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"Tenho muitos troféus, coisas nas prateleiras. Mas isto é a cereja no topo do bolo". Miguel Maia vai jogar pela primeira vez contra o filho

Miguel Maia, um dos melhores de sempre do voleibol nacional, vencedor de 16 campeonatos e que aos 49 anos continua a ser capitão do Sporting, enfrenta esta sexta-feira o filho Guilherme, de 18 anos e jogador da Académica de Espinho, num encontro da Taça de Portugal. É a primeira vez que vão jogar um contra o outro, mas provavelmente não será a única. A história, essa, é para acompanhar a partir das 21 horas, no pavilhão em que ambos aprenderam a ser voleibolistas

Lídia Paralta Gomes

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Guilherme Maia é um dos milhares de jovens universitários que por estes dias têm uma nova rotina. Não se sentam nos bancos da faculdade mas sim numa cadeira em casa, abrem o computador e assistem às aulas remotamente. Coisas da pandemia.

É precisamente antes de mais uma aula do 1.º ano do curso de Psicologia que Guilherme nos atende o telefone. Porque esta sexta-feira não é só mais um dia na vida do jovem de 18 anos. Daqui a umas horas, o jovem distribuidor vai equipar-se com a camisola negra do clube que o formou para o voleibol, a Académica de Espinho. Vai entrar em campo e do outro lado da rede estará uma cara conhecida. A cara do seu pai.

Nada mais, nada menos que Miguel Maia.

“A esta hora ainda não estou a pensar muito no jogo, porque tenho ainda coisas para me ocupar a mente durante o dia. Mas acredito que mal acabem as aulas vou estar sempre a pensar no jogo e vai aparecer esse nervoso, que é normal”, conta-nos o jovem.

Pode ser cliché, mas são mesmo coisas do destino. A pandemia terá adiado o primeiro encontro entre pai e filho entre as linhas de um campo de voleibol, mas ele vai mesmo acontecer esta noite, quando a Académica de Espinho receber o Sporting nos quartos de final da Taça de Portugal, às 21h (um jogo que pode acompanhar aqui). Não faltam por aí exemplos de filhos que seguiram as pisadas dos pais ou até de pais que treinam os filhos - veja-se agora Francisco Conceição no FC Porto. Já pai e filho a jogaram ao mesmo tempo em equipas rivais, será seguramente mais raro.

Guilherme relembra o dia do sorteio que ditou que Miguel Maia, 16 vezes campeão nacional de voleibol, o mais eterno dos nossos jogadores de voleibol e que aos 49 anos é capitão e peça essencial no Sporting, iria defrontar o seu filho mais velho, que subiu a sénior na Académica de Espinho há duas temporadas.

Guilherme ainda criança, ao colo do pai

Guilherme ainda criança, ao colo do pai

“Estávamos juntos quando começou o sorteio, mas tive de sair para ir treinar e mal saí de casa o meu pai ligou-me a dizer que íamos jogar. Ficámos muito contentes, era algo que ambos ambicionámos”, conta Guilherme. Já o pai fala de uma “satisfação enorme” e uma “grande alegria” e o concretizar de uma possibilidade e de um desejo que foi crescendo desde que Guilherme subiu à equipa principal da formação que está neste momento na 2.ª divisão nacional.

“Esteve para acontecer no ano passado, porque a Académica de Espinho chegou até ao fim na Taça de Portugal, mas a prova foi cancelada devido à pandemia”, explica Miguel Maia. A pandemia atrasou mais uma vez este jogo especial quando ditou o cancelamento da 2.ª divisão, numa altura em que a equipa de Espinho era líder.

Coisa de família

Numa cidade que respira voleibol e onde quase todas as famílias têm pelo menos um praticante, Guilherme começou a dar os primeiros toques bem cedo, aos seis anos, na academia que o pai formou com João Brenha, o seu companheiro de sempre no voleibol de praia, com quem esteve em três Jogos Olímpicos. Mas garante, apesar de estar numa casa de voleibolistas, que não houve pressão dos pais.

“Nunca nos forçaram a nada e gostam que experimentemos de tudo, quer na música, na dança, em todos os desportos”, conta Guilherme, que tem mais dois irmãos. Ana Miguel, com 17 anos, joga no Porto Vólei. Os três, pai, filho e filha, são distribuidores e os três usam o número oito. O caçula da família, Gonçalo, tem apenas 5 anos e, para já, ainda não joga.

Miguel Maia lembra que até aos 11 anos, Guilherme não mostrou particular interesse pelo voleibol. “Ele gostava de estar em grupo, de estar com os amigos e brincar. Levava o voleibol como uma brincadeira e não como uma paixão. Queria divertir-se”. Tudo mudaria com o convite para integrar a formação da Académica de Espinho, clube em que Miguel Maia também deu os primeiros passos - cresceu a 300 metros do pavilhão. “Convidaram-no para um escalão acima da idade dele e penso que foi aí que se deu o clique, deu-lhe a responsabilidade, a ambição e a vontade de poder jogar voleibol”, explica o pai para quem este jogo é duplamente especial.

