Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Modalidades

Meena Asadi é afegã e treinadora de karaté, mas olha sem esperança para o Afeganistão: “Tudo acabou para as mulheres atletas”

Os testemunhos chegam de todas as modalidades, mas há algo que todos têm em comum: a certeza de que as mulheres serão as mais afetadas pelo governo talibã no Afeganistão. Meena Asadi, afegã e treinadora de karaté, não tem dúvidas sobre isso

Rita Meireles

Reuters

Partilhar

Em Cisarua, na província de West Java, uma cidade nos arredores de Jacarta, existe um local onde uma campeã de karaté se dedica a ajudar jovens refugiados a combater os anos difíceis que deixaram para trás. O local chama-se Refugee Shotokan Club, a campeã é Meena Asadi e tudo isto só é possível porque se trata da Indonésia.

Não é o Afeganistão.

Asadi deixou o país com apenas 12 anos. O destino foi o Paquistão, onde começou os treinos de karaté que a levaram a representar o Afeganistão nos Jogos Sul-Asiáticos de 2010. Um ano depois tentou o regresso, que ainda a possibilitou abrir um clube da modalidade, mas a violência no Afeganistão obrigou-a a ir para fora novamente. Foi quando se mudou para a Indonésia.

Hoje, olha para a situação do seu país sem qualquer esperança: “Sinto-me miserável. Perdi a esperança e o povo do meu país também perdeu a esperança”, disse, em entrevista à Reuters.

Com o Afeganistão nas mãos dos talibãs, “todas as conquistas e valores estão destruídos”, considera Asadi, sendo que, para a ex-atleta, quem vai sofrer mais com tudo o que se está a passar são as mulheres e raparigas.

Como, aliás, já está a acontecer. Também dentro do universo das artes marciais, Zakia Khudadadi, praticante de taekwondo, viu-se obrigada a desistir do sonho de ser a primeira mulher a representar o Afeganistão nos Jogos Paralímpicos de Tóquio. O dia em que iria viajar para o Japão foi o mesmo em que Cabul passou a ser controlada pelos talibãs. Os tumultos na cidade não lhe permitiram apanhar o voo.

“Tudo acabou para as mulheres atletas”, garante Asadi.

E mesmo com os líderes talibãs a afirmarem que as mulheres afegãs continuarão a ter o direito à educação e a uma carreira profissional, como já tinham conquistado, a agora treinadora de karaté tem dificuldade em acreditar nisso.

“Eles são o partido extremista, e não acreditam nos direitos humanos ou nos direitos das mulheres. Nunca mudarão... são os mesmos Talibãs”, afirma.