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Os filhos do pai foram derrotados

Portugal entrou no seu quarto Mundial de andebol com uma vitória (25-23) contra os islandeses, que defrontaram pela terceira vez este mês e, como qualquer islandês, têm no apelido o primeiro nome do pai que de nada lhes serviu para contrariarem a seleção nacional

Diogo Pombo

Khaled Elfiqi / POOL

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São quatro minutos e nove segundos, filhos do pai, o relógio tem de engordar isso tudo para o braço armado de André Gomes disparar o míssil descendente, à distância, no andebol o que não está bem dentro da área dos nove metros é distante da baliza, mesmo que para a fisicalidade de bons brutos como André Gomes esses metros são poucos, é uma questão de puxar a braçadura atrás, mas os islandeses, filhos do pai, são uma muralhassón.

Até esses quatro minutos e nove segundos Portugal não marca, mas esbarra e colide contra a muralha de pedras esquálidas como o equipamento que vestem, os islandeses mesclam a defesa à zona com vigilâncias individuais esporádicas, mais frequente quando despistam que a bola irá para o lateral esquerdo que é André Gomes e marcam-no, estão cientes da ameaça, por tanto quererem neutralizá-la os filhos do pai ficam com três cartões amarelos antes de serem progenitores de um golo sofrido.

É um desbloqueio moroso, os portugueses demoram a tirar o zero do seu lado, felizmente de passagem não tão vagarosa quanto os 17 anos, 11 meses e 15 dias custaram a passar desde a última vez que a seleção esteve num Mundial, foi em 2003 e os tempos eram outros, agora o tempo diz que Portugal foi cabeça-de-série do sorteio e 6.º no último Europeu, em 2020, foi uma das coisas boas desse ano de bicho malvado.

E feitos os tais quatro minutos e nove segundos de tempo,Portugal cresce e não pára, é sempre em crescendo, o central Rui Silva mostra-se e André Gomes ainda mais, só há Gilberto Duarte de vez em quando - dos melhores jogadores nacionais, vindo da lesão que o tirou do Campeonato da Europa -, mas as vezes do guarda-redes Quintana aumentam, vai bloqueando bolas com a sua presença aranhiça na baliza enquanto os golos portugueses já entram em quase todos os ataques.

O gigante português das defesas que nasceu em Cuba vai parindo esperança uma e outra vez, Quintana faz paradas e festeja uma em particular, berrando e endurecendo a pose, feita diante Bjarki Már Elísson, o filho do pai com longos cabelos e fita na cabeça a prendê-los que não falha, dizem e repetem os comentadores que de andebol muito mais percebem e acompanham, incluindo os dois jogos que Portugal já tinha feito com a Islândia este mês.

Khaled Elfiqi / POOL

Porque antes deste primeiro encontro do Grupo F do Campeonato do Mundo houve uma partida em Matosinhos (26-24), outra em Reiquejavique (32-23), cada uma vencida pelos caseiros, que tinham exposto o que, potes de sorteio à parte, a teoria andebolista ainda diz: os islandeses têm muitos jogadores, muita tradição e muito hábito nas principais ligas europeias; os portugueses vão tendo agora, em anos mais recentes.

Mas é Portugal que sai com um 13-11 ao intervalo, muitos minutos houve aí para recordar que esta é apenas a quarta participação em Mundiais, antes houve um 19.º lugar (1997), um 16.º (2001) e um 12.º (2003) e entretanto contaram-se 6.559 dias até este jogo, no Egito, com uma segunda parte melhor para os portugueses do que para os nórdicos filhos do pai.

Nessa meia hora estabilizou a sua forma de defender, mais agressiva a tentar e conseguir interceções sem ficar à espera num alinhamento de seis-zero, aos três golos feitos de contra-ataque antes do intervalo junta outros a partir da metade dos segundos 30 minutos, quando a Islândia começou a optar por avançar o guarda-redes e arriscar jogar com a superioridade numérica.

Teve que o fazer pela vantagem com raízes portuguesas, a seleção esteve sempre a ganhar até ao fim, por momentos por quatro golos, quando o central Miguel Martins fez um de rosca e outro em apoio, duas amostras geniais (seria o homem do jogo), depois por três, quando o sustento já eram os contra-ataques e, talvez, jogadas combinadas, porque houve um desconto de tempo mesmo no fim em que se ouviu o ambicioso, honesto e carismático Paulo Jorge Pereira dizer “fazemos o Vasco da Gama”.

O selecionador, porém, parecia a calma em pessoa, não duvidaria que Portugal iria ganhar como ganhou (25-23) aos filhos do pai, eles são-no mesmo, o apelido de todos estes islandeses veio do primeiro nome do pai ao qual se acrescentou o sufixo “son”, e foram derrotados pelos Heróis do Mar, é assim que a Federação Portuguesa de Andebol chama aos jogadores da seleção nacional, condizente com o nome que o treinador parece ter dado a uma jogada.