Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

Este é Mvumbi, o gigante: uma estrela improvável, chamam-lhe o “Shaq do andebol” e recebeu um telefonema de Shaquille às três da manhã

Gauthier Mvumbi era apenas um rapaz tranquilo, grande e forte, que jogava o seu andebol e tinha o seu trabalho. Depois de lhe atribuírem a alcunha "Shaq do andebol", a vida nunca mais foi a mesma. Das solicitações da comunicação social ao telefonema de Shaquille O'Neal às três da manhã, Mvumbi ainda não caiu em si e vai gerindo a situação, ocupando o tempo enquanto não passa a pandemia e ele não pode jogar andebol

Tribuna Expresso

MOHAMED ABD EL GHANY

Partilhar

O franco-congolês de 135 kg por 1,95 m apresenta com orgulho o troféu de melhor jogador da partida que a sua seleção, a República Democrática do Congo, perdeu frente ao Bahrein, no Mundial de Andebol do Egito. Os espetadores andam entre os 80 e poucos e os 90 e muitos anos. São fãs incondicionais de Mvumbi. Enviaram-lhe uma fotografia a mostrar o seu apoio ao “menino” da região, cada um segurando uma letra da frase “Allez Gauthier”.

“Duas ou três senhoras choraram,” lembra um emocionado Mvumbi, jogador da quarta divisão francesa e estrela improvável do Mundial. A sua seleção – os Leopardos – terminou a prova no 28º lugar entre 32 equipas.

Tudo começou com uma alcunha, “El Gigante”, atribuída pelos comentadores argentinos fascinados pelo seu arcaboiço e pela sua eficácia no jogo com a seleção da Argentina. Mvumbi continuou ao mesmo ritmo (20 golos em 23 tentativas) e alguém viu nele uma espécie de Shaquille O’Neal, antiga estrela da NBA, de 2,16 m e 147 kg.

As redes sociais fizeram a sua magia e, apesar de o andebol ter poucos adeptos nos EUA, a alcunha de Mvumbi chegou aos ouvidos do próprio Shaq. Intrigada, a antiga estrela do basquetebol enviou a Gauthier uma mensagem privada em vídeo a perguntar: “Parece que és o Shaq do andebol, o que é que se passa?”. Grande fã da NBA, “El Gigante” ficou eufórico. A mulher foi a primeira a ver a mensagem. “Quando ela me disse, eu respondi: ‘Não é possível. O Shaq?! Deve ser uma conta falsa’. (…) Trocámos os números. No dia seguinte, ele ligou-me às três da manhã!”

De um momento para o outro, Mvumbi começou a receber pedidos de entrevista dos jornais. “Alguns jornalistas vieram bater à porta do meu quarto,” acrescenta com incredulidade. No final de janeiro, o andebolista estava de regresso ao apartamento onde vive com os seus pais, em Vernouillet, França. A mãe, que há trinta anos deixou Kinshasa com o marido, recebeu-o com um sorriso de orelha a orelha.

Desde então, a vida do “Shaq” nunca mais foi a mesma. “No aeroporto, os agentes da alfândega pediram-me uma foto. Foi fixe,” diz Mvumbi. Já foi entrevistado pelos principais canais de televisão franceses, mas também pelos alemães da ARD. Gauthier apenas lamenta não poder continuar a treinar, mas isso já não é da sua responsabilidade, há um vírus a roubar-lhe o protagonismo.

Ainda assim, o jogador de andebol tem um manager, o amigo e companheiro de equipa Ousmane Launay. Criou um grupo no WhatsApp chamado “Team Mvumbi management”, que partilha com Launay, um advogado, o seu irmão e a sua mulher. O objetivo da pequena equipa é arranjar um encontro em Los Angeles entre o Shaq do basquetebol e o “Shaq do andebol”.

Quanto à prática da modalidade, Mvumbi tem recebido convites de vários clubes europeus e uma proposta para ajudar a divulgar o andebol nos EUA. “Lá, as pessoas não conhecem o Nikola Karabatic, mas conhecem o Gauthier!,” exclama, divertido, Mvumbi, que anda a tentar melhorar o seu inglês. Nunca se sabe o que virá a seguir mas Gauthier já tem uma história incrível para contar.