemos zero euros e pagamos o mesmo valor de inscrição, é inadmissível", argumenta Sofia Lopes, suspeitadora, por exemplo, de que o "dinheiro de inscrição dos homens chegue" para o prémio monetário.

Nas publicações que a Federação Portuguesa de Surf dedicou ao Campeonato Nacional de Skimboard, nas redes sociais, identificou sete entidade parceiras. Podem, ou não, ter sido patrocinadores da prova. "O dinheiro tem que vir de várias fontes, mas uma das maiores fontes são os patrocínios. E as entidades, as empresas ou que seja, que patrocinam a prova, vão dizer que o dinheiro é só para os homens? Não dizem isso, não há discriminação", alega a atleta, que não aceita como razão o parco número de atletas femininas inscritas.

O skimming está mau, "tão mau", lamenta, que "às vezes os clubes organizam provas e têm prejuízos", mas a luta de Sofia Lopes "não é com os clubes, é com a federação", pois é a "uma entidade pública" que "impõe regras, através dos cadernos de encargos", que " são machistas e promovem a desigualdade de género".

A atleta do Estoril Praia garante que não foi para o evento a exigir dinheiro ou "500 euros", queixa-se agora da falta de prémios monetários para mulheres, mas continua a defender que a onda preferida deveria ser a visibilidade da modalidade: "Eu ganho muito com fotos e divulgação dos campeonatos. Eu e toda gente, atletas, clubes e federação".

Uma onda não vem, vai e volta a vir contra a areia. Mas por cada onda que quebra há outra que se pode formar logo atrás e Sofia Lopes acredita que primeiro se terá de trabalhar "na divulgação e visibilidade" para fazer do skimboard uma modalidade "sustentável" para, só aí, "se poder falar em questões de prize money".

Por haver euros e os euros que há ainda irem apenas para a categoria Open e, consequentemente, para homens, que a alegria, os sorrisos e os pulos que deu na praia onde fechou um ciclo não chegaram que evitar que ficasse "super magoada com a decisão da federação". Porque percebeu que era "mais do mesmo", perceção que a levou a falar.