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“Gente, já ganhámos isto”. Portugal ganhou e está, pela primeira vez na história, na final do Mundial de futsal

A seleção nacional bateu, nos penáltis (após um 2-2), o Cazaquistão e irá discutir com a Argentina o título, num duelo entre o campeão mundial e o da Europa. Numa partida emocionante, Portugal esteve a ganhar até 46 segundos do fim do tempo regulamentar, sofreu o empate, entrou no prolongamento a perder e levou a decisão para os castigos máximos com um tento a um minuto e 38 segundos do fim, mas no final Bebé e Vítor Hugo foram heróis

Pedro Barata

Oliver Hardt - FIFA/Getty

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Escreveu Eugénio de Andrade que "São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas". Não sabemos se Jorge Braz é leitor de poesia, mas o selecionador nacional de futsal está-se a tornar num excelente utilizador do poder da palavra, da força que a junção de algumas letras pode ter no mundo.

Contra a Espanha, o treinador soltou um "ando há 20 anos a dizer que somos melhores do que eles" nos instantes finais da partida que veria a sua equipa garantir a presença nas meias-finais da mais importante competição de seleções do mundo. Frente ao Cazaquistão, após o 2-2 no tempo regulamentar e prolongamento, Jorge Braz, antes da decisão por penáltis, disse aos seus jogadores: "Gente, já ganhámos isto".

E a equipa lusa venceu, apurando-se, pela primeira vez, para a final do Mundial. Domingo, dia 3 de outubro, o adversário será a Argentina, a campeã do mundo que, na última edição da prova, eliminou Portugal nas meias-finais.

Angel Martinez - FIFA/Getty

Portugal, campeão da Europa em título, saltou em campo em Kaunas, na Lituânia, para tentar pisar território desconhecido. As meias-finais, nas quais os lusos haviam estado em 2000 e 2016, eram o máximo que o futsal português tinha conseguido num Mundial. Embalados pela confiança da vitória contra a Espanha, os homens de Braz começaram confiantes, mas o primeiro tempo foi de grande equilíbrio.

O selecionador nacional havia avisado para a qualidade do Cazaquistão, e o adversário confirmou essa competitividade. Logo aos três minutos, a equipa do brasileiro Kaká teve um golo anulado, mas a verdade é que as melhores oportunidades, na etapa inaugural, foram portuguesas.

Com Ricardinho em destaque na recuperação de bola, Pany Varela, Afonso, Bruno Coelho e Miguel Ângelo poderiam ter inaugurado o marcador, mas a pontaria ou a qualidade do guardião Higuita evitaram o 1-0.

Higuita que, diga-se, não se destacava só a defender, visto que subia regularmente com bola para se juntar ao ataque, acabando por assistir Taynan, antigo atleta do Sporting, para a melhor jogada do Cazaquistão do primeiro tempo, com um acrobático remate à barra, lance ao qual se seguiu novo disparo da formação cazaque ao ferro. O nulo ao descanso refletia o equilíbrio na contenda.

Angel Martinez - FIFA/Getty

O recomeço do jogo foi perfeito para Portugal. Pany Varela vive um momento de grande confiança, tendo sido decisivo nos oitavos (com um bis à Sérvia), e nos quartos, marcando à Espanha. Poucos minutos depois do arranque da segunda parte, o jogador do Sporting aproveitou uma recuperação de bola de Portugal (aspecto no qual, durante boa parte do desafio, a equipa se destacou) para fazer o seu 6.º golo no Mundial e colocar os lusos na frente do marcador.

Portugal ganhou confiança com o tento e Zicky e João Matos estiveram perto de aumentar a vantagem, mas a parte final do jogo trouxe forte pressão da equipa do Cazaquistão. Com o guarda-redes Higuita a travar particular duelo com Bebé (sempre ganho pelo português), a equipa de Kaká encostou os campeões da Europa às cordas.

Entre os minutos 35 e 38, Bebé fez quatro defesas de grande nível. Mas, a 46 segundos do fim, João Matos não conseguiu aliviar um remate de fora da área, acabando por desviar a bola para cima da baliza portuguesa, onde Dauren Nurgozhin apareceu para confirmar o empate e levar a meia-final para prolongamento.

Alex Caparros - FIFA/Getty

Se o final dos 40 minutos tinha trazido dissabores a Portugal, pior ficaram os campeões da Europa no começo do prolongamento. Douglas Júnior, com um remate forte de livre que passou entre as pernas de Bebé, colocou o Cazaquistão a vencer a nove minutos do fim.

Portugal tentou forçar na parte final, com muitas bolas colocadas em Zicky Té, o jovem de 20 anos que todos acreditam ser a grande referência do futuro do futsal nacional, mas a equipa cazaque ia-se defendendo como podia.

Até que apareceu o já conhecido herói desta modalidade em Portugal. A um minuto e 38 segundos do fim, Pany Varela, a transbordar de confiança, arrancou com a bola, lutando por um ressalto que foi parar ao pés de Bruno Coelho. Este, de pé esquerdo, rematou de primeira, vestindo o mesmo fato de herói que envergou na final do Europeu de 2018 para levar a decisão para os penáltis.

Angel Martinez - FIFA/Getty

"Gente, já ganhámos isto". A frase de Jorge Braz foi uma das últimas que os jogadores ouviram antes de começar a decisão. Bebé, para vincar uma grande exibição, defendeu o primeiro remate do Cazaquistão, com Bruno e André Coelho a não falharem.

A partir do terceiro castigo máximo, foi Vítor Hugo, de maior envergadura que Bebé, para a baliza nacional. Pany Varela, cumprindo o síndrome que dita que o jogador em destaque falha o seu penálti, permitiu a defesa de Higuita, mas Ricardinho, com a sua classe, acalmou as hostes nacionais.

E, na última ronda de penáltis, Vítor Hugo defendeu e Tiago Brito fez explodir a festa portuguesa em Kaunas. Não sabemos que frase levará Braz para a final contra a Argentina, mas a sua seleção, campeã da Europa em título, já ganhou o direito de ir disputar o jogo mais importante da história do futsal português.