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Do triângulo invertido ao efeito campeões europeus: a década de crescimento do futsal em Portugal

A conquista do campeonato da Europa, em 2018, foi o culminar de um longo período de crescimento do futsal português, mas ainda há muito mais espaço de evolução, indica Pedro Dias, diretor da FPF, à Tribuna Expresso, no dia em que a formação retoma finalmente a atividade e em que o Portugal Football Observatory divulga um estudo que caracteriza a fundo a última década da modalidade

Mariana Cabral

A seleção nacional masculina de futsal conquistou o Europeu em 2018

JURE MAKOVEC

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Todos sabemos que uma imagem, mesmo que mental, normalmente vale mais do que muitas palavras, por muito boa que seja a explicação. E é por isso que Pedro Dias fala num triângulo invertido para caracterizar o futsal português. Se, antes, o topo do triângulo era muito maior do que a base, agora, a orientação é precisamente a contrária. “Tenho uma relação de longa data com o futsal e recordo-me que, numa apresentação do engenheiro João Rocha, que na década de 90 foi um dos elementos da integração do futsal na FPF, o fator que nos despertou mais atenção foi a pirâmide dos praticantes no nosso país: a percentagem de seniores à data era de 65% e a de formação era 35%. Hoje em dia esse triângulo foi invertido e estamos com 70% de praticantes de formação”, explica à Tribuna Expresso o diretor de futsal da Federação Portuguesa de Futebol.

Os números são analisados ao pormenor no estudo sobre a modalidade divulgado esta segunda-feira pelo Portugal Football Observatory (PFO), em que a tendência crescente dos praticantes de futsal já significa um aumento de 14% na última década, particularmente depois da implementação do plano estratégico entretanto desenvolvido pelo organismo. “O objetivo principal era que até 2016 o futsal se tornasse a modalidade de pavilhão mais praticada no nosso país, que não era à data. Este foi o ponto de partida”, recorda Pedro Dias, numa missão que foi entretanto cumprida e envolveu organizadores, clubes e agentes desportivos.

O crescimento do número de praticantes de futsal em Portugal nos últimos 10 anos

O crescimento do número de praticantes de futsal em Portugal nos últimos 10 anos

Portugal Football Observatory

O pico de crescimento - 5% - foi obtido em 2018/19, na época que se seguiu à maior conquista do futsal português: a seleção orientada por Jorge Braz sagrou-se campeã da Europa em 2018, perante a Espanha. "Os resultados desportivos de excelência contribuem para aumentar a procura", admite Pedro Dias, que recorda então o impacto imediato da vitória um pouco por todo o país. "Fomos campeões e na semana seguinte publicámos uma lista com todos os locais onde era possível praticar futsal, ainda na época 17/18, porque a procura de informação estava a ser tão elevada que tivemos de comunicar a toda a gente onde era possível jogar".

Mas o diretor da FPF ressalva que a divulgação não basta. "O ser possível jogar tem de ser compatível com uma oferta adequada, ou seja, ter instalações, clubes e espaços para as crianças terem boas experiências", acrescenta, assim como o aumento da formação média dos treinadores de todos os quadrantes. "Um dos fatores que consideramos críticos para o sucesso daquilo que está a acontecer de uma forma consistente, sem a menor dúvida, está relacionado com o trabalho de qualificação dos agentes desportivos, nomeadamente dos treinadores. É um trabalho invisível, pouco destacado, muito importante. Só na última década, tivemos mais de 100 cursos de treinadores de futsal", aponta, com o estudo do PFO a acrescentar que, mesmo assim, esta é uma área que ainda tem grande margem de progressão.

Os graus dos treinadores de futsal em Portugal na última década

Os graus dos treinadores de futsal em Portugal na última década

Portugal Football Observatory

"Apenas em 2012/12 introduzimos nos regulamentos medidas específicas relacionadas com as habilitações dos treinadores. À medida que havia oferta, podíamos dar passos seguintes", explica Pedro Dias, dando outro exemplo que redundou em crescimento, ou seja, num maior número de equipas por clube: "Implementamos a obrigatoriedade de existência de vários escalões de formação nos clubes que participam nas provas nacionais, o que foi uma medida politicamente difícil, porque a realidade à data era complexa, mas foi feito e foi decisivo. Neste momento, em termos médios, na maioria das associações, os clubes têm três ou mais equipas", indica, com o estudo a confirmar isso mesmo.

