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“Se nos apurarmos para Tóquio vamos todos fazer uma tatuagem com os anéis olímpicos, no mesmo sítio. Até o médico, com quase 80 anos”

Paulo Jorge Pereira é selecionador nacional de andebol desde 2016 e foi com ele que Portugal conseguiu os melhores resultados da sua história: 6.º no Europeu em 2020 e 10.º no recente Mundial de 2021. Mas antes disso teve de sair do país para se tornar 100% profissional, passou por Espanha, Angola, Tunísia, até regressar ao país para tentar mudar a mentalidade derrotista do jogador português. "Em 2016, quando entrei, eu sentia que os jogadores vinham à Seleção fazer um frete e agora a malta vem com aquele brilhozinho nos olhos. Porque antes vinham para perder", diz o treinador de 55 anos, em conversa com a Tribuna Expresso. O próximo desafio está quase aí: em março vai tentar apurar Portugal para os Jogos Olímpicos

Lídia Paralta Gomes

OLE MARTIN WOLD/Getty

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Ainda lhe passa muito pela cabeça aquele remate ao poste do Rui Silva no último segundo do jogo com a Noruega?
Não, não penso muito. Até porque na prática o que nós iríamos usufruir se esse remate tivesse sido golo era ganhar um lugar na tabela, em vez do 10.º lugar ficaríamos em 9.º. Isto friamente. Mas há uma influência que é difícil de quantificar: no caso de termos empatado com a Noruega, o que é que aconteceria nos jogos seguintes? Não é a mesma coisa perder por um ou empatar, provavelmente isso teria alguma influência. Que até poderia ter sido negativa, nunca sabemos. É um bocadinho difícil dizer o que poderia suceder se temos conseguido esse empate. Mas estar no top 10 para mim já é muito honroso.

Há aqui algo de paradoxal: acabar em 10.º lugar é histórico, porque é melhor resultado de sempre de Portugal em Mundiais, mas fica a sensação que era possível fazer melhor.
Para nós percebermos o que aconteceu nestes últimos dois anos, basta só colocar o andebol num âmbito de empresa: se pensarmos qual é a empresa portuguesa que, num determinado domínio, a nível europeu está em 6.º lugar ou em 10.º lugar a nível mundial, entendemos a importância destes dois resultados em duas competições internacionais deste nível. Se o fizermos assim, provavelmente vamos ficar todos muito contentes. O que é que faz com que tenhamos aqui um misto de contentamento e ao mesmo tempo não estamos completamente satisfeitos? Porque fomos arrojados a estabelecer um objetivo que sabíamos que era muito difícil, mas que com alguns fatores a confluir a nosso favor, poderíamos ter conseguido. E provámos isso. Bastava termos ganhado à Noruega e só precisávamos de ganhar à Suíça, nem precisávamos de ganhar à França. Isso não aconteceu, mas ficámos muito pertinho. Não fomos loucos a estabelecer um objetivo de ficar nas oito melhores seleções do mundo. E se lá tivéssemos chegado, aí íamos lutar por uma medalha. Compreendo que alguns de nós tenhamos ficado tristes, mas bem vistas as coisas temos de estar muito satisfeitos, acabámos por perder com a Noruega, uma das eternas medalhadas, e com a França, que tem o currículo que tem. A nossa obrigação foi cumprida.

Há 10 anos se calhar era impossível termos sequer a oportunidade de ter este sentimento de tristeza.
Há 10 anos não, há quatro anos. Se há quatro anos me dizem 'Olha, vocês vão ficar em 6.º lugar no Europeu 2020 e vão qualificar-se para o torneio pré-olímpico'. Primeira vez na história do andebol português. Nós vamos a andar a lutar para ir aos Jogos Olímpicos, que é uma coisa extraordinária. E vamos continuar a sonhar com isso, até não ser possível ou até se concretizar. Claro que isto implica que toda a gente tenha os pés bem assentes no chão. É possível, mas também podemos perder. Se cairmos que seja de pé. Mas vamos tentar não cair.

