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“Queria ser o primeiro iraniano a ir a Israel sem problemas. Sou um atleta, não sou um político”. E foi assim que Saeid Mollaei fez história

O judoca nascido no Irão foi obrigado pelas autoridades do seu país a perder nos Mundiais de 2019 para não se cruzar na final com um atleta israelita. Foi a gota de água: depois de anos e anos de interferência dos responsáveis iranianos, denunciou as pressões e foi obrigado a mudar-se para a Alemanha e renunciar à nacionalidade para poder competir. Há uma semana, como atleta da Mongólia, competiu pela primeira vez em Israel

Lídia Paralta Gomes

JACK GUEZ/Getty

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Entre atletas a tentar ganhar medalhas e outros a trabalhar para uma qualificação olímpica, talvez a grande história do Grand Slam de judo em Telavive na última semana tenha um nome: Saeid Mollaei. O atleta de 29 anos até ganhou uma medalha, a prata, nos -81kg, mas não será isso que o fará entrar na história. Há uma semana, Mollaei tornou-se no primeiro judoca iraniano a participar num evento desportivo em Israel em mais de 40 anos.

Mas para isso sacrificou muita coisa, até o seu próprio passaporte.

Nascido em Teerão, Saeid Mollaei sagrou-se campeão do Mundo em 2018 e no ano seguinte caminhava para nova medalha em Mundiais, em Tóquio, quando o presidente do Comité Olímpico do Irão e o Ministro do Desporto do país ordenaram que perdesse de propósito nas meias-finais. Tudo para evitar lutar contra o israelita Sagi Muki na final.

Mollaei denunciou as pressões das autoridades iranianas, que teriam também ameaçado a sua família no Irão. Até porque os pedidos para perder e evitar confrontos com atletas israelitas são uma prática de anos e anos do regime iraniano, com motivações políticas, algo que o judoca não quis mais aceitar.

E com isso ditou a sua sentença. Do Japão, Mollaei já não voltou ao seu país e seguiu para a Alemanha, onde pediu asilo político. Já a Federação Internacional de Judo baniu o Irão das provas internacionais, apesar do país negar qualquer pressão a Mollaei e ameaças à sua família.

A viver e a treinar na Europa, Mollaei deixou a família no Irão e renunciou também à sua própria nacionalidade. Em finais de 2019, a Mongólia, outra das potências asiáticas do judo, ofereceu passaporte ao atleta, que agora compete pelo país.

E foi com documentos da Mongólia, mas com o coração ainda bem iraniano, que Saeid Mollaei fez questão de viajar para Israel e participar no Grand Slam de Telavive.

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“Fiquei muito feliz por ir a Israel pela primeira vez e tornar-me no primeiro atleta iraniano a fazê-lo em 42 anos, desde a revolução”, sublinhou o judoca numa entrevista que aceitou conceder ao diário israelita “Haaretz”, algo que também seria impensável caso não tivesse renunciado ao seu país.

Apesar dos receios da federação internacional, que temia que a presença de Mollaei em Telavive poderia colocar em perigo a sua segurança, o atleta fez questão de estar na prova para marcar uma posição. O presidente da federação israelita de judo, Moshe Ponte, foi essencial, ao assegurar que, por exemplo, Mollaei não tivesse qualquer problema no aeroporto à chegada ao país, revela também o "Haaretz".

Já em Telavive, Mollaei teve a oportunidade de treinar com a seleção israelita e de se encontrar com Sagi Muki, com quem forjou uma amizade próxima. O seu desejo era poder combater com Muki pela primeira vez, mas o israelita acabou eliminado logo na fase inicial do torneio, enquanto Mollaei seguiu até à final.

“Gostava de ter combatido com o Sagi pela primeira vez para provarmos ao mundo que quando estamos a combater, na vitória ou na derrota, há amizade e não política”, disse o judoca ao “Haaretz”.

“Queria ser o primeiro iraniano a ir a Israel sem problemas, com segurança e com amizade, porque sou um atleta, não sou um político”, frisou ainda, mesmo que isso o tenha obrigado a sacrifícios e a começar uma nova vida.

“Toda a gente sente falta do seu país e eu também o sinto - o Irão é o meu país. A emigração é difícil, mas deixei tudo para trás. Esqueci-me do passado. Tinha uma vida complicada, agora comecei de novo e vivo como uma pessoa livre, que trabalha para chegar ao seu objetivo”, explica.

E esse objetivo é voltar a Tóquio, a cidade onde a sua vida mudou para sempre em 2019, e ganhar a sua primeira medalha olímpica, em agosto desde ano.