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Alfredo Quintana (1988-2021): o ápice do guerreiro extraordinário

Alfredo Quintana nasceu em Cuba, começou por gostar de basquetebol, voleibol e beisebol, mas foi o andebol que o levou até ao Porto e ao FC Porto. Estava há 11 épocas em Portugal, país a que agradecia tudo e a que protegeu as balizas no último Europeu e Mundial. Uma paragem cardiorrespiratória precipitou-lhe a vida, quando estava prestes a fazer 33 anos

Diogo Pombo

JONATHAN NACKSTRAND/Getty

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O pasmo é-lhe detetável, podemos não o ouvir mas está-lhe nas palavras, “é uma surpresa, é um atleta fantástico a nível físico”, muito de análises, de exames e de estetoscópios encostados à pele terá havido da parte de Augusto Roxo nos mais de dois metros daquele corpo entroncado. “Mas, por vezes, existem falhas no organismo”, dizia o médico da seleção nacional de andebol, ao jornal “Record”, ainda pasmado e já com este ‘mas’ da vida, que é como os livros.

Têm capas para iludirem e haver quem lhes pegue antes de saberem se gostam do que vão ler, seduzem pelas aparências, elas fazem o trabalho de ilusão, como as de Alfredo Quintana terão usurpado as perceções de muita gente.

Ele chegou com os 201 centímetros cubanos de arcabouço vertical, no topo assentava a cabeça calva e o olhar com persianas descaídas; aparentava serenidade e fortaleza, também pelas vestes quase sempre justas pelos contornos musculados do corpo, as pernas longas e os dois braços tribalizados com tatuagens, todos os membros ágeis, reativos e rápidos. Era a aparência de um atleta massivo, de elasticidade incomum para a sua envergadura e por isso ideal para estar entre a bola e uma baliza.

Mas, na segunda-feira e durante um treino, onde a vista destapada não vê ocorreu uma paragem cardiorrespiratória e sem mais, assim de repente, o fantástico atleta era levado para o hospital devido ao corpo, ao físico, à evidência de que a vida é tão adivinhável quanto o destino de uma bola atirada ao mar. Se for arremessada por uma mão é outra coisa.

Em março de 2011, chegava ao FC Porto, fundado com cerne no futebol, um guarda-redes vindo de Cuba e nascido em Havana cuja origem, e o contexto, nem estavam no andebol. Quintana vinha do Industriales, clube do seu país com prioridades no beisebol e onde ele entrou depois de praticar basquetebol e voleibol em criança.

Johnny Fidelin/Getty

O andebol surgiu a reboque do irmão, Alfredo começou por ser lateral, mas, como recordou ao “Jornal de Notícias”, os reflexos e a área coberta pelo corpo esculpiram-no em guarda-redes. Seria o primeiro cubano a jogar andebol em Portugal, já depois de competir no Mundial de 2009.

De calças e camisola de treino lá foi Alfredo Quintana, impondo-se aos poucos como o último reduto contra quem, dentro de pavilhões, puxava o braço atrás e dirigia à bruta uma bola de andebol para a baliza portista. À segunda época (2011/12) já fez mais de 30 jogos e não mais baixou desse registo.

Eram estiradas no chão, em altura ou com um pé a elevar-se à altura da cabeça para negar, imponentemente, muita gente que ousava saltar-lhe área dentro. Quintana tinha “qualidades que mais nenhum guardião em Portugal tem”, palavra de Telmo Ferreira, seu homólogo nas balizas do Água Santas, citado pelo “Record” em 2014, quando o cubano se hifenizou com a cidadania portuguesa.

Rolando Freitas, então selecionador nacional, convocou o luso-cubano pela primeira vez em setembro desse ano. Houve críticas à decisão, o precedente existia, mas parecia porta destrancada que não se podia abrir porque antes só Viktor Tchikoulaev, Vladimir Bolotsky e Vojislav Kraljic - um russo e dois sérvios - tinham representado Portugal no andebol. Foi Alfredo a deixá-la entreaberta para Daymaro Salina e Alexis Borges, os cubanos que viriam depois.

Seriam 58 jogos de Quintana na baliza da seleção, a comprovar o atleta que era e a validar o que a aparência sugeria acerca dele, o espadaúdo tipo que dava passo em frente se e quando todos os obstáculos portugueses não chegassem. “Nervoso? Não fico nervoso, só quando levo com a bola na cara. É normal”, admitiria ao jornal “Record”.

OLE MARTIN WOLD/Getty

Em 2018, com menos de 30 segundos no relógio, atirou-se ao chão na Lituânia para segurar o 23-24 que muito ajudou Portugal a estar no último Europeu; nesse torneio, agarrou uma bola contra a Bósnia e Herzegovina como se a origem do remate fosse uma criança da escola primária. “O Polvo Português”, chamar-lhe-ia a EHF (Federação Europeia de Andebol) após o 6.º lugar no Campeonato da Europa, ainda antes do 10.º no Mundial, já em 2021.

Durante todo este tempo, no qual couberam 11 temporadas com o FC Porto, seis títulos de campeão nacional e a sua existência tentacular no ressurgimento do andebol português lá fora, Alfredo Quintana foi, no trato, uma contradição ambulante das suas aparências - são muitos os relatos que o honram como alegre, bem-disposto, altifalante de canções cubanas e desbloqueador de timidez alheia para agilizar conversas com outros jogadores.

Em janeiro, o próprio Paulo Jorge Pereira, selecionador nacional de andebol, contou à Tribuna Expresso que o gigante luso-cubano andava “sempre com a música atrás, sempre a dançar”, o animador-mor de um balneário de feitos acumulados. As melodias da sua ilha relaxavam-no. “Estou sempre a cantarolar”, admitiria Quintana, que também se confessaria “agradecido por tudo” ao país onde não nasceu - “podia ter feito apenas uma defesa e, se a equipa ganhasse, saía do pavilhão o homem mais feliz do mundo”, chegou a dizer, após uma das vitórias no Europeu de 2020.

Em Portugal encontrara a mulher, natural de Braga, a filha nascida há poucos sóis e um curso tirado na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Tinha os arraias assentes no país, houve verões em que até se dedicou ao andebol de praia. “Gosto de toda esta região. Quanto namorava, ia passear com aquela que agora é a minha mulher e ela dizia: ‘Mas tu não nasceste aqui e conheces todos os cantos’. E eu dizia que já são muitos anos a morar aqui”, retratou ao “O Jogo”, ao falar do tempo que não era muito.

Porque foi um ápice, 11 anos são nada numa vida e muitíssimo menos quando o próximo 20 de março seria dia para Alfredo Eduardo Quintana Bravo cumprir 33 anos de existência. Neste último, chegou a dizer que lutava “desde criança”, que não era “um sobrevivente”, mas um “guerreiro extraordinário”. Toda a sua figura e aparência assim o tinham.