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"É preciso correr, meus amigos". E eles bem que correram

Foi o que Paulo Jorge Pereira disse, num dos descontos de tempo, aos jogadores da seleção nacional que acabariam o encontro contra a Noruega, vice-campeã mundial, com um remate ao poste que teria deixado tudo empatado (28-29). No fim, os noruegueses festejaram como se estivessem a conquistar um troféu

Diogo Pombo

Pixsell/MB Media

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“Contra Portugal vai ser apertado e duro no meio, por isso temos de largar a bola no momento certo e ter largura no ataque. Queremos contra-atacá-los o máximo possível.”

Christian Barge disse isto no seu idioma, ou algo parecido terá dito, do norueguês para o inglês pode perder-se algo até se chegar ao português, mas foi isto, o selecionador norueguês a assumir querer contrariar, contradizer e opor-se, logo a dar como certo que seria atacado, o “isto” então era, em parte, quem manda na equipa finalista dos dois últimos Campeonatos do Mundo a esperar ser machucado por quem aí vinha.

Eram os portugueses que não têm finais de Mundiais ou Europeus jogadas e poucos há que joguem onde os melhores jogam na Europa, como Sander Sagosen, o massudo imparável do THW Kiel que é do mais sublime que há no andebol mas, logo ao segundo minuto, está a rebolar no chão do pavilhão, teatralizando como praticantes desportivos com outros membros por sofrer uma falta para um livre de sete metros.

Seria a primeira de três exclusões para a seleção nacional na primeira parte. Começaria e acabaria com menos um em campo e os noruegueses a carregarem, gelados martelos pneumáticos a despejarem o embalo físico contra a linha portuguesa, mas atrás, na última muralha, estava o gigantesco Alfredo Quintana, tentacular a negar uns cinco ou seis remates, incluindo uma tentativa a sete metros. E a alimentar o resto.

As suas paradas deixaram que Portugal insistisse, teimasse e melhorasse, André Gomes e Rui Silva a marrarem contra os adversários pela velocidade, insistindo em movimentos repentinos e de pouca preparação para ultrapassarem o bloco da Noruega sem o furarem com corpos, mas com espetáculo. O golo mais bonito do jogo surgiu do central Rui, em suspensão, a fingir um remate dos nove metros e a pairar até soltar a bola no salto do lateral André área dentro, para ser ele a finalizar no ar.

A constância da primeira parte foi o empate ou a separação por um golo, mas, nos ataque em que a seleção não marcava - e mesmo quando davam em golo - a Noruega ligava os prometidos contra-ataques, todos com facilidade e rapidez letais por serem frenéticos a repor a bola em jogo e os portugueses demoravam a recuperar e o alarme de Paulo Jorge Pereira a tocar, num dos descontos de tempo: “ou corremos ou eles vão-nos massacrar”.

O 14-16 ao intervalo estava longe disso, refletia um quase tu cá, tu lá, só que no arranque da segunda parte houve mais uma exclusão portuguesa, os noruegueses aproveitaram e a vantagem passou para quatro, depois para depois, e para três e a seguir o jogo entrou na roda viva das exclusões.

A primeira foi portuguesa e haveria outra mais, não tão reincidente quanto a Noruesa, que somou três, um par delas para Sagosen, estrela pelo que joga e os tiques que emana, a refilar com o árbitro a cada decisão contrária ao que pretendia. Quando voltaram a ser sete corpos de cada lado, um golo à distância de Fábio Magalhães encurtou a desvantagem para um golo.

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

Para a frente foi um jogaço, não que antes o jogo fosse de menos, passou a ser para mais, Portugal começou a dar e a jogar mais porque entrou Humberto Gomes, não foi apenas por ele mas muito se correlacionou com ele o empate que, a sete minutos do fim, a seleção nacional conseguiu.

O guarda-redes de 43 anos, e infinitamente mais bolas vistas a serem arremessadas contra ele, entrou e negou os cinco primeiros remates que recebeu, nenhum entrou, Humberto desceu ao piso ou esticou-se para os ângulos de cima, todo um corpo sabido com a idade a rejuvenescer-se em cada defesa e a dar a plataforma para Portugal, a insistir nos ataques sete-contra-seis, se colocar a ganhar pela primeira vez.

Mas, logo a seguir, Iturriza foi excluído e tudo poderia ter descambado, verdade que a Noruega se fortaleceria no que é forte e mais golos fez a alta velocidade. Só que não seria o fim.

Humberto Gomes continuaria a correr para a baliza e parar uns quantos remates e com ele correram os portugueses, rijos a tapar espaços a defender e a irem com tudo no ataque aos que havia entre corpos nórdicos, que no derradeiro par de minutos fizeram faltas atrás de faltas (muitas no limiar da equivalência ao livre de sete metros) para emperrarem, pela força, o ímpeto dos portugueses.

Depois de esbarrar em corpos, bloqueios, faltas e puxões de camisola, a seleção colidiria com o poste direito da baliza norueguesa, Portugal metaforizado no braço de Rui Silva que fisgou a última bola, no último segundo, contra uma margem da baliza. A seleção nacional perdeu por 28-29 e os nórdicos a rejubilarem, gente fria vinda do frio e tão habituada a conquistas, a celebrarem abraçados, aos pulos e aos berros a vitória.

Foi a prova não necessário do quão bem e ameaçadoramente Portugal jogou, joga e já é encarado neste Mundial, onde mantém os seis pontos que trouxe para a segunda fase de grupos (main round), da qual sairão apenas duas de seis seleções. “É preciso correr, meus amigos”, insistiu Paulo Jorge Pereira naquele desconto de tempo para agitar as almas. Se querem ganhar aos portugueses, está provado que os outros é que terão de correr muito.

  • Objetivos? Até agora, eficácia total
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    Apesar de algum desacerto no ataque e da tranquilidade só ter aparecido nos últimos minutos, Portugal bateu a Argélia (26-19) e segue para a Main Round do Mundial do Egito com os objetivos, para já, imaculados. Ou seja, só com vitórias

  • Os filhos do pai foram derrotados
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    Portugal entrou no seu quarto Mundial de andebol com uma vitória (25-23) contra os islandeses, que defrontaram pela terceira vez este mês e, como qualquer islandês, têm no apelido o primeiro nome do pai que de nada lhes serviu para contrariarem a seleção nacional