O pré-olimpico está quase aí, em março. Já se vê na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos?
Eu vejo-me é a fazer uma caminhada muito difícil para lá chegar. Vamos depender muito dos problemas físicos, tivemos imensos agora no Mundial. Tivemos problemas físicos com vários jogadores e não conseguimos que eles tivessem chegado ao jogo que decide, com a França, nas melhores condições. Vamos depender muito do trabalho que será feito nos clubes. São três jogos em três dias sucessivos: 12, 13 e 14 de março. Taticamente e tecnicamente é mais fácil, mas se não estiverem preparados fisicamente... não há milagres.

PETR DAVID JOSEK/Getty

Essas mazelas físicas acabaram por atrapalhar os objetivos neste Mundial?
Tivemos quatro ou cinco atletas que não conseguimos preparar para uma exigência elevada. Temos um jogador que vem de França já com problemas e não conseguimos recuperá-lo... ainda jogou mas esteve longe do que pode fazer. E isso, por exemplo, acaba por comprometer um pouco o meu plano em termos de sistemas defensivos. Eu tinha pensado ter um sistema defensivo alternativo que não consegui trabalhar. Todas as seleções tiveram este tipo de coisas, mas nós talvez tenhamos tido mais. Também já agora refiro outra condicionante que foi, para mim, decisiva e até de certa forma injusta.

Força.
Nós este ano, devido à pandemia, tivemos de jogar a 3.ª e 4.ª ronda de apuramento para o Europeu no dia 6 e no dia 10 de janeiro e calhou-nos jogar com a Islândia, casa e fora. As pessoas já podem imaginar o que é jogar em Portugal no dia 6, viajar no dia 7 para a Islândia, treinar com não sei quantos graus negativos, sem poder usar o ginásio ou o pavilhão quando quiséssemos, por causa das restrições. Jogámos lá dia 10 e no dia 14 já estávamos a jogar no Egito, com 27 graus. Nós não nos podíamos dar ao luxo de perder esse jogo em casa. Se esse jogo não fosse importante, eu garanto que nós fisicamente íamos estar muito melhor no início do Campeonato do Mundo. Já as seleções que estavam no nosso grupo de cruzamento, a Noruega e a França... a Noruega mandou a equipa B jogar contra a Bielorrússia. Nós não podíamos fazer isso, estamos sempre a jogar no limite. Acho que não é justo e a federação internacional deveria impedir que isso acontecesse. Ou estamos todos no mesmo barco ou então não tem muita lógica. Mas pelo menos fico contente porque já estamos praticamente apurados para o próximo Europeu.

Como foi organizar a logística e preparar o Mundial nestas circunstâncias de pandemia?
No início senti-me mais ou menos a salvo. Fizemos o teste logo no aeroporto, ainda na plataforma, e depois logo a seguir no hotel também, um rápido e um PCR. Dois testes seguidos... eu nem percebi. Depois eram PCRs todos os dias. Mas pareceu-me haver alguma incoerência porque quando trocámos de hotel houve ali um dia, enquanto esperávamos que a nossa sala separada estivesse pronta, em que fomos comer a um restaurante onde toda a gente come [risos]. Tivemos de avisar 'epá, vocês não toquem em nada, vejam lá isso'. Sempre a lavar as mãos, a desinfetar o mais possível... mas tivemos sorte, nunca nos aconteceu nada. Houve atletas que tiveram de ficar lá em quarentena quando as suas equipas regressaram.

