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Caeleb Dressel: pode o homem que não quer ser Phelps tornar-se o novo Phelps?

Aos 24 anos, o nadador natural da Flórida está a brilhar na etapa de Budapeste da Liga Internacional de Natação. Na segunda-feira, tornou-se no primeiro homem a bater a barreira dos 50 segundos nos 100 estilos e daqui a nove meses, nos Jogos de Tóquio, poderá tentar igualar os oito ouros olímpicos de Phelps. Perfil de um homem profundamente religioso e eternamente insatisfeito

Lídia Paralta Gomes

FRANCOIS-XAVIER MARIT/Getty

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O relógio parou, ainda os 50 segundos não tinham aparecido e isso é coisa que até àquele instante nunca se havia visto numa prova dos 100 metros estilos, uma daquelas corridas que só uma piscina de 25 metros pode receber. Foi na segunda-feira, na etapa de Budapeste da Liga Internacional de Natação (ISL), recente competição por equipas que junta muitos dos melhores do Mundo a dar braçadas.

O relógio parou, portanto, aos 49,88 segundos, quando Caeleb Dressel tocou na parede da piscina do Duna Arena, 38 centésimos mais cedo que Vladimir Morozov em 2018. A ISL não é um Mundial de piscina longa ou uns Jogos Olímpicos e a piscina curta é uma espécie de parente pobre da natação mas aqui, mais do que o onde, importa o quem e o como.

Porque num mundo órfão de Michael Phelps, a verdade é que não demorou muito tempo até aparecer um novo papão de recordes. Hoje, em novembro de 2020, poderíamos estar a falar de Caeleb Dressel como uma das estrelas do Jogos Olímpicos de Tóquio, não tivesse a pandemia trocado as voltas à tradição centenária, só interrompida nas duas Guerras Mundiais, de uma Olimpíada durar quatro anos. As contingências não parecem, porém, ter retirado a Dressel, nascido há 24 anos na Flórida, um pingo de estatuto de candidato a figura maior no Centro Aquático Olímpico de Tóquio daqui a alguns meses, assim permita a pandemia - e aquele relógio parado aos 49,88 segundos, a bater a barreira psicológica dos 50 segundos, serviu para nos recordar disso mesmo.

O rapaz das enormes tatuagens no braço e ombro esquerdo e que, antes da federação internacional de natação o proibir, nadava com versículos da Bíblia inscritos na cara, prova da sua enorme fé, ainda partilhou as glórias olímpicas com um dos seus ídolos. Ao lado de Phelps, foi campeão olímpico no Rio de Janeiro nas estafetas 4x100 livres e 4x100 estilos, tinha então 19 anos. Curiosamente, foi a ver a estafeta dos 4x100 livres nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, o tal em que Phelps conquistou oito ouros, que Dressel percebeu que era a natação que queria.

Antes disso, a sua cabeça estava no futebol americano. “Nem sempre gostei de nadar. Era o contrário - chorei a primeira vez que tentei nadar mariposa. Eu gostava era de correr, o meu sonho era ser receiver na NFL”, confessou em entrevista à BBC, em setembro de 2019.

Dois meses antes dessa entrevista, Caeleb Dressel tinha batido duas míticas marcas de Michael Phelps nos Mundiais de Gwangju, na Coreia do Sul: conquistou oito medalhas, superando as sete que Phelps conseguiu nos Mundiais de 2007 e 2011 e as suas sete do Mundial de 2017, e ainda bateu o recorde mundial dos 100 metros mariposa do nadador de Baltimore, que durava há 10 anos.

O feito deveria ser suficiente para efusivos festejos, mas Caeleb Dressel, que desde miúdo aponta todos os pensamentos num diário, é um eterno insatisfeito, muitas vezes duro consigo próprio - e aí terá mais semelhanças com Phelps do que com Ryan Lochte, outro dos seus ídolos. “No dia em que os Mundiais acabaram eu estava feliz, mas não estava nem pouco mais ou menos satisfeito com o meu desempenho”, confessou numa conversa para a revista oficial da FINA, em dezembro. “Sou obcecado com a ideia de melhorar, é simples”, diria.