Miguel Maia é o capitão da equipa do Sporting

Miguel Maia é o capitão da equipa do Sporting

CEV

O jogador do Sporting não só vai reencontrar a equipa pela qual se sagrou pela primeira vez campeão nacional como vai escrever um novo capítulo numa história com muitos títulos, com participações olímpicas que fizeram o país acordar a meio da noite para ver dois portugueses a lutar nas areias de Atlanta e Sydney - e ficarem tão próximos das medalhas -, e um título europeu na então CEV Top Teams Cup, em 2001, com o Sp. Espinho.

“É um jogo que vai ficar marcado no meu coração e também no coração da minha família e a amigos, dos meus fãs que gostam de me ver jogar. Talvez possa apelidar isto de ‘cereja no topo do bolo’. Tenho muitos troféus, muita coisa em livros e cadernos, nas prateleiras, mas não tinha uma situação destas”, conta.

Pena é não haver público nas bancadas, claro. “Penso que a cidade iria toda assistir, a família… íamos ter o pavilhão completamente cheio, de certeza, e seria também importante para a Académica de Espinho, para o clube renascer. E para mim também seria um reencontro, um regresso a casa, seria bonito”, lamenta Miguel Maia.

Caminhos semelhantes

Para lá de terem feito a estreia como seniores na mesma equipa, pai e filho partilham a posição: distribuidor. Para Guilherme, é difícil fazer uma comparação com o pai. “Nem seria bom comparar-me a uma pessoa que conquistou tanto”, sublinha. Mas Miguel Maia vê no estilo do filho “alguns pormenores parecidos” com o seu. “Vê bastantes jogos meus, é natural que algumas coisas fiquem. Mas a nível físico somos diferentes. Ele tem também um toque de bola com os braços muito mais esticados do que eu. Ainda não temporiza muito bem o passe, mas são coisas que ele vai aprendendo ao longo do tempo”, explica o jogador do Sporting, que reconhece em Guilherme “condições técnicas” para se tornar num bom jogador.

“Mas como em tudo, como em todas as profissões, tem de trabalhar, batalhar, sacrificar-se. Tem de correr atrás das coisas, que é o que eu lhe digo todos os dias. Ter um bocadinho de talento, ter as portas abertas, como ele tem neste momento, não chega”, frisa Miguel Maia.

Guilherme Maia ainda não era sequer nascido quando o pai e João Brenha ficaram à porta das medalhas tanto nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996 e Sydney 2000. E, tal como nos pavilhões, também tenta seguir o pai no voleibol de praia, cujos feitos conhece dos vídeos da família ou das imagens que vai apanhando no YouTube.

“Adoro vólei de praia, sinto-me muito feliz a praticá-lo e a verdade é que ambiciono chegar alto”, diz Guilherme. Esse alto poderia ser uma participação olímpica? “Já que o meu pai esteve no mais alto possível, também gostaria de seguir esse caminho”. O pai, no entanto, apela à cautela. “Tem de ter os sonhos dele, mas acho que isso não tem de ser uma obsessão, até porque ele sabe que os apuramentos são muito complicados. Tem de ter os pés bem assentes na terra e ir fazendo o percurso dele”, sublinha Miguel Maia.

Pai e filho jogam esta sexta-feira em campos opostos

Pai e filho jogam esta sexta-feira em campos opostos

Para já, no pavilhão, Guilherme procura ajudar a Académica de Espinho a chegar à 1.ª divisão, uma subida de escalão roubada pela pandemia na última temporada. E se tal acontecer, no próximo ano haverá novo reencontro familiar, até porque Miguel Maia, que em abril completa 50 anos, vai continuar a jogar pelo menos mais um ano.

Depois disso, ficará provavelmente apenas a faltar um dos desejos: jogarem juntos. “É um sonho, uma possibilidade”, diz Miguel Maia. “Mas uma coisa de cada vez, vamos ver esta sexta-feira, penso que será um dia muito especial. E depois outros dias vão aparecer, outras possibilidades. Seria de facto algo único, mas o importante agora é aproveitar este dia, tem havido muitas emoções e ainda nem sequer nos encontrámos em campo!”.

Já Guilherme não esconde o desejo de um dia poder partilhar o balneário com o pai: “Nós já aprendemos tanto a jogar contra ele, então a jogar com ele aprendemos muito mais. Seria muito especial. Já joguei com o meu primo, com o meu tio, jogar com o meu pai seria fantástico”.

Para já estarão em lados opostos da rede, a partir das 21 horas, no pavilhão da Académica de Espinho.