Os próprios atletas já estão habituados a toda esta rotina de pandemia.
Sim, mas é duro. E se calhar não é por acaso que são duas equipas nórdicas que vão à final. Primeiro porque eles são muito bons, mas ao mesmo tempo também a frieza deles também os ajuda a adaptarem-se melhor as estas mudanças do que nós. Os portugueses têm aquela necessidade do contacto com as pessoas, isso nos latinos nota-se mais. O Quintana, por exemplo, não só na Seleção como no clube, este ano não tem tido o mesmo desempenho que em anos anteriores, porque ele é uma pessoa muito emocional, que adora jogar, adora partilhar com o público. Quem ganhar este Mundial devia ter uma medalha um bocadinho mais grossa, porque não é fácil estar tanto tempo encerrado, sem poder sair, dar um passeio. No nosso grupo a relação continuou saudável, mas reconheço que é mais difícil que os atletas rendam ao nível que poderiam render noutra circunstância. Aquilo que o Descartes dizia, o 'penso, logo existo', ele não tem razão nenhuma porque nós nunca podemos dissociar a mente do corpo. Uma coisa influencia a outra.

Este grupo da Seleção é muito heterogéneo, com várias gerações, várias origens. Onde é que tudo se agrega?
Eu acho que é isso que nos dá mais saúde. Há atletas que estão no seu mundo e nós deixamo-los estar, respeitamos. O André Gomes, por exemplo. Há um jogo que é o kendama, que é um objeto com uma bola, um fio e uma estrutura em madeira e fazem-se vários malabarismos com aquilo. Havia quatro atletas com esse jogo. O nosso segundo hotel era mesmo em frente às pirâmides e era excecional porque eu olhava da minha varanda e eu via os quatro a tentarem superar-se uns aos outros. E mesmo no balneário, já estávamos a calçar-nos e o André Gomes lá estava com o kendama lá atrás, sozinho, a fazer a sua preparação mental para o jogo. E eu dizia 'deixa-o estar'. Essa heterogeneidade não só ao nível de idade como de forma de estar é interessante e saudável para o grupo.

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Como é que o Humberto Gomes, com os seus 43 anos, se dá com os mais novos?
O Humberto é uma pessoa excecional na forma de estar, tem um comportamento que o faz aproximar-se dos mais novos. Mas entrando na cabeça dele eu tenho a certeza que há coisas que ele não entende muito bem no funcionamento deles [risos]. Ele tem uma coisa que os mais novos de certeza que aprendem com ele: com aquela idade é dos que mais treina, dos que tem mais compromisso. Os grupos heterogéneos são os melhores, se fossemos todos iguais, com o mesmo comportamento aquilo ia ser uma pasmaceira.

Há 30, 25 anos tivemos uma influência decisiva da vinda de jogadores de Leste para a Seleção, agora temos vários atletas cubanos. O que é que eles trouxeram à Seleção?
Primeiro, trouxeram peso e altura. E isso foi fundamental para podermos crescer a nível internacional. E depois também trouxeram ambição e nenhum tipo de preconceito em jogar contra atletas de renome. Para eles é igual, jogam contra qualquer tipo de jogador e equipa sem qualquer preconceito. Trouxeram também alegria. O Quintana anda sempre com música atrás, sempre a dançar. Mas também compromisso, eles a treinar não brincam. Nós também temos atletas com essas características, e muitos, mas outros que não. E que têm de aprender estas coisas com eles. Acho que foi importantíssimo e decisivo para crescermos a nível internacional.

Essa questão de eles não terem qualquer receio em jogar contra equipas mais fortes imagino que também terá ajudado os jogadores portugueses a não se sentirem tão "pequeninos" nesses jogos grandes.
Eu acho que isso foi das coisas mais difícil que tive de fazer aqui na Seleção. Tentar passar essa barreira, de convencer não só os jogadores, toda a gente, de que nós poderíamos fazer coisas interessantes. Tive dificuldade em que não pensassem que eu era maluco. Se nós prepararmos bem, planificarmos bem... Mas temos muito a melhorar. Se melhorarmos alguns aspectos podemos continuar a jogar de igual para igual com os mais fortes. Nunca esquecendo que o facto de termos tido bons rendimentos nestas duas competições não quer dizer que daqui a quatro ou cinco anos não estejamos na estaca zero. Temos de continuar a trabalhar na questão da deteção de talento, no treino com os mais novos, nos factores físicos, técnicos, táticos, teóricos, tudo. Felizmente temos treinadores cada vez mais preparados, mas não temos um campeonato muito competitivo: temos três equipas que se destacam e as restantes com muito sacrifício a tentar competir.

