Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Klete Keller esteve entre os invasores do Capitólio: a complicada história do antigo campeão olímpico e colega de Michael Phelps

Ganhou duas medalhas de ouro ao lado de Phelps, mais três de outras cores. Agora é acusado de fazer parte da multidão que atacou e invadiu o Capitólio na última quarta-feira. Klete Keller, que depois de abandonar a competição chegou a ser sem-abrigo, apagou as redes sociais, onde era um apaixonado apoiante de Donald Trump, e poderá ter agora a justiça a bater-lhe à porta

Lídia Paralta Gomes

Vladimir Rys/Getty

Partilhar

Há 13 anos, em Pequim, Klete Keller fez parte da história: ele estava lá naquela estafeta 4x200m livres que permitiu a Michael Phelps bater o recorde de oito medalhas de ouro numa única edição dos Jogos Olímpicos. Quatro anos antes, nos Jogos de Atenas, foi o último trunfo da equipa dos Estados Unidos na mesma estafeta, conseguindo suster o ataque de Ian Thorpe e tocar a parede a 13 centésimos antes da super-estrela australiana, confirmando o ouro numa das mais impressionantes estafetas olímpicas da história.

Mas em 2021, Klete Keller, que tem ainda mais três medalhas olímpicas no currículo - uma prata em Sydney 2000 nos 4x200m livres e dois bronzes nos 400m livres em Sydney 2000 e Atenas 2004-, é notícia por outros eventos multitudinários que não os Jogos Olímpicos. O antigo nadador, hoje com 38 anos, surge nas imagens da invasão ao Capitólio, na última quarta-feira, como parte da massa de apoiantes de Donald Trump que entrou pela casa da democracia norte-americana adentro, num ataque que acabou com cinco mortes e um rastro de violência.

A notícia foi avançada pelo portal SwimSwam, dedicado à natação, depois de vários antigos treinadores e colegas de equipa de Keller reconhecerem o antigo atleta num vídeo do ataque e reportarem o caso às autoridades. Os quase 2 metros de altura de Keller e o facto de estar a usar um casaco oficial da equipa olímpica norte-americana ajudaram na identificação.

Depois do ataque da última semana, Klete Keller apagou as suas redes sociais, onde antes era um fervoroso apoiante de Donald Trump.

Vida difícil depois da glória olímpica

Natural de Las Vegas, Klete Keller vive atualmente no Colorado onde até segunda-feira trabalhava para uma empresa da área do imobiliário. Apesar da identidade de Keller não estar oficialmente confirmada, na terça-feira a Hoff & Leigh anunciou que o antigo nadador tinha deixado a companhia, sublinhando, em comunicado, que a empresa “não tolera ações que violem a lei”.

Foi este o frame que ajudou antigos colegas a identificar Klete Keller no Capitólio

Foi este o frame que ajudou antigos colegas a identificar Klete Keller no Capitólio

Depois de deixar a natação, precisamente após Pequim 2008, Klete Keller sentiu dificuldades em adaptar-se à vida fora dos treinos e competição, passando momentos de depressão. Numa entrevista à NBC Sports, em 2014, admitia ressentimentos por se ter “dedicado demasiado” à natação, deixando a vida pessoal para trás. Por essa altura, Keller passava por um divórcio complicado. Em 2018 falou desse período difícil numa reportagem da federação norte-americana, revelando que chegou a ser sem-abrigo durante quase um ano, altura em que também estava impedido de ver os três filhos.

“Pagava a pensão dos meus filhos e não tinha dinheiro para ter uma casa. Por isso vivia no meu carro”, disse então. O único gasto extra que mantinha então era a mensalidade do ginásio, para ter um sítio onde tomar banho.

Na mesma reportagem, Keller admitia a difícil transição para a vida dos comuns mortais, depois do sucesso olímpico que, diz, não o preparou para a pressão de ter um emprego e uma família. “Depois da natação, eu pensava que tinha de encontrar o mesmo nível de sucesso no trabalho. E fosse o que fosse que estivesse a fazer, eu não gostava. Na natação tens de ser um pouco egoísta para conseguir ser bem-sucedido, mas quando és pai e marido, tens de ser mais altruísta - e eu não era”, frisou.

Por essa altura, em 2018, Klete Keller estaria já a recompor a sua vida no Colorado, mas os acontecimentos da última quarta-feira podem colocá-lo de novo em maus lençóis. Caso as autoridades confirmem a sua identidade, o antigo nadador poderá ser acusado de crimes como desordem, entrada ilegal ou roubo de propriedade do governo.