Média de equipas por clube e Associação em Portugal

Média de equipas por clube e Associação em Portugal

Portugal Football Observatory

De acordo com o diretor da FPF, esse foi "um passo decisivo", porque Portugal precisa de criar mais condições para a prática desportiva dos jovens. "Um dos problemas críticos que temos no desenvolvimento desportivo no nosso país é olhar muito para o rendimento. Para o resultado aparecer de forma consistente, precisamos de ter bases sólidas. Se temos um potencial de aproximadamente 1,6 milhões de crianças, entre os 5 e os 18 anos, e se sabemos quais são os indicadores de referência de uma prática desportiva regular que nessas idades deve existir, nós, federações, percebemos rapidamente que temos de fazer muito mais, porque temos apenas 20% dessas crianças, pelos dados oficiais, a praticar desporto de forma regular e ativa", nota.

"Todas as federações têm de fazer esforços para aumentar de forma significativa o tipo e a qualidade da oferta, nomeadamente na iniciação à prática desportiva", defende, acrescentando que é também por isso que o PFO está a desenvolver atualmente uma carta das instalações desportivas em Portugal, não só de pavilhões, mas de campos de futebol e de futebol de praia.

"No futsal há um fator que é crítico para aumentar a oferta e qualificá-la, que passa pelas instalações desportivas. As cinco federações das maiores modalidades coletivas de pavilhão - basquetebol, andebol, voleibol, patinagem e futsal - têm tido uma colaboração muito estreita porque partilham o mesmo espaço e representam mais de 60% dos praticantes federados, e, por assim dizer, fazem concorrência à utilização dos espaços. Se havia neste momento uma ferramenta fundamental para projetar este desafio que o Estado nos está a lançar era a atualização da carta das instalações desportivas, para podermos, entre nós, perspetivar de que forma é que podemos crescer, porque se não houver espaços para prática, dificilmente conseguiremos assumir alguns desafios", alega, referindo-se ao objetivo indicado pelo Governo junto da União Europeia: entrar, até 2030, no top 15 europeu em termos de hábitos de prática desportiva regular da população.

SOPA Images

"Temos de perceber não só se há número insuficiente de instalações desportivas, mas também se há abertura nos períodos críticos de prática: se a partir das 18h, num potencial de mil pavilhões do nosso país, por exemplo, estão todos abertos. Porque se 50% dos pavilhões a partir das 18h estiverem fechados, porque são, por exemplo, de uma escola... Então temos de articular medidas com o Estado, com as autarquias, e abrir essas instalações, porque duplicamos logo aí a capacidade instalada de oferta e isso permite seguramente aos clubes aumentar o número de horas de prática semanal, um aspeto muito importante, assim como aumentar o número de equipas que podem praticar. Penso que isto será o próximo passo", afirma, apontando já para o futuro da(s) modalidade(s).

"Este é um percurso longo, mas numa década desportiva é possível perceber o que foi feito e o muito que ainda há para fazer, como identificam as pistas dadas por este estudo", conclui, elogiando o PFO e destacando algo que considera mais satisfatório do que os títulos ou as vitórias. "Vivenciar momentos como vivenciei na semana passada, em contexto de seleção, ao estar à mesa com a equipa técnica nacional e com todo o staff e pegar no meu iPad, ir ao álbum das fotografias dos torneios interassociações que a FPF organiza e, a partir de 2012, começar a clicar nos eventos sub-15 e ver a maioria daqueles miúdos com 12, 13, 14 anos ali sentados à mesa, na seleção. Sinceramente, esse é o legado principal que podemos deixar: criar condições para que haja cada vez mais condições para oferta de prática desportiva e qualificar essa mesma oferta. Recordo-me perfeitamente que um dos miúdos que mais aparecia nas fotografias era o Silvestre Ferreira e recordo-me do contexto social dele naquela altura, quando representava a AF Setúbal e tinha 13 anos. Neste momento ele é internacional A, é um jovem de grande potencial e acho que o desporto teve uma importância decisiva na vida daquele jovem."