O perfil do jogador português parece ter mudado um bocadinho nos últimos anos. Há cada vez mais jogadores perto dos dois metros, fisicamente poderosos. A biologia explica isto ou há um trabalho de base mais específico na busca de talentos?
Eu acho que o paradigma vai modificando-se pouco a pouco. Os treinadores aqui há uns anos teriam uma visão um pouco diferente da que têm agora. Não todos, mas há treinadores que nos juvenis querem ganhar competições e pensam muito mais no resultado do que em formar atletas. No próprio treino não pensam tanto em que um atleta aprenda a fintar, a usar as duas mãos, a passar com eficácia. Pensam é fazer uma ação tática que viram o Kielce fazer ou o Flensburg, passam horas naquilo e o atleta continua sem saber fintar. Não nos focamos muito na tática individual e sim na coletiva e isso é um erro. Mas existe cada vez menos e por isso temos cada vez mais possibilidades de encontrar atletas com um perfil adequado. Existem alguns atletas com níveis antropométricos fantásticos, mas não são muitos. Nós vamos à Noruega e eles são quase todos daquele tamanho. Aqui quase que temos de andar com eles em palhas para eles não se perderem! Nós temos um número de praticantes imensamente inferior à França e à Noruega, mas o certo é que conseguimos competir com eles.

Ainda há muito para fazer na formação?
Sim. Há muito para fazer, ainda não é suficiente. Espero que o impulso destas duas participações ajude. Só agora é que começámos a aparecer na RTP - foi preciso ficarmos em 6.º lugar no Europeu e chamar a atenção de toda a gente para o Mundial dar na RTP. E na RTP2, calma. O passo seguinte é começarmos a dar na RTP1. Mas uma coisa de cada vez. Nós em Portugal temos de melhorar em muita coisa. A importância que é dada ao desporto... as pessoas que lideram o nosso país têm de dar muito mais importância ao desporto. Não é só a questão da saúde. O desporto de alto rendimento é um veículo extraordinário para que o nosso país seja promovido. Eu gostava que quem lidera o nosso país viesse assistir a um estágio nosso, ficar ali ao lado, a ver o que nós trabalhamos.

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No Europeu, o Presidente da República ligou-lhe várias vezes. Desta vez ligou?
Desta vez não ligou. E eu compreendo. Com esta situação da covid-19 e aquilo que as pessoas estão a passar, eu não posso estar a perguntar porque é que o Presidente não me ligou. Tinha coisas muito mais importantes que o Mundial de andebol, não tenho a menor dúvida. A prioridade é a saúde e dar o máximo de conforto às pessoas que estão a passar mal. Muitas vezes nos lembrámos disso, de tentar atribuir as vitórias que conseguíamos às pessoas que estão a viver este momento negativo.

Fala-se muito das gerações de ouro, que esta é uma nova geração de ouro, mas imagino que, mais do que discutir isso, é importante pensar que é preciso estar de forma consecutiva em grandes competições, algo que não aconteceu nos últimos anos.
Exatamente. Nós nunca podemos esquecer aquilo que fizeram atletas de outros tempos, que foi excecional, mas o importante é começarmos a falar de Portugal enquanto seleção. É mais importante falar da modalidade, das conquistas que consegue para o país do que andarmos a comparar gerações, qual foi a melhor, qual foi a pior.

Até porque depois dessa geração do Carlos Resende, por exemplo, estivemos 18 anos sem ir ao Mundial e 14 anos sem ir ao Europeu. O que é que se perdeu neste período?
Houve uma quebra enorme porque na altura houve uma guerra entre a Liga e a Federação. Nem me vou posicionar, acho que chegou a uma altura em que ninguém tinha razão e poucos estavam preocupados com o andebol, já era mais o ego das pessoas a funcionar do que o interesse de todos. Isso levou a coisas como clubes da II divisão a representar Portugal nas competições europeias. Claro que isso não atrai investimento, provoca descrédito, desorganização nos clubes. Essa terá sido uma das razões, não foi a única. Aquela geração era ótima e os atletas começaram a terminar as carreiras e não havia jogadores de altíssimo nível que os substituíssem. Agora as coisas estão um pouco melhor. Mas por isso é que eu há pouco dizia que nós não podemos relaxar em nenhum momento porque podemos voltar à estaca zero.

