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‘Método Mondelo’ leva ex-atletas espanholas a pedirem medidas: “Que algum organismo acabe com isto a tempo, por favor!”

Marta Xargay e Anna Cruz deixaram a seleção espanhola de basquetebol antes dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Depois, contaram publicamente as situações por que passaram ao serem treinadas pelo ex-selecionador Lucas Mondelo. A história que está a assombrar o basquetebol espanhol levou vários ex-atletas a manifestarem-se sobre o assunto

Rita Meireles

Europa Press Sports

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Algumas das principais protagonistas dos últimos sucessos da seleção feminina de basquetebol espanhola decidiram colocar um ponto final na forma como estavam a ser tratadas ao serviço da equipa. Primeiro, optaram por pôr fim à carreira pela seleção e, em seguida, tornaram público aquilo por que passaram durante anos devido ao ‘Método Mondelo’.

Publicamente, a história começou com os testemunhos de Marta Xargay e Anna Cruz. Mas não terminou aí.

As duas jogadoras relataram a forma como o ex-selecionador Lucas Mondelo as tratava e as consequências que tudo isso lhes trouxe a nível físico e psicológico. Mas, enquanto Cruz defendia que “não vale tudo para ganhar” e Xargay vincava que “há limites que não devem ser ultrapassados, Mondelo emitia um comunicado a negar todas as acusações.

Este caso criou uma onda de choque e indignação, principalmente em Espanha. Em entrevista ao "El País", jornal onde as atletas contaram a sua história, outros nomes do universo desportivo saíram em defesa das basquetebolistas e de qualquer tipo de opressão no desporto.

A ex-ginasta Almudena Cid tornou pública a sua posição através do Instagram: “Chega! Na ginástica rítmica, no basquetebol… Que algum organismo acabe com isto a tempo, por favor!”, lê-se.

“Eu nunca recebi um insulto, mas vi como insultavam. Vi colegas a receber pedidos para lhes levarem cafés ou fazerem massagens. Comportamento vergonhoso e atroz quando se está na elite”, afirmou Cid, ao "El País". Para a ginasta, falta informação para os atletas quando chegam a uma seleção ou um clube em relação ao que devem, ou não, tolerar, além de formação e supervisão para treinadores.

Almuneda Cid, antiga ginasta espanhola

Almuneda Cid, antiga ginasta espanhola

LLUIS GENE

Também ex-jogadora de basquetebol, Amaya Valdemoro reflete sobre o papel da mulher quando comparada com o homem.

“Historicamente, as mulheres não têm a mesma voz que os homens e esse é um problema que também está enraizado no desporto. Temos mais medo de nos exprimir e isso significa que não estabelecemos limites. Precisamos conseguir falar sem medo”.

Ainda assim, nos casos em que a mulher opta por falar publicamente, nem sempre é entendida.

“Quando mostramos o nosso caráter, somos vistas como uma ameaça. Nos homens, é um traço de personalidade, mas no nosso caso é rebeldia”, explica Valdemoro.

Às medidas necessárias apontadas por Cid, Valdemoro acrescenta a importância da renovação de estruturas, realçando que “quase todos os gestores, treinadores e diretores são homens, no basquetebol está apenas Elisa Aguilar". A espanhola considera que no desporto "deve evoluir da mesma forma que a sociedade está a evoluir”.

Valdemoro foi uma das jogadoras que, após os relatos recentes, veio a público afirmar que já viveu a mesma situação enquanto jogadora.

AFP

José Manuel Beirán, psicólogo na área do desporto e ex-jogador de basquetebol, juntou-se ao grupo de atletas que se manifestou sobre o assunto: “o respeito pelas pessoas não é incompatível com o alto rendimento e com os resultados”, disse, também ao "El País".

“Há países que utilizaram e utilizam métodos extremos. Têm tantos atletas que não se importam que muitos fiquem pelo caminho. Mas nós, como sociedade, ganhámos limites e respeito por certos valores. Não podemos dizer: se 90% dos atletas se lesionarem ou caírem, os outros 10% sairão mais fortes. Não vale tudo, mesmo que esses métodos garantam medalhas, como nos tem sido vendido por décadas”, explica Beirán, acrescentando o quão importante é que atletas e treinadores tenham ferramentas para lidar com a pressão.

Importante é também o facto de estas situações se tornarem públicas, “não para criar polémica, mas para que não volte a acontecer”, considerou Valdemoro.

Como a sérvia Sonja Vasic, jogadora de basquetebol, disse à mesma publicação, a resiliência dos desportistas faz com que avancem com medo de expressar as emoções, o que lhes dá uma imagem de robôs. “O nosso mecanismo de defesa como profissionais é esquecer tudo, acabando por assumir o sofrimento como algo normal. Mas não deveria ser assim”, conclui.