A exigência que sempre colocou nos seus próprios ombros quase o faziam desistir das piscinas depois do Mundial de juniores de 2013, no Dubai. Todos esperavam que Dressel, já então visto como uma futura estrela, regressasse aos EUA carregado de medalhas de ouro, mas só venceu os 100 metros livres. Numa altura crítica para a evolução, na passagem do secundário para a universidade, deixou as piscinas por seis meses. Voltaria a treinar ainda a tempo de conseguir uma bolsa no prestigiado programa da Universidade da Flórida, que formou, entre outros, Lochte, Dara Torres ou Dana Vollmer, todos eles campeões olímpicos.

Nos últimos Mundiais, em 2019, conquistou oito medalhas, um recorde

Nos últimos Mundiais, em 2019, conquistou oito medalhas, um recorde

OLI SCARFF/Getty

Foi ainda antes de se tornar profissional que apareceu nos Jogos do Rio. No ano seguinte confirmou o estatuto de herdeiro de Phelps, ao conquistar sete medalhas de ouro nos Mundiais de Budapeste, evento em que conseguiu também o feito inédito de conquistar três títulos no mesmo dia. Dois anos depois faria o mesmo na Coreia do Sul.

Os oito ouros olímpicos de Phelps estão em perigo?

As comparações podem ser uma cruz e Caeleb Dressel não gosta delas, até porque atenção não é algo que deseje. “Nunca gostei muito destas coisas com os media, desculpem”, diria na entrevista à FINA em dezembro. “Por mim era só eu, a água, o meu treino, o meu treinador e os meus colegas de equipa, mais nada. Não quero ser famoso”. Difícil quando se é comparado ao maior olímpico da história.

Mas poderá Dressel repetir em Tóquio os oito ouros de Michael Phelps em Pequim? A tarefa é possível, mas complicada. Nos Mundiais de Gwangju, há um ano, Dressel conquistou medalhas em precisamente oito eventos: ouro nos 50 e 100 livres, nos 50 e 100 mariposa e nas estafetas 4x100 livres masculinas e mistas e prata nas estafetas 4x100 estilos masculinas e mistas. O problema? Nem todos estes eventos são olímpicos, nomeadamente os 50 mariposa e os 4x100 livres mistos.

A festejar com Phelps a vitória nos 4x100 livres nos Jogos do Rio, em 2016

A festejar com Phelps a vitória nos 4x100 livres nos Jogos do Rio, em 2016

Tim Clayton - Corbis/Getty

Assim, para igualar Phelps, Dressel terá de tentar outras distâncias onde não é especialista: ao contrário de Phelps, que brilhava nas provas dos 100 aos 400 metros, Dressel é um puro velocista, praticamente imbatível nas provas rápidas de 50 e 100 metros em livres e mariposa. Em entrevista à Reuters, o especialista em história olímpica Bill Mallon sublinha que são exatamente as características de Dressel que tornam improvável que belisque Phelps, até porque as distâncias mais curtas são muito mais abertas em termos de resultados: “Quando és um velocista, há sempre um elemento de imprevisibilidade nas provas. Um risco muito maior”.

Contudo, é o próprio Michael Phelps que não vê impossível a tarefa de Caeleb Dressel. Precisamente após o Mundial de 2019, o vencedor de 28 medalhas olímpicas sublinhou que o compatriota pode muito bem igualar o seu feito de Pequim 2008, mas que para tal terá de ter uma semana “perfeita” e melhorar outras valências. “Ele tem a velocidade, mas precisa de trabalhar a sua resistência para conseguir competir em provas mais longas”, explicou Phelps à AP.

Um lugar na estafeta norte-americana dos 4x200 livres é uma hipótese que o próprio Dressel já considerou e os 200 estilos, que já nadou em piscina curta em campeonatos universitários, poderiam completar o ramalhete das oito provas em Tóquio. Porém, o calendário da natação nos próximos Jogos Olímpicos poderá não permitir a combinação destas provas.

Mas Dressel não quer ser o próximo Phelps, quer traçar o seu próprio caminho. As oito medalhas de ouro poderão ou não acontecer. Na verdade, não é isso que o move. “Não é por causa disso que estou neste desporto… não é para bater o Michael. Não é para ser mais rápido que o Michael”, disse à AP em dezembro.

Os próximos meses trarão respostas sobre se de facto Dressel não pensa nas oito medalhas de Phelps. A qualificação norte-americana para os Jogos de Tóquio será apenas em junho de 2021. Até lá haverá tempo.