É nessa altura que o Paulo sai do FC Porto e vai para fora. Esteve em Espanha, Angola, Tunísia. Quando voltou era um treinador diferente?
Sim, claramente diferente. Estive três anos como treinador principal do FC Porto, ganhámos campeonato, Taça de Portugal, Taça da Liga. Fisicamente trabalhávamos muito bem, talvez até demais, tendo em conta que alguns jogadores também estudavam, às vezes vinham demasiado cansados para aquele ritmo. Mas em termos táticos tive de aprender muita coisa durante os anos em que saí. Hoje sou um treinador mais atento a detalhes que na altura não prestava muita atenção e que são fundamentais para uma equipa render mais em jogo. Só o facto de nós nos dedicarmos em exclusivo a isto... Eu na altura estava no FC Porto e dava aulas no ISMAI e numa escola, tinha ali uma atividade confortável, que me permitia ganhar algum dinheiro tranquilamente. Tenho um amigo da Educação Física, meu vizinho, e eu na altura, em 2006, disse-lhe que tinha recebido um convite da equipa espanhola do Cangas, que me ia pagar mais ou menos o que eu recebia com as duas atividades que fazia. E ele disse-me: "Tu és maluco, és completamente maluco". E eu de facto nessa altura arrisquei bastante. E ele dizia-me isso, que eu era maluco. Curiosamente há dias essa mesma pessoa escreveu no Facebook que nós deveríamos ter tido mais cautela na questão da gestão da expectativa e que nunca deveríamos ter dito que íamos ao Mundial para ficar nas oito melhores equipas e depois para lutar pelas medalhas. É claro que essa pessoa, o que é que faz hoje? É professor de Educação Física e no andebol nunca mais foi treinador. Fica explicado. Felizmente, por ter estar forma de estar conseguimos - e digo conseguimos porque eu nunca ganhei nada sozinho - ganhar muita coisa, títulos em vários países, continentes. No feminino fui duas vezes campeão africano, com seleções diferentes [Angola e Tunísia], a Taça Challenge masculina no ano passado... Isto para dizer que sim, sou melhor treinador e ganhei a capacidade de arriscar sem ter medo do que me vão dizer. Eu quero lá saber disso. Quando decidi ser treinador profissional eu sabia que a minha mala tinha de estar sempre feita.

Portanto, só quando sai do FC Porto e vai para Espanha é que se torna um treinador 100% profissional?
Exatamente. Na altura eu até propus ao FC Porto ser profissional de andebol. Não ia ganhar mais por isso, o FC Porto só tinha de pagar aquilo que eu ganhava na universidade e na escola. Na altura acharam melhor não. Pronto, ok. Então eu fui atrás do meu sonho e até hoje. São 15 anos.

Acho que podemos dizer que correu bem.
Eu acho que sim, mas também posso dizer que houve momentos muito duros. O Cangas só pagava 10 meses, de uma temporada para outra eu fiquei dois meses sem salário. Eu não tinha necessidades, na altura bastava-me fazer um telefonema ao meu pai, mas recordo-me de ter de escolher entre beber uma lata de cerveja ao almoço ou ao jantar. Nessa transição nós tínhamos as contas todas muito contadas, com a hipoteca, com dois filhos, muita coisa. Recordo-me perfeitamente de abrir o frigorifico e dizer 'só tenho uma cerveja e não quero fazer mais compras'. Um calor... era verão. Guardei, bebi água ao almoço e a cerveja ao jantar. Só para não fazer mais contas, porque era tudo ao detalhe. Mas agora posso dizer que ganhei algum dinheiro e que isso faz com que eu possa decidir, como já decidi nos últimos dois, três anos, fazer isto ou fazer aquilo. Por ter arriscado tanto, hoje estou no posição em que posso olhar para um convite e dizer sim ou não. Há 10 anos não podia decidir, se aparecia um convite eu tinha de dizer logo que sim.

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Pouco depois do Euro 2020, o Paulo referiu que queria conciliar a Seleção com um clube. Imagino que a pandemia não o tenha permitido.
Não posso revelar o que aconteceu, mas houve uma possibilidade que teria sido muito interessante, até para os treinadores portugueses, poder ter um treinador português a treinar num sítio desses era ótimo. Mas a pandemia acabou por fazer com que as coisas não se concretizassem. De qualquer maneira continuo a perseguir esse objetivo, de poder estar a trabalhar em países de referência e pode vir a acontecer. Uma coisa que tenho a certeza absoluta é que um treinador também precisa de estar em forma. E o estar em forma implica ir ao pavilhão quase todos os dias e ter jogos com frequência. Sinto que quando estou a acumular um clube com a Seleção, quando venho à Seleção mais rapidamente consigo estar em forma. Não quer dizer que também em pouco tempo não o consiga fazer, rapidamente se apanha o comboio, mas eu tenho a sensação que demora mais tempo. E quando estamos a trabalhar num clube isso permite-nos estar com todas as competências no máximo nível, tal como os atletas. Tentarei eventualmente acumular com um clube na próxima época, mas também não vou aceitar qualquer clube. Já tive oportunidade de ir treinar para o Egito, por exemplo, para o Al Ahly, e não aceitei.

O Paulo é selecionador há quase cinco anos. Já dá para fazer um balanço?
O balanço tem sido positivo. Estamos estamos mais estruturados, há mais elementos a trabalhar no nosso grupo. Encontrámos mais soluções para as nossas necessidades. Hoje em dia os jogadores já vêm à Seleção Nacional com outro interesse, acho que vêm com mais compromisso. Conseguimos passar uma certa imagem de que representar a Seleção Nacional é mais do que ganhar um jogo, uma qualificação, até mesmo uma competição. Já entram as questões dos valores, do compromisso, da superação e do orgulho. É o que eu digo não só aos atletas como aos nossos administradores, isto tem de ser mais do que ganhar um jogo. Enquanto for assim, eu faço parte, quando deixar de o ser eu deixo de fazer parte.

Foi contratado para um plano a longo prazo e não só para dirigir um grupo de jogadores?
Eu acho que na altura não fui contratado para um plano. Fui contratado porque era um treinador barato, digamos assim, e que pouco a pouco as pessoas se foram convencendo que eu poderia ajudar. Neste momento acho que as pessoas estão convencidas que eu posso ajudar. Para um treinador português em Portugal é muito mais difícil. Se eu disse 'jump' eles saltam 60 centímetros, se eu disser 'salta' eles saltam 30. Para um treinador português é mais difícil em Portugal nas modalidades em que o impacto de um treinador estrangeiro é maior. Porque nós não vamos imaginar um sérvio a treinar hóquei em patins em Portugal, nem o deixamos entrar. E é a mesma coisa que se passa comigo quando penso em treinar na Alemanha, 'quem é este gajo?, não é? Isto é tudo uma luta.

Mas se calhar hoje o Paulo diz 'salta' e já saltam um bocadinho mais que os tais 30 centímetros.
Acho que entre nós, pouco a pouco, vamos modificando esta mentalidade que temos. Nós somos um bocado invejosos entre nós, falo até entre os treinadores. Felizmente eu acho que os treinadores mais novos vão percebendo que esse não é o caminho. O caminho é todos juntos aprendermos uns com os outros. Fico muito contente quando há treinadores que mostram interesse e me abordam. Eu sou o selecionador nacional, mas não sou o melhor treinador em Portugal. Há muitos treinadores portugueses de excelente qualidade. Os treinadores espanhóis estão por todo o Mundo e têm uma forma de estar completamente diferente. Ajudam-se, promovem-se uns aos outros.

E o que lhe falta fazer?
Espero que não sejamos atraiçoados com o querer tanto ir aos Jogos Olímpicos. Nós queremos muito. Mas neste torneio temos adversários muito fortes, sobretudo a França, por jogar em casa, e a Croácia [o grupo de Portugal tem ainda a Tunísia]. Se formos pela realidade, passam a Croácia e a França. Nós ainda estamos a criar estatuto. Eu vou dar um exemplo: no jogo contra a Noruega, no Mundial, houve ali um momento em que o chão estava molhado. O Gilberto Duarte e outro jogador português, eram dois, pediram ao árbitro para limpar o chão, 'por favor, limpe aqui, limpe aqui' e o árbitro só dizia 'siga, siga'. E vem o [Sander] Sagosen e pede para limpar o chão. E como era o Sagosen eles já limparam. Essa ficou-nos gravada, até comentámos que temos de aceitar, é o que temos, não temos estatuto ainda. E isso é algo que temos de ir criando. Nós vamos agora ao pré-olímpico e se as pessoas quiserem nós não vamos ao Jogos Olímpicos, até podemos fazer o melhor jogo do mundo. Eu não gosto muito de passar a imagem da conspiração, mas o que é certo é que este estatuto é algo que temos de ir criando para começarmos a nivelar com as outras equipas. É um processo. A Espanha passou pelo mesmo. Para já, assim a curto prazo é isto. A médio/longo prazo nunca sabemos o que vai acontecer.

Uma presença nos Jogos, a nível de visibilidade para a modalidade, era tudo o que podia pedir.
Sim, até para os atletas. Um atleta poder participar nuns Jogos Olímpicos, numa modalidade coletiva, é uma coisa única. São só 12 equipas. E nós estamos na luta. Para nós já é extraordinário podermos sonhar com isto. Nós fizemos uma reunião para fechar o Mundial, fizemos o balanço e o que poderíamos ter feito melhor e depois o objetivo agora para a próxima competição. E a malta toda: 'queremos ir aos Jogos Olímpicos!'. E eu, 'ai querem? Muito bem, então temos de mudar isto, aquilo, temos de fazer melhor aqui'. Nós até no staff já dissemos: se nos apurarmos, vamos fazer uma tatuagem com os anéis olímpicos, todos no mesmo sítio, vamos ter de escolher [risos]. Até o doutor que tem quase 80 anos vai fazer uma tatuagem! Isso já é prometido. Oxalá que consigamos, mas temos consciência que é o desafio mais difícil da nossa vida desportiva.

Numa situação destas, a nível de motivação não é preciso fazer nada.
Nada, rigorosamente nada. Aliás, temos é de às vezes acalmar. A motivação não vai ser um problema, nunca tem sido, aliás. Aqui há uns anos, em 2016, quando eu entrei, aí era. Eu sentia que os jogadores vinham à Seleção fazer um frete e agora a malta vem com aquele brilhozinho nos olhos. Porque vinham para perder. Porque foram muitos anos a perder, muitos anos. Aquilo era um estigma que estava ali e que era difícil modificar. Só quando começámos a ganhar alguma coisa, pouco a pouco, lembro-me de eliminarmos a Polónia numa qualificação para o Mundial - depois acabámos por perder com a Sérvia e não fomos - mas foi excelente. E a qualificação para o Euro 2020 foi mesmo o clique, o facto de termos ganhado à França em casa... sobretudo esse momento foi muito importante, porque hoje as pessoas já vêm à Seleção de outra maneira, lutam por estar na Seleção.

É essa a grande vitória do Paulo nestes cinco anos, mudar essa mentalidade?
Não quer dizer que tenha sido eu a mudar, ninguém muda se não quiser. Mas posso ter ajudado um pouco, porque eu acreditava que era possível fazer as coisas de uma forma diferente. Mas os jogadores foram os protagonistas principais, nós só